Fragmentos XI

moby dick

 

Extraído do sermão do personagem Padre Mapple (Moby Dick, Herman Melville):

“Como acontece a todos os pecadores entre os homens, o pecado desse filho de Amitai estava em sua voluntária desobediência a um mandamento de Deus -pouco importa qual tenha sido esse mandamento, ou a maneira pela qual Deus o comunicou e que a Jonas pareceu demasiado duro. Mas todas as ordens e mandamentos de Deus são difíceis para nós -lembrai-vos disso. Daí o porquê de Ele nos ordenar mais frequentemente do que tentar dissuadir-nos. E, se obedecemos a Deus, devemos desobedecer a nós mesmos; e nessa desobediência a nós mesmos é que consiste a dificuldade de obedecer a Deus.”

“Está escrito, companheiros, como algo que não se deve deixar passar despercebido nesta história, que Jonas pagou sua passagem antes mesmo de a embarcação partir. Tomado no contexto, isso é muito significativo.

Ora, o capitão de Jonas, companheiros, era um homem que possuía discernimento suficiente para descobrir um crime em qualquer um, mas sua cupidez só revelava o dos desendinheirados. Neste mundo, companheiros, o pecado que paga seu percurso pode viajar livremente, mesmo sem passaporte; ao passo que a virtude, se é pobre, será detida em todas as fronteiras.”

O HERÓICO FEITO DE HUONG TSUI, O SHERPA

Por Paulo Marreco:

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DE TODOS OS LUGARES NA TERRA, O MONTE EVEREST é o mais próximo de Deus. A montanha gelada, inóspita e prepotente se eleva numa arrogante -e inútil- tentativa de alcançar os céus, até chegar a vertiginosos 8.848 metros de altitude. A neve eterna em seu cume venceu todos os seus desafiantes e se manteve intocada por séculos infindos até o memorável 29 de maio de 1953, quando Sir Edmund Percival Hillary finalmente dobrou a arrogância de Chomolungma, a deusa mãe do mundo, e suas pesadas botas conspurcaram pela primeira vez desde a aurora dos tempos a alvura titânica. O bravo neozelandês embriagou-se até o êxtase da inédita e poderosa e inebriante e vã sensação de contemplar a amplidão do mundo de um lugar jamais alcançado por outros olhos; de não ter acima de si ninguém além das portentosas entidades que habitam as esferas celestes. Esta é uma espécie de solidão que raros homens tiveram o privilégio de experimentar (de sofrer?). Ainda que sua extensa comitiva fosse inicialmente composta por cerca de quatrocentos experimentados alpinistas, Sir Edmund, porém, chegou praticamente sozinho ao teto do mundo; da mesma forma que o Santíssimo de Israel separou apenas trezentos valentes do exército de Jerubaal para desbaratar o arraial dos midianitas, a montanha atroz proibiu a subida dos indignos, permitindo que somente Sir Edmund chegasse ao teto do mundo. Ele, e Tenzig Norgay, sherpa.

Afaçanha do irrequieto alpinista neozelandês assombrou o mundo e despertou a cobiça de todos; desde então, outros mil e quatrocentos pares de botas de nacionalidades diversas pisotearam a neve do cume do Everest. A montanha, porém, não se deixa vencer sem combate; mais de duzentos homens já deixaram seus corpos congelados ao longo de suas impiedosas escarpas. Inúmeras expedições trazem, ano após ano, seu tributo de almas à implacável Chomolungma. Em1996, a montanha esteve especialmente sedenta, embebedando-se do sangue de quinze vítimas sacrificiais.

O elemento comum a cada uma destas ondas de aventureiros é a presença ubíqua dos sherpas.Semos minúsculos carregadores e sua extraordinária força; sem seu conhecimento dos caminhos e humores agros das encostas vorazes; sem sua estoica natureza que os torna aptos a sobreviver na montanha hermética, chegar ao cume é tarefa que chega às raias do inalcançável; desde a façanha de Sir Edmund, o único humano a alcançar sozinho o topo do mundo foi Reinhold “Mad Man” Messner, em1978; porém, sua façanha não deve ser levada em conta, pelo simples motivo de que Messner é um Yeti -fato sobejamente conhecido entre os montanhistas de todo o mundo.

