A metamorfose da metamorfose

Por Paulo Marreco. No Waves:

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Uma manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si  na cama transformado num gigantesco inseto. E se Gregor Samsa, personagem central do livro A Metamorfose, de Franz Kafka, fosse surfista? Imaginemos:

 

Gregor Samsa acordou sobressaltado. Tivera um sonho pavoroso: sonhara que havia se transformado numa barata gigante e asquerosa, e que agora era rejeitado por todos. Suspirou aliviado assim que acordou e percebeu que tudo aquilo fora apenas um sonho disparatado. Acho que exagerei no caldo de mocotó ontem à noite, pensou. Enquanto sacudia as estranhas sensações produzidas pelo amontoado de imagens, pelo enredo sem lógica, mas extremamente convincente (afinal, por mais que o sonho seja uma história sem pé nem cabeça, enquanto estamos dormindo, ele sempre nos parece coerente), do insólito sonho, percebeu que tinha sede; ah, mocotó arretado! Além de sede, sentia calor, muito calor.

 

Entreabriu os olhos, mas não enxergou nada; o quarto estava como ele gostava; completamente escuro. Deve estar quase na hora de ir para a faculdade. Ai, que preguiça; que vontade de matar aula e pegar onda! Mas, nem pensar; as provas finais estão chegando, e eu preciso tirar nove, senão levo bomba em Processo Civil! E aquele professor miserável implica comigo só porque eu sou surfista e, ao invés de prestar atenção na aula, fico só azarando as gatinhas da sala…

 

Êita sonho esquisito… Virei barata! Vê se pode! Tava eu lá, um baratão gigante, mamãe chorando, papai todo estressado, até o professor Flávio entrou na dança… Acho até que tem um livro assim, como é mesmo o nome? A Metamorfose, se não me engano, só que o cara virava uma cobra, ou um sapo, ou um monstro verde, tipo o Hulk, sei lá… Acho que eu preciso ler mais… Bom, vamos nessa, que a hora é essa!

 

Quando foi se espreguiçar, levou um susto: não sentiu os membros; nenhuma sensação nas mãos, nos pés, nas pernas, nos braços, nada! Aliás, sentia um estranho formigamento que percorria seu corpo. E a sede que apertava sua garganta.

 

Tentou olhar para baixo e examinar os membros, mas não conseguiu; sentiu o pescoço duro, sem mobilidade; tentou se apalpar, mas os braços realmente não respondiam aos comandos do cérebro. Começou a ficar preocupado; será que eu estou ficando paralítico? Deus me livre!

 

A estas alturas, a luz do sol principiava a se infiltrar pelas frestas da persiana e expulsava lentamente as trevas noturnas. Ouviu um murmúrio vindo de trás da porta, mas o som era muito baixo; seria sua mãe, chamando-o para a aula? Achou que sim, e foi responder: já vou, mãe.

 

Ficou apavorado com o som que saiu de sua boca: uma série de guinchos agudos, ininteligíveis; nenhuma palavra articulada, mas um som que ele já ouvira antes, porém não conseguia identificar; só sabia que aquela, decididamente, não era sua voz. O que está acontecendo comigo? Porque eu não consigo mexer os braços? Porque eu não consigo falar? E esse calor, e essa sede?! Que doença será essa?

 

Resolveu que tinha que levantar-se. O cérebro ordenou novamente aos braços e pernas que se movessem; novamente, a desobediência dos membros. Mas agora ele estava decidido a sair daquela cama. Talvez estivesse sonhando ainda, aquele tipo angustiante de sonho, em que tentamos correr, mas não saímos do lugar, ou tentamos falar e não conseguimos abrir a boca. Esse tipo de sonho deve ter algum significado. Quando eu acordar, vou fazer uma pesquisa, só para saber… Percebendo que seus membros amotinados não se moveriam, começou a sacudir o corpo, balançando-se freneticamente, convulsivamente, até que caísse no chão, até que acordasse do desvario.

 

Caiu, mas não acordou. Sentiu dores por todo o corpo, já que não conseguiu mover os braços para amortecer a queda. Sentiu-se impotente, inválido. Indefeso. Começou a se debater numa tentativa desesperada e vã de levantar-se; foi quando olhou para a porta aberta do armário. O que viu fez seu coração gelar: ali, refletido no espelho, no lugar onde deveria estar um surfista, um universitário de dezenove anos, o filho querido de Dona Nair, havia…    

 

Um golfinho!