Os sherpas são criaturas peculiares. Enquanto alpinistas afluem dos quatro cantos do planeta até a sua montanha em busca da glória mundana, para a maioria dos pequenos carregadores, atacar o topo do mundo representa pouco mais do que uma oportunidade de fazer os preciosos dólares ocidentais migrarem das mãos de seus detentores originais para as suas próprias. A familiaridade com que estes duendes gelados se relacionam com a montanha e sua primazia física em relação aos demais humanos se revela nas assombrosas façanhas registradas por alguns deles. O sherpa Apa atingiu o cume do Everest incontáveis dezessete vezes (o sistema numeral sherpa declara que qualquer número acima de doze é infinito, crença similar à de Asterion, em relação ao número quatorze), a maior quantidade registrada por um humano(?). Babu Schhiri permaneceu no ápice vertiginosas vinte e uma horas, sem se utilizar de oxigênio extra, recurso imprescindível para os homens comuns. Pemba Dorje deixou o sopé da montanha em 21 de maio de 2004, subindo pela temida face Sul, e pouco mais de oito horas depois, já havia humilhado o cume a seus pés.

Os feitos dos pequeninos carregadores nepaleses são relatados com fervor religioso ao redor da fogueira e louvados aos quatro ventos por montanhistas de todo o orbe; entre os próprios sherpas, tais conquistas não passam de ingênuas disputas, passatempos, divertidas e inúteis competições de caráter juvenil. Não; entre eles, o nome que não se pronuncia sem sincero espanto por cada homem, mulher, ancião ou criança sherpa em cada aldeia é o nome de Huong Tsui, filho de Humei Tsui, carregador, pastor de cabras. O jovem Huong Tsui executou, para o povo do Leste, a tarefa verdadeiramente inaudita. Sua gloriosa conquista ecoará por gerações em todas as geladas cabanas no Nepal.

Huong Tsui contava quatorze primaveras. Com a resignação de quem desconhece outra vida, já estava pronto para acompanhar o velho pai na sina de carregador quando o acaso o deparou com Casper Evans MacGregor, montanhista escocês. Por algum insondável mistério da providência ou da sorte ou do destino (os da seita dos hipotéticos declaram ser, todos estes, meras derivações do nome do deus definitivo), o enorme escalador ruivo afeiçoou-se ao garoto franzino de olhos espertos e prometeu a seu pai que, se fosse bem sucedido em sua tentativa de alcançar o topo, assumiria a tutela do pequeno Huong Tsui. Um MacGregor exausto, exitoso e feliz desceu praticamente ileso da montanha (a perda de pedaços de orelhas, narizes e dedos dos pés em razão de congelamento é desprezível para os alpinistas, não sendo sequer contabilizada) e retornou às suas queridas Highlands, levando consigo o novo pupilo. A chegada do menino foi uma inesperada e renovadora notícia para a senhora MacGregor. Huong Tsui foi acolhido com alegria.

Para alguém oriundo de um povo cuja língua primitiva ainda desconhece a forma escrita, a alfabetização de Huong Tsui deu-se de maneira assombrosamente rápida; aluno aplicado e voraz, o pequeno nepalês galgou com ávido desassombro todas as etapas da tortuosa escalada acadêmica, tornando-se o primeiro -e até os dias de hoje, único- sherpa a ostentar o diploma, conquistado na prestigiosa Oxford, de Doutor em Geopolítica da América Latina, subcontinente do qual jamais ouvira falar em suas duas primeiras décadas de existência. Seus concidadãos montanheses mais supersticiosos o veneram; consideram-no a encarnação da sabedoria de Chomolungma.

Porque, para um sherpa, subir e descer a montanha, deixar nas ríspidas curvas das trilhas pedaços congelados de seus próprios corpos, contemplar os cadáveres mumificados pelo gelo abandonados ao longo do caminho até o topo, viver e morrer em suas terríveis encostas, continuamente assoladas por ferozes avalanches e tempestades, é algo tão natural e instintivo e inexorável e parte das circunstâncias e contingências da vida quanto acordar pela manhã, sentir frio ou calor, comer, respirar, fazer sexo com suas duras mulheres. Para os simplórios sherpas,o verdadeiro assombro, o inextricável mistério da vida se encontra nas extraordinárias ruas de Nova Iorque ou Londres ou Paris, esses profundos, caóticos, mortais labirintos de concreto e aço, povoados por homens e mulheres insaciáveis; labirintos onde trovejam, frenéticos, terríveis dragões de metal e borracha, ávidos por dilacerar carne humana; labirintos de computadores e celulares e luxo descartável e placas de publicidade e ações na bolsa de valores; para um sherpa em sua primitiva e plena simplicidade, incerto e perigoso é transitar entre as vertigens da traiçoeira existência do moderno homem ocidental.

O Doutor Huong Tsui visita seus pais em março, quando o frio já não é tão atroz. Ao caminhar pelas vielas de sua aldeia natal, recebe oferendas, homenagens, súplicas, pedidos de casamento. Da janela de seu antigo quarto ele contempla as neves eternas de Chomolungma. Sabe que, um dia, também ele precisará empreender a famosa escalada; a porção selvagem de sua alma sherpa –ainda que erudita, domesticada- anela pela vertigem do topo, como a corça anseia pela corrente das águas; da mesma forma instintiva e primeva que o coração do tigre encarcerado anseia pelas inextricáveis profundezas da floresta natal.

Presidente da Câmara está chamando isso aqui de democracia.

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Arruacei… quer dizer, manifestante grita, histérico, sobre a mesa, impedindo (mais uma vez) a realização de sessão da CDHM. Pode isso, Arnaldo?

Por Reinaldo Azevedo. Na Veja:

Vejam essa foto de autoria de Wilson Pedrosa, do Estadão. Manifestante sobe sobre a mesa da Comissão de Direitos Humanos e Minoria da Câmara para protestar. Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), que resolveu dar uma lavadinha na biografia junto ao jornalismo politicamente correto e engajado, está chamando isso de democracia. Fica o recado para todos os descontentes do Brasil. Quando vocês não gostarem de alguma coisa no Congresso, entrem lá, subam na mesa e botem pra quebrar.

Tá reclamando de quê?

Tá bravinho, deputado?

Tá bravinho, deputado?

A grande obra de Jean Wyllys (haja ipsilone!) é ter sido o vencedor do BBB, aquele famoso concurso cultural da grôbo que reúne renomados filósofos, cientistas e pensadores; sua segundo amior obra é ser processado por ex-alunos, em razão de sua, quem diria, falta de respeito para com os mesmos em sala de aula. A fama e fortuna amealhadas no programa lhe renderam uma cadeira na Câmara Federal; WWyllyyz (isso só pode ser coisa de numerologia!) foi eleito com estupefacientes 13 mil votos (não estou insinuando nada, apenas uma constatação: Marcos feliciano, que Wyyyylllyyyzzz a-do-ra odiar, teve mais de 200 mil votos. Mordam-se de inveja, fofos!). Tá, bom, tá bom; ele foi eleito mesmo foi com os votos do Chico Alencar, mas e daí? Uma sumidade destas não podia mesmo ficar de fora de uma casa que abriga Suplicys, Tiriricas, Romários  e outros portentos do pensamento tupiniquim. Acontece que Wyyyyyllyz, que hoje reclama de ver atribuídas a ele frases que não teria dito, já esteve, quem diria, do outro lado da vidraça…

Leia a coluna do Rica Perrone e entenda:

 

“Vou contar uma breve historia pra vocês.

Há 2 anos escrevi um post sobre a punição do Cruzeiro no vôlei pela torcida ter chamado um adversário de gay, antes dele assumir ser gay. Defendi que aquilo não era homofobia mas sim uma reação de estádio, claríssima a qualquer sujeito que já tenha ido a um jogo chamar, por exemplo, o Renato Gaúcho de viado.

Não fui mal interpretado por ninguém por mais de 24h com o post no ar. Até que surge um desses “zé ongs” babacas de merda e me questiona no twitter sobre.  Eu discuti em bom nivel com o sujeito, que não era de muito bom caráter.

Numa das questões ele me perguntou se se eu achava ser gay uma escolha. Eu perguntei a ele se ele considerava uma doença, ironizando a própria tese que pessimamente ele desenvolvia nos posts anteriores. Enfim, não importa, o relevante é que este cara, quando perdeu a razão, tirou o ponto de interrogação da minha pergunta e jogou para seus leitores (poucos, mas muitos gays) como uma afirmação onde “gay era doença”. E eu jamais disse isso.