 

Isso mesmo: Gregor Samsa estava transformado em um golfinho! Mas, como era possível? Ninguém saberia; como é possível alguém ser transformado em barata? Como é possível ninguém morrer numa certa nação? Ou uma cegueira branca assolar a população de outro país? Como é possível padres levitarem movidos por chocolate? E, o mais intrigante, que sede ardente é essa, que calor é esse?

 

Gregor Samsa, o surfista, nada sabia destas coisas; não sabia se isso era possível, nem se esta era a primeira vez que tal fato acontecia, nem se seria a última; a única coisa que sabia no momento era que ele foi dormir gente, e acordou golfinho.

 

Contemplou o seu novo e estranho eu no espelho, ao mesmo tempo estarrecido e admirado de suas novas formas.

 

Foi quando percebeu que aquela transformação bizarra poderia ser a realização de seus mais delirantes sonhos.

 

Sim! Como golfinho, poderia desfrutar, com total liberdade, de quantas ondas desejasse! Com aquele corpo delgado, com aquelas poderosas nadadeiras, dominaria completamente qualquer pico da região. Da região, nada: do planeta! Agora, ele é que seria o verdadeiro local, em qualquer praia. Nunca mais teria que se submeter à vontade daqueles trogloditas bombados otários, que se achavam os donos do pedaço. Expulsaria a focinhadas, mordidas e rabeadas, qualquer um que se aventurasse em seus domínios. Surfaria as melhores ondas na Joaca, em Saquá, Itacaré…

 

Quanto será que um golfinho consegue nadar? Surfaria Jeffrey´s, G’Land, Chicama, Pipe… Nada, para que ir até o crowd? Desbravaria ondas perfeitas e desertas, nunca dantes navegadas nem surfadas, nos cantos mais inóspitos do globo…

 

Subitamente, se deu conta de que havia um problema em realizar seu novo projeto de surfe: da mesma maneira que um corpo humano não é feito para habitar os mares, corpos de golfinhos não são exatamente os mais apropriados para a vida em terra firme: se Gregor não conseguia nem mesmo ficar de pé, como seria capaz de pegar um carro e dirigir até a praia? Não conteve um sorriso ao imaginar o espanto do guarda de trânsito ao multar um golfinho por dirigir em velocidade acima do permitido…

 

Mas o sorriso durou pouco. Foi substituído por uma angustiosa sensação de falta de ar. Quanto tempo um golfinho suporta viver fora d’água? Gregor estava prestes a descobrir. Seus pulmões ardiam, sentia o mundo girar; diante de seus olhos, pontinhos brilhantes borboleteavam, anunciando que sua mente estava prestes a mergulhar na inconsciência. Para sempre. Adeus, mãe, pai, perdoem qualquer coisa; adeus Letícia, meu amor; eu azarava todas, mas eu gostava mesmo era de você… será que no céu tem onda? Será que eu vou para lá? Será que… será… se…

 

O surfista metamorfoseado em golfinho expirou, sozinho no seu quarto semi-iluminado pelos raios de sol que anunciavam, após tanto tempo, um belo dia.        

 

Foi assim que, numa insólita manhã de inverno, Gregor Samsa, o surfista, deixou este mundo. Até hoje, seus pais buscam pistas do psicopata que teria seqüestrado seu amado filho, deixando em seu lugar o cadáver ressecado de um golfinho.  

QUEDA DE BRAÇO NA FAMÍLIA -1 SOGROS, SOGRAS, GENROS E NORAS.

Por Jeremias Pereira. No Facebook:

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Nenhum sogro ou sogra tem o direito de entrar na casa da nora ou do genro e dizer desaforos. Mesmo que more no mesmo prédio, no mesmo andar, e o apartamento tenha sido doado pelos sogros. O vice-versa também é verdadeiro. Também é verdadeiro para vizinhos do mesmo condomínio. Dentro da casa da pessoa, estamos debaixo da autoridade da mesma e devemos ter muito respeito com aquele lar. Isso vale também para amigos, primos, cunhados e os outros eteceteras. Acho que se vivermos assim, viveremos melhor e mais felizes em família. Evite os desabafos agressivos, as gritarias, os “sapateados”, e os barracos. Quando houver necessidade de ajustes -e sempre haverá-, descubram o melhor lugar e a maneira mais legal de falar com firmeza e ternura e encontrar soluções. Se já aconteceu coisa semelhante é preciso quebrantamento e buscar pontes de reconciliação. A família deve ser superior às nossas desavenças, “direitos” e razões.
Abraço.