Imediatamente se aproveitou do método covarde e inteligente de popularidade do deputado e enviou pra ele um twitter com a mensagem pedindo que me perseguissem, que eu tinha dito aquilo e que era para fazer campanha contra mim, inclusive perante os patrocinadores do meu blog.

Irresponsável e oportunista, louco por ibope e pra fazer média com quem e pelo que está onde está, deu RT e automaticamente passou uma mentira a diversas ongs dessas que sai gritando a qualquer frase que não a exalte.

Resultado: Passei 2 dias nos tts, fui ameaçado, ofendido, julgado e pisoteado por um monte de gays que procuraram no tal texto uma versão homofobica que nunca encontraram. E então, sem um motivo claro, fiquei sendo um anti-gay por 48h nacionalmente em virtude de um falso RT do senhor deputado Jean Wyllys.

Agora, veja você, o mesmo deputado está putinho e pedindo seguranças porque alguém propagou no facebook algo que ele não disse. Uma entrevista inventada, ou uma frase retirada do contexto, não sei. Sei que ele está revoltado, com medo, se achando injustiçado.

Eu só passei aqui, deputado, pra dizer pra você que não recebi um processo pelo que disse na ocasião pelo simples fato de não ter dito nada daquilo. Sequer perdi meus patrocinadores, já que todos eles sabem quem patrocinam e o que de fato foi dito.  E que fiquei com uma fama ruim perante muita gente por causa de um RT irresponsável seu.

Assim sendo, hoje olho para sua situação com a irresistível vontade de vir a publico dizer o que sinto:

O mundo gira, parceiro. Se fodeu!”

UFC: retratos dos guerreiros do octógono

Fotógrafos americanos mostram o sangue e o suor nos rostos dos lutadores de MMA em imagens tiradas poucos minutos depois dos seus combates. Na Veja:

Alguns, como Anderson Silva e José Aldo, são atletas tão superiores aos seus oponentes que costumam sair de seus combates quase do mesmo jeito que entraram, sem nenhum machucado e poucos sinais de desgaste físico. Outros, porém, absorvem até os golpes mais brutais – e terminam seus duelos com cortes, hematomas e inchaços que chocam quem não está acostumado ao mundo do MMA. Os lutadores do UFC e suas expressões faciais nos momentos que se seguem aos combates são o tema dos ensaios realizados pelos fotógrafos americanos Jim Kemper e Mike Roach logo depois das lutas, poucos minutos depois que os atletas saem do octógono. Curativos, pontos, sangue e suor são as marcas carregadas por esses atletas depois de cada desafio.

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Krzystof Soszynski e Mark Coleman – Jim Kemper e Mike Roach/Zuffa LLC/Getty Images

 

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Anderson Silva e Chael Sonnen – Jim Kemper/Zuffa LLC/Getty Images

 

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Ivan Menjivar e John Howard – Mike Roach/Zuffa LLC/Getty Images

 

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Dan Miller e Fabio Maldonado – Jim Kemper/Zuffa LLC/Getty Images

 

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Nate Diaz e Sean Pierson – Jim Kemper/Zuffa LLC/Getty Images

 

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Stephan Bonnar e Nik Lentz – Jim Kemper/Zuffa LLC/Getty Images

Caetano, Wagner Moura, Jean Wyllys e Chico Alencar se acham democratas? Então vamos ver o que eles pensam sobre o regime democrático e o Parlamento

Por Reinaldo Azevedo. Na Veja. Na veia:

Ouvi dizer que haviam convocado uma manifestação de repúdio ao preconceito e coisa e tal na sede da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), no Rio. Pensei: “Que bom! A ABI ainda estava sob os miasmas da corrupção ativa e da formação de quadrilha, que ali se juntaram no evento em defesa de José Dirceu”.  Aí falaram que o Caetano Veloso, o Wagner Moura e a Preta Gil iriam. “Ah, então é coisa de sustança intelectual.” Imaginei que os três estavam decididos a protestar contra a Funarte, que barrou a inscrição de um trabalho de dez bailarinos negros no “Prêmio Funarte de Arte Negra” porque a pessoa jurídica à qual são ligados tem um diretor branco. Pensei: “O autodeclarado mulato Caetano Veloso não concorda com isso”.