 

Comento: falou e disse.

Bill Gates viaja pelo mundo para convencer bilionários a doar suas fortunas

Raul Juste Lores, de Nova York. No BOL:
 
O empresário e filantropo americano Bill Gates, 57, prepara uma série de viagens pelo mundo para convencer outros bilionários fora dos EUA a doar boa parte de suas fortunas para a filantropia –como ele mesmo já fez. Ele também afirmou que países de renda média –como o Brasil– deveriam doar mais e ajudar países “muito mais pobres” pelo mundo, especialmente em tecnologia agrícola e vacinação.
Em um hotel em Nova York, falando a um grupo de quatro jornais internacionais, entre eles a Folha (o único latino-americano), ele disse que conseguiu convencer 92 bilionários americanos a doar fortunas “muito antes do testamento, em vida, cobrando resultados e colocando seus conhecimentos para a filantropia”. O fundador da Microsoft vai anunciar que países irá visitar, dentro da campanha “Giving Pledge”, em fevereiro. Gates já afirmou que deixará 95% de sua fortuna pessoal para a filantropia. “Agora é hora de falar com bilionários pelo mundo. Muitos deles já fazem suas ações de filantropia, mas podemos fazer mais”, disse. “Não será fácil, porque não existe a tradição. Pode até levar um tempo, mas vale a pena.”
Gates lançou ontem a carta anual da Bill & Melinda Gates Foundation, criada em 2000, em que fala de progressos em educação e saúde, principalmente em países africanos e asiáticos. “É uma chance de compartilhar minhas visões, dar opiniões e falar de dados e inovação”. A íntegra da carta (já traduzida para o português) pode ser lida em bit.ly/11hemKd. À Folha Gates disse que o Brasil deve elevar a ajuda externa aos países mais pobres, o que outros países de “renda média” deveriam fazer mais. “A Embrapa é um tesouro mundial, pois conhece profundamente os grãos e os solos tropicais, aquela informação valiosa para países africanos e asiáticos. O Brasil tem diversos acordos bilaterais, especialmente com a África lusófona, tem grandes programas de vacinação com o Butantan, mas sempre dá para fazer mais”, afirmou.
 
CRISE Tanto na carta quanto durante a entrevista, Gates falou repetidas vezes sobre a necessidade de medir resultados e de ter objetivos na filantropia. Em tempos de crise, quando até tradicionais países doadores estão apertando os cintos, é importante saber exatamente os resultados “para que isso continue a ser uma prioridade para as pessoas, os contribuintes”. O filantropo disse que, “em um mundo com GPS, imagens por satélite, celulares onipresentes e softwares baratos”, nunca foi tão fácil medir o impacto de programas e doações. Na carta, ele fala de um projeto no Estado americano do Colorado, em que professoras são avaliadas pela performance dos alunos, em entrevistas e por “professoras-mentoras”, entre as mais bem avaliadas do distrito, que passam 30% do seu tempo assistindo à aula de colegas.
 
EDUCAÇÃO A tripla avaliação garante aumentos de salários e bônus para as professoras com a melhor avaliação, para reter as melhores no emprego. “Os melhores países do mundo em avaliação de professores também estão entre os que têm alunos com melhores resultados em testes internacionais, como Cingapura e Coreia do Sul. Isso demonstra a vantagem da avaliação. Vão bem melhor do que os EUA”, afirmou Gates. “Mas, em muitas partes do mundo, ainda precisamos checar se os professores não estão faltando muito. Há o ‘status quo’ dos sindicatos, que não querem mudanças.” Ele disse que não sabe como é no Brasil, mas que, “no México e na África do Sul, os resultados dos alunos são ainda piores que nos EUA. Até as boas professoras ficam nervosas com a avaliação, mas precisamos dessa métrica”. Gates festejou o acordo entre a Khan Academy, da qual é doador, com a Fundação Lemann para traduzir e dublar as aulas do popular professor americano Salman Khan para o português. “O Brasil está no caminho certo para adotar as ferramentas tecnológicas para ajudar o professor.”
 
CLIMA Gates também se mostrou defensor dos Objetivos do Milênio da ONU. Afirmou que, ao contrário de tantos documentos que são arquivados e prontamente esquecidos, os objetivos, por terem números claros e metas realistas, foram sendo cumpridos. Mas disse que está na hora de “refinar” e de atualizar os tais objetivos. Incluindo, ainda, “objetivos climáticos”. “Pode ser difícil colocar China e Estados Unidos para atingir essas metas, mas ainda há 193 países para chegar a um acordo”, afirmou. Ele contou um pouco de suas últimas viagens por Nigéria, Etiópia e Índia e disse ver progressos em todas as áreas, “mais do que a maioria dos analistas”. “Sou um grande otimista, mas é fato que a vida dos mais pobres melhorou muito nos últimos 15 anos.”

Comento: Go, Bill! Manda ver! E, se sobrar uma beirada, te dou o número da minha conta…

SURFO, LOGO EXISTO – V

Por Paulo Marreco. No Ondaon:

Alma de surfista

O boato havia se espalhado na comunidade do surfe como fogo em palha seca e deixara a surfistada em polvorosa. Seria aquilo realmente possível? Seria verdade? Nunca houvera notícia de fato como aquele; no entanto, alguns afirmavam, aterrados, terem presenciado a assombrosa cena; uns poucos afirmavam tê-lo visto mais de uma vez. Claro que estes se tornaram motivo imediato de chacotas dos amigos, para quem eram, na verdade, crédulos, impressionáveis demais, e corajosos de menos; no entanto, não poucos acreditaram piamente naquele evento inaudito, e passaram a evitar surfar sozinhos nas primeiras horas do dia e também nos finais de tarde; a maioria, entretanto, permanecia cética quanto ao, por assim dizer, ocorrido, e via na situação uma excelente oportunidade para surfar boas ondas com menos disputa nos horários mencionados.

Desconhecendo o verdadeiro furacão -maremoto, para usar uma figura mais apropriada ao contexto- que conturbava o quase sempre pacato mundinho do surfe, Jones se dirigiu à praia para mais uma session. Apesar de contrariado com a atual e progressiva fraqueza dos músculos, a rigidez das articulações e a consequente lentidão dos movimentos, inevitáveis naquela etapa da vida (da vida?), ele insistiria em surfar até quando fosse possível, até quando ainda tivesse forças para isso. Não é que se importasse com a opinião alheia a seu respeito; desde o Evento, ele simplesmente deixara de se importar. Mas, como já não tinha condições físicas de disputar as ondas com os outros surfistas e, além disso -não compreendia bem porque- o sol, atualmente, o incomodava bastante, evitava as praias mais acessíveis e os horários mais frequentados e de calor mais intenso; portanto, eventualmente ainda conseguia surfar sozinho durante umas poucas horas. E, se aquelas poucas horas de surfe era tudo o que era possível obter, conformava-se; isso bastava. Tinha que bastar.

Entrementes, os relatos sobre o pavoroso acontecimento se multiplicavam, a ponto das autoridades locais darem início a uma rigorosa investigação sobre o estranho caso, sem serem capazes, obviamente, de chegar a uma conclusão definitiva; os únicos resultados concretos foram a apreensão, pela polícia, de módicas quantidades de certas substâncias ilícitas que se encontravam sob posse de alguns desafortunados surfistas, substâncias às quais logo se atribuiu aquela sequência de alegadas alucinações coletivas e deu-se por encerrada a questão. A partir daquele momento, a sociedade passou a olhar com alguma desconfiança a tribo de caçadores de ondas; o mistério, porém, perdurava. Assim como o medo.

Naquele fim de tarde, chegando ao pico, uns poucos surfistas ainda estavam no outside desfrutando as ondas, nada além de razoáveis. O sol já preparava seu recolhimento diário atrás das montanhas longínquas. Após observar o oceano por instantes e escolher uma vala mais afastada, Jones remou vagarosamente em direção ao fundo. Perdeu as três primeiras ondas por não ter obtido velocidade suficiente na remada; conseguiu finalmente pegar uma, a maior da série; essa onda -uma boa onda- chamou a atenção dos outros surfistas, que passaram a cobiçar de longe o modesto tesouro encontrado por Jones. Que pegou mais uma boa onda assim que voltou para o outside, surfando-a, com seus lentos, porém precisos movimentos, até a beira. Um dos surfistas, o mais afoito, logo se aproximou para tentar compartilhar -disputar- o pico; mas, à medida em que chegou mais perto de Jones, algo no surfista solitário o intimidou, e o rapaz começou a remar o mais rápido possível, até sair da água, entrar correndo no seu carro e fugir a toda velocidade.