Mas não! Tratava-se de mais uma manifestação contra Marco Feliciano (PSC-SP), presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara. Com alguns nomes estrelados do mundo das Artes & Espetáculos & Celebridades, a convocação logo juntou 600 pessoas, sob o comando do deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) e do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ).

Repetiram-se as acusações de racismo e homofobia contra Feliciano. Eu jamais votaria nele para deputado. Tampouco o escolheria, se dependesse de mim, para presidir qualquer comissão. Mas o fato é que a acusação de homofobia é só uma tentativa de puni-lo por delito de opinião e que a de racismo vai além do ridículo. Feliciano tem o direito de ler errado a Bíblia, embora não deva. E é mais mulato do que Caetano Veloso.

O cantor, aliás, como de costume, arranhou a dialética:
“Não é admissível que essa Comissão de Direitos Humanos e de Minoria esteja sendo dirigida e presidida por um pastor que expressou nitidamente a intolerância, tanto da ordem sexual como racial. É fato conhecido e notório. Esse é um momento que nós deveríamos estar reunidos para tentar defender o que significa ter um Congresso. Porque o maior perigo é levar o povo brasileiro a desprezar esse nível do exercício do Poder Legislativo. Isso pode criar uma má impressão do que é democracia. Estamos reunidos aqui hoje para dizer que no Congresso não se podem fazer coisas absurdas, significa também dizer que nós não queremos viver sem o Congresso”.

“Fatos conhecidos e notórios”, em casos assim, costumam se confundir com linchamento. As duas coisas são falsas. E isso é apenas um fato. Caetano deveria nos explicar “o que significa ter um Congresso”. Eu entendo que significa, entre outras coisas, haver lá gente com a qual não concordo. E eu não concordo com Feliciano. Mas também não concordo com Caetano. O povo anda tendo algum desprezo pelo Congresso, mas por razões que passam longe dessas evocadas pelo artista. Cito o caso do mensalão, que, salvo engano, nunca levou a nossa vestal baiana para a praça — embora esteja certo de que ele não concorda com aquela sem-vergonhice.

Caetano não é burro, não! Conhece a língua portuguesa, mas se expressa numa espécie de idioleto, o “caetanês”, que pode ser surpreendentemente autoritário: “Estamos reunidos aqui hoje para dizer que, no Congresso, não se podem fazer coisas absurdas; significa também dizer que nós não queremos viver sem o Congresso”. Em síntese: “Queremos (eles querem) um Congresso, desde que ele faça coisas com as quais concordemos; se passar a fazer coisas com as quais outros concordam, aí a gente começa a pôr em dúvida a existência do Congresso”.

Quando pego no pé de Caetano, alguns amigos, admiradores de sua música, protestam. Ora, eu também gosto de muitas das suas canções. Mas o pensador da democracia pode ser de uma impressionante ligeireza.

Wagner Moura, que incorporou, definitivamente, o papel de Capitão Nascimento das causas politicamente corretas também estava lá, com aquele seu ar de pensador grave. Tentou negar que exista preconceito religioso na pressão contra Feliciano:
“Acho muito desonesto os parlamentares do PSC dizerem que a oposição ao nome do Feliciano à presidência é uma intolerância contra a figura dele. É, portanto, significativa a presença de vários líderes religiosos aqui, inclusive os pastores presbiterianos”.

Havia pastores presbiterianos lá, que, obviamente, concordavam com o pleito de Moura. Isso significa dizer, portanto, que Moura não tem intolerância nenhuma contra pastores desde que os pastores concordem com… Moura!

Ainda bem que o deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) estava lá para dizer a verdade: “Hoje ou amanhã, o Feliciano pode ser trocado e entrar um deputado que não diz tanta coisa que choque, mas pode representar a mesma política de anulação da comissão”. Vale dizer: Alencar quer é destituir a comissão inteira. Feliciano é apenas o primeiro da lista.

Jean Wyllys, numa demonstração que entende perfeitamente a independência entre os Poderes herdada lá de Montesquieu, cobrou que Dilma — sim, que a chefe do Executivo! — faça alguma coisa. E pensou, indo a altitudes inéditas: “O governo sabe se meter no Legislativo quando é de seu interesse”. A sabedoria convencional estaria a indicar que o deputado Wyllys — que é representante de um Poder, não apenas dos gays — deveria é protestar contra a ingerência do governo no Legislativo… Mas quê! Ele quer é ainda mais ingerência. Quando é a favor de causas que ele defende, então essa ingerência é boa. Entenderam?