De fato, Jones chamava atenção, não apenas pelo estilo de surfe; sua aparência também era capaz de causar estranheza. Coincidentemente, dois dos surfistas que estavam naquela praia eram amigos seus. Ao ver o surfista afastado pegando duas ondas seguidas, haviam começado a prestar atenção nele. Um deles, meio desconfiado, perguntou:

– Aquele cara ali não se parece com o Jones?

O outro olhou atentamente para o surfista distante. Sim, de longe ele se parece bem com o Jones, não há dúvida. Até o estilo, só que muito mais lento…

Ficaram assim, observando, de longe, o surfista que se parecia com o velho amigo Jones. Outro surfista se aproximou do pico onde ele estava; como o primeiro, logo esse também saiu remando desesperadamente em direção à praia. O que estaria acontecendo? Os dois começaram a ligar os fatos aos boatos, e um arrepio simultâneo percorreu suas espinhas. Meu Deus, será possível? Os outros três ou quatro surfistas, vendo a reação dos dois que fugiram primeiro, mesmo sem compreender muito bem o que estava acontecendo, decidiram que seria melhor se mandar dali. Agora, restavam dentro d&039;água apenas os dois amigos e o surfista que se parecia com Jones. Escurecia. Os dois se entreolhavam, apreensivos. O surfista que se parecia com Jones agora olhava fixamente em sua direção, o que fazia com que o mais primitivo horror começasse a brotar dentro deles. O sol desaparecia rapidamente no horizonte montanhoso, mas não era o frio que os fazia tremer. Jones (não é possível, não pode ser o Jones!) parecia ter se decidido a ir até eles. Hipnotizado pela visão de Jones (que não seja o Jones! Por favor, que não seja ele!), um dos amigos não conseguia se mover; apavorado, apenas olhava para o surfista que se aproximava lentamente. O outro se aproveitou de uma pequena onda para surfar reto em direção à praia e desaparecer. Finalmente, Jones (oh, meu Deus! É ele mesmo… é o Jones… oh, meu Deus! Meu Deus!) chegou até ele. Aterrado, paralisado de pavor, observou o seu amigo Jones, sua pele acinzentada, seus músculos atrofiados e rijos; ele tentava sorrir, mas o resultado era um horrendo sorriso, o rosto crispado, os olhos esmaecidos, sem brilho, a boca aberta num esgar medonho, exibindo os dentes amarelecidos. Saudou o amigo:

– Olá, Tom!

Não obteve resposta. O outro estava petrificado. Jones (sim, não havia mais dúvidas. Era impossível, era terrível, mas era verdade: aquele ali na sua frente era o Jones, o seu velho amigo Jones. Jones, o falecido) insistiu:

– O que é que há, Tom? Não reconhece mais os amigos?

– Hã… oi… Jones. Como… como… (como era possível?) como você… está?

A medonha careta, sinistro simulacro de sorriso, continuava estampada em seu rosto quando ele respondeu:

– Bem, acho. Quer dizer, você viu minha última onda? Nada mal para um falecido, não foi mesmo?

– Eh… Acho que sim… (não acredito que estou aqui conversando com um morto!). Como… como… como isso é possível, Jones?! Quer dizer, você… você… você está…

– Morto? Bem, quanto a isso, não há duvidas.

– Então, como… como… como?! Como isso é possível?

– Como é possível eu não sei; mas, já que -ainda- estou aqui, vou aproveitando enquanto for capaz de surfar.

Fez-se silêncio. Perplexo e apavorado, porém curioso, Tom olhou atentamente para o amigo, morto num acidente de carro cerca de dois meses antes. Os sinais da decomposição, ainda que misteriosamente tardios, já se faziam notar. Depois de alguns instantes, Jones prosseguiu:

– Se você pensar bem, até que isso tudo não é tão inacreditável. Nós passamos toda a vida em função das ondas. Acordamos, respiramos, sonhamos, trabalhamos e vivemos pelo prazer de dançar sobre as ondas; por que é que, só porque morremos, isso teria que mudar? Afinal de contas, quem disse que morto não surfa?

Uma série despontou no horizonte escuro. Jones remou para o fundo, pegou uma onda e desapareceu, deixando o atônito e ainda paralisado Tom sozinho. Quando finalmente se recompôs, Tom pegou uma onda e saiu do mar, já debaixo da parca luminosidade das primeiras estrelas. Enquanto dirigia voltando para casa, meditava sobre o inacreditável encontro, e sobre como, pensando bem, o raciocínio de Jones até fazia sentido.

PEQUENO CONTO AFRICANO

Por Paulo Marreco.

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Nas profundezas da África extrema, debaixo do sol inclemente que a tudo oprime e anula, um homem corre através da savana feroz, coberto de suor e sangue. Ele é branco. Está nu (jamais saberemos por quê). Tem os pés feridos pela aspereza da terra intranquila. Suas mãos carregam uma comprida lança. Em seus olhos, o pavor. Ele continua correndo. Jamais saberemos por quê.

 

Há exatos 80 anos, ele chegou ao poder. Em nome da reparação e da igualdade, exterminou milhões de vidas. E a marcha do terror se fez no silêncio cúmplice

Por Reinaldo Azevedo. Na Veja:

 

Há exatos 80 anos, Adolf Hitler se tornava o chanceler da Alemanha. O resto é horror, perpetrado, em boa parte, sob o silêncio cúmplice do povo alemão e das demais nações.

Antes que se tornasse um homicida em massa, ele já havia atentado contra a ordem democrática, mas o regime o anistiou. Deram a Hitler em nome dos valores democráticos o que ele jamais concederia a seus adversários em nome dos valores nazistas.

Antes que se tornasse um homicida em massa, ele fundiu a chancelaria com a Presidência da República. E se fez silêncio.

Antes que se tornasse um homicida em massa, ele anexou a Áustria e a Renânia. E se fez silêncio.

Antes que se tornasse um homicida em massa, ele já havia ordenado, em 1933, a conversão de uma antiga fábrica de pólvora, em Dachau, num campo de concentração. E se fez silêncio.

Antes que se tornasse um homicida em massa, a França e a Inglaterra aceitaram que anexasse a região dos Sudetos, na Tchecoslováquia. Assinaram com ele um “acordo de paz”. E se fez silêncio. No ano seguinte, ele entrou em Praga e começou a exigir parte da Polônia. Depois vieram Noruega, Dinamarca, Holanda, França… É que haviam feito um excesso de silêncios.

– Silêncio quando, em 1º de abril de 1933, com dois meses de poder, os nazistas organizaram um boicote às lojas de judeus. – Silêncio quando, no dia 7 de abril deste mesmo ano, os judeus foram proibidos de trabalhar para o governo alemão. Outros decretos se seguiram — foram 400 entre 1933 e 1939. – Silêncio quando, neste mesmo abril, criam-se cotas nas universidades para alunos não alemães. – Silêncio quando, em 1934, os atores judeus foram proibidos de atuar no teatro e no cinema. – Silêncio quando, em 1935, os judeus perdem a cidadania alemã e se estabelecem laços de parentesco para definir essa condição. – Silêncio quando, neste mesmo ano, tem início a transferência forçada de empresas de judeus para alemães, com preços fixados pelo governo. – Silêncio quando, entre 1937 e 1938, os médicos judeus foram proibidos de tratar pacientes não judeus, e os advogados, impedidos de trabalhar. – Silêncio quando os passaportes de judeus passaram a exibir um visível “j” vermelho: para que pudessem sair da Alemanha, mas não voltar.   – Silêncio quando homens que não tinham um prenome de origem judaica foram obrigados a adotar o nome “Israel”, e as mulheres, “Sara”.

Os milhões de mortos do nazismo, muito especialmente os seis milhões de judeus, morreram foi de… SILÊNCIO. Morreram porque os que defendiam a ordem democrática e os direitos fundamentais do homem mostraram-se incapazes de denunciar com a devida presteza o regime de horror que estava em curso.