Wyllys extrapolou. Leio no Globo:
Jean Wyllys ressaltou que a iniciativa do protesto não é apenas lutar contra a permanência de Marco Feliciano à frente da comissão, mas também, segundo o parlamentar, lutar contra o “projeto fundamentalista” que Feliciano representa. Ele disse ainda que os possíveis pré-candidatos à Presidência da República em 2014, Dilma Rousseff (PT), Aécio Neves (PSDB), Marina Silva (REDE) e Eduardo Campos (PSB) deveriam participar deste debate.
“Toda a sociedade está engajada. E o comportamento dessas quatro pessoas potenciais candidatos no ano que vem é ignorar esse movimento. Isso é inadmissível”, declarou o deputado, lembrando de questões referentes aos direitos LGBT e à religião. Para ele, este tema foi ignorado na última eleição para a Presidência da República, em 2010.

Eu não concordo com uma vírgula do que pensa o deputado Feliciano. Mas noto, pelas palavras de Wyllys, que ele tem certa propensão a eliminar do mundo dos vivos os que o contestam. E, obviamente, nesses termos, não terei como concordar com ele, com Caetano, com Moura e com a psolada toda porque vai que amanhã eles tentem me eliminar também, né?

Lamento! As palavras estão aí e fazem sentido. Essa gente não tem como dar aula de tolerância a ninguém. Até porque o seu protesto é seletivo, politicamente orientado. O silêncio sobre a violência institucional ocorrida na Funarte diz tudo.

Chico Alencar deu o fecho de ouro: “Ouvi dizer que ele (Feliciano) disse que só sairia morto. Nós, defensores dos direitos humanos, queremos matá-lo politicamente”.  Alencar me força a lembrar que socialistas defensores de direitos humanos são mesmo uma novidade na história, coisa recente. Como não podem — não nas democracias ao menos — matar seus adversários fisicamente, tentam matá-los moralmente.

Não por acaso, um dos fundadores do PSOL, ali mesmo no Rio de Chico Alencar e Freixo, é Achile Lollo. Está tudo contado aqui. Quem é ele? Trata-se de um terrorista italiano que, em 1973, despejou gasolina sob a porta de um apartamento, na Itália, onde estavam um gari, sua mulher e seis filhos. Ateou fogo. Morreram uma criança de 8 anos, Stefano, e seu irmão mais velho, de 22, Virgilio. O gari era membro de um partido neofascista. Como Lollo não gostava do fascismo, então ele resolveu incendiar crianças, entenderam? Um verdadeiro humanista!!!

Não! O pensamento de Feliciano não me serve e eu o combato. Mas toda essa gente que fala aí acima não tem a menor, a mais remota, a mais pálida ideia do que seja um regime democrático. Encerro com esta ilustração.

A PIRA HUMANISTA – O jovem Virgílio, minutos antes de morrer carbonizado, vítima de um atentado terrorista praticado por Achille Lollo, que hoje vive livre, leve e solto no Rio. Foi um dos fundadores do PSOL, que hoje pretende dar aula de democracia

Fragmentos X

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Extraído do conto O Encontro, de Jorge Luis Borges:

“Nove ou dez homens, que já morreram, viram o que viram meus olhos -a funda estocada no corpo e o corpo sob o céu-, mas foi o final de outra história mais antiga o que de fato viram. Maneco Uriarte não matou Duncan; as armas, não os homens, duelaram.Tinham dormido, lado a lado, numa vitrine, até que as mãos as despertaram. Talvez tenham se agitado; por isso tremeu o punho de Uriarte, por isso tremeu o punho de Duncan. As duas sabiam lutar -não seus instrumentos, os homens- e naquela noite lutaram bem. Tinham se procurado longamente, pelos longos caminhos da província, e por fim se encontraram, quando seus gauchos já eram pó. No ferro dormia e espreitava um rancor humano.

As coisas duram mais do que a gente. Quem sabe se a história termina aqui, quem sabe se não voltarão a se encontrar?”