Nos nossos dias É pouco provável que aquelas barbaridades se repitam. Mas não se enganem. Oitenta anos depois, a democracia ainda é alvo de especulações as mais destrambelhadas. Cometei aqui a tese delinquente de certa senhora, estudiosa do Islã e aboletada na Universidade Harvard, segundo quem os islâmicos estão dando à luz uma nova democracia, que ela classifica de “iliberal”. Pois é… Em 1938, um ano antes do início da Segunda Guerra, cogitou-se o nome de Hitler para o Nobel da Paz. As leis raciais contra os judeus já estavam em vigência…

Aquela tal senhora — Jocelyne Cesari — escreve, como quem diz “Bom dia!”, que essa forma particular de democracia não implica necessariamente o fim da discriminação religiosa ou de gênero. Dona Jocelyne acha possível chamar de “democrático” um regime que segregue as pessoas por sua religião e gênero…

Um “intelectual” como Salavoj Zizek dedica-se a especular sobre as virtudes do moderno terrorismo, conquista admiradores mundo afora, inclusive no Brasil, e passa a ser uma referência do pensamento de esquerda. Reitero: ele não está a falar na tal “redenção dos oprimidos”. Ele empresta valor afirmativo a ações terroristas.

Mundo afora, direitos individuais são solapados pelo Estado — em nome da igualdade ou da reparação —, e a criação de leis que discriminam homens segundo a cor de sua pele ou sua origem é vista como um avanço.

Programa Não custa lembrar aqui algumas “exigências” do programa que os nazistas tinham para a Alemanha, que certamente deixam encantados alguns dos nossos esquerdistas ainda hoje — especialmente aqueles que defendem, como é mesmo?, o controle social da mídia. Eis aqui parte do que eles queriam para a Alemanha: (…) 11. A supressão dos rendimentos a que não corresponda trabalho ou esforço, o fim da escravidão do juro;

12. Levando-se em conta os imensos sacrifícios em bens e em sangue derramado que toda guerra exige do povo, o enriquecimento pessoal graças à guerra deve ser qualificado de crime contra o povo. Exigimos, portanto, a recuperação total de todos os lucros de guerra;

13. Exigimos a nacionalização de todas as empresas (já) estabelecidas como sociedades (trustes);

14. Exigimos participação nos lucros das grandes empresas;

15. Exigimos que se ampliem generosamente as aposentadorias;

16. Exigimos a constituição e a manutenção de uma classe média sadia, a estatização imediata das grandes lojas, e o seu aluguel a preços baixos a pequenos comerciantes, cadastramento sistemático de todos os pequenos comerciantes para atender às encomendas do Estado, dos Länder e das comunas;

17. Exigimos uma reforma agrária apropriada às nossas necessidades nacionais, a elaboração de uma lei sobre a expropriação da terra sem indenização por motivo de utilidade pública, a supressão da renda fundiária e a proibição de qualquer especulação imobiliária;

18. Exigimos uma luta impiedosa contra aqueles cujas atividades prejudicam o interesse geral. Os infames criminosos contra o povo, agiotas, traficantes etc. devem ser punidos com pena de morte, sem consideração de credo ou raça;

19. Exigimos que se substitua o direito romano, que serve à ordem materialista, por um direito alemão;

20. Com o fito de permitir a todo alemão capaz e trabalhador alcançar uma instrução de alto nível e chegar assim ao desempenho de funções executivas, deve o Estado empreender uma reorganização radical de todo o nosso sistema de educação popular. Os programas de todos os estabelecimentos de ensino devem ser adaptados às exigências da vida prática. A assimilação dos conhecimentos de instrução cívica deve ser feita na escola desde o despertar da inteligência.  Exigimos a educação, custeada pelo Estado, dos filhos – com destacados dotes intelectuais – de pais pobres, sem se levar em conta a posição ou a profissão desses pais;

21. O Estado deve tomar a seu cargo o melhoramento da saúde pública mediante a proteção da mãe e da criança, a proibição do trabalho infantil, uma política de educação física que compreenda a instituição legal da ginástica e do esporte obrigatórios, e o máximo auxílio possível às associações especializadas na educação física dos jovens;

22. Exigimos a abolição do exército de mercenários e a formação de um exército popular;

23. Exigimos que se lute pela lei contra a mentira política deliberada e a sua divulgação através da imprensa. Para que se torne possível a constituição de uma imprensa alemã, exigimos: a) que todos os redatores e colaboradores de jornais editados em língua alemã sejam obrigatoriamente membros do povo (Volksgenossen); b) que os jornais não-alemães sejam submetidos à autorização expressa do Estado para poderem circular. Que eles não possam ser impressos em língua alemã; c) que toda participação financeira e toda influência de não-alemães sobre os jornais alemães sejam proibidas por lei, e exigimos que se adote como sanção para  toda e qualquer infração o fechamento da empresa jornalística e a expulsão imediata dos não-alemães envolvidos para fora do Reich. Os jornais que colidirem com o interesse geral devem ser interditados. Exigimos que a lei combata as tendências artísticas e literárias que exerçam influência debilitante sobre a vida do nosso povo, e o fechamento dos estabelecimentos que se oponham às exigências acima.

(…)

Começando a encerrar Não, senhores! Qualquer semelhança com um programa de esquerda — e me digam quais esquerdistas não endossariam ainda hoje o que vai acima — não é mera coincidência. O fascismo, também na sua vertente nazista, sempre foi de esquerda nos seus fundamentos mais gerais. Erigiu, sim, uma concepção de poder e de organização de estado diferente daquelas estabelecidas pela Internacional Comunista e repudiava o entendimento que tinha esta do “internacionalismo”. Mas o ódio ao liberalismo econômico, à propriedade privada e às liberdades individuais era o mesmo.

Essa cultura da “engenharia social”, que cassa direitos individuais em nome de um estado reparador, ainda está muito presente no mundo. Como se percebe, ela se estabelece oferecendo o paraíso na terra, um verdadeiro reino de justiça e igualdade. Deu no que deu.

Neste ponto, alguém poderia objetar: “O Reinaldo agora acha que a luta por justiça resulta em fascismo…”. Não! O Reinaldo não acha isso. Pensa, isto sim, que as tentações totalitárias manipulam o discurso da igualdade para criar um ente de razão, estado ou partido, que busque substituir a sociedade.

E não se enganem: oitenta anos é quase nada na história humana. Não faz tanto tempo assim. Em 1933, a humanidade já dispunha de boa parte da literatura que vale a pena, de boa parte do pensamento que vale a pena, de boa parte até mesmo do conhecimento científico que ainda hoje serve de referência.

No entanto, o mundo viveu sob o signo da besta.

Sete cristãos são condenados à morte no Egito

Uma das provas de que o fundamentalismo islâmico é a maior ameaça à paz mundial.

Disponível no Verdade Gospel:

Nessa terça-feira (29), o tribunal do Cairo confirmou a sentença de pena de morte de sete cristãos coptas por sua participação no filme anti-islâmico ‘A Inocência dos Muçulmanos’. Divulgado em 11 de setembro de 2012, o vídeo provocou uma série de atos violentos e manifestações contrárias à produção tanto no Egito quanto em países vizinhos.

Leia também: Filme que satiriza Maomé poderá voltar a ser visto no YouTube brasileiro

Segundo notícia publicada no site da Portas Abertas, em 16 de setembro, o filme foi produzido nos Estados Unidos, por um israelense-americano e liberado por um expatriado egípcio. Entre os defensores do vídeo, está o pastor Terry Jones, que em 2010 provocou uma revolta no Afeganistão após ameaçar queimar o Alcorão, livro sagrado islâmico.

Em 28 de novembro do ano passado, Terry Jones também havia sido condenado à pena de morte, porém, por decisão do tribunal, sua pena foi reduzida a cinco anos de prisão. “As sete pessoas acusadas foram condenadas por insultos à religião islâmica através da participação na produção e distribuição de um filme que insulta o Islã e seu profeta”, disse o juiz Saif al-Nasr Soliman.

De acordo com notícia da AFP, os tribunais egípcios normalmente condenam à pena máxima casos em que se comprova a blasfêmia e, em seguida, transferem o caso ao mufti (líder islâmico supremo), que dá sua aprovação. A sentença contra os sete coptas e o pastor americano ocorreu após a aprovação religiosa. No entanto, se os acusados regressarem ao Egito (eles estão no EUA), poderão se beneficiar de um novo processo.

Inicialmente, o governo americano divulgou que manifestações espontâneas contra o filme teriam resultado no ataque ao consulado americano em Bengasi, na Líbia, que causou a morte de quatro funcionários dos EUA, incluindo o embaixador Christopher Stevens. Mais tarde soube-se que o ataque foi uma ação terrorista.

Na época, líderes cristãos também condenaram o filme. A Igreja Ortodoxa Copta emitiu uma declaração condenando o vídeo como “abusivo” ao profeta Maomé, “realizado por alguns coptas que vivem no estrangeiro”, e “rejeitando tais atos que ofendem as crenças religiosas e todas as religiões”.

 

Comento:

Um pouco mais de tolerância, senhores aiatolás. O mundo agradece.