Protesto

Demétrio Magnoli, cientista político, analisa a onda de protestos que varre o país. No Globo:

 

DEMÉTRIO MAGNOLI

E do caos fez-se o protesto. No início, manifestações pequenas degeneraram, previsivelmente, em violência e depredação. Truculências policiais, uma vaia avassaladora contra Dilma Rousseff e manifestações com outra pauta, sobre os gastos públicos na farra da Copa do Mundo, pontuaram o estágio intermediário. Enfim, protestos multitudinários tomaram as ruas de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Belo Horizonte e de Brasília. A sequência desafia a lógica convencional e escapa às ferramentas de tradução dos políticos, mas lança alguma luz sobre uma crise larvar que, agora, emergiu. Bem na hora em que o Palácio do Planalto preparava-se para tocar novamente uma velha canção da Copa do Mundo de 1970, o céu desabou.

Nada houve de espontâneo na etapa inicial. Os movimentos pelo “passe livre” são constituídos por autointitulados “anarquistas”, seitas esquerdistas e jovens indignados que se movem à margem dos aparelhos da esquerda oficial (PT, PCdoB, sindicatos, UNE). Nas franjas dos movimentos, circulam bandos de punks à caça de oportunidades para confrontos com a polícia. O “passe livre”, uma utopia socialmente reacionária, funcionava como pretexto para quimeras diversas: a “superação do capitalismo”, a “revolução proletária”, a “guerra urbana”. As vergonhosas distorções de nossos sistemas de transporte coletivo — avessos à transparência, hostis aos usuários, pontilhados de privilégios, curvados pela associação oculta entre empresas de ônibus e políticos — não interessam realmente aos grupos radicalizados que protagonizaram as primeiras manifestações.

Há sintomas de uma notável regressão política. As passeatas estudantis de 1977 contra a ditadura militar tinham linha de frente e cordões de segurança, elementos ausentes nos protestos em curso. A desordem prestou-se à ação de incendiários e depredadores. Governantes e chefes de polícia despreparados multiplicaram o caos, produzindo cenas chocantes de violência contra manifestantes pacíficos. Mas a escala faz a diferença: quando dezenas de milhares foram às ruas, os encapuzados viram-se reduzidos à insignificância e, quase sempre, à impotência.

“Não é por centavos, é por direitos”, esclarecia uma faixa no Rio de Janeiro. “Brasil, vamos acordar, o professor vale mais que o Neymar”, cantou-se em São Paulo. Na segunda-feira, o “passe livre” já era só um pretexto coletivo para manifestações que exigiam o reconhecimento de um “direito ao protesto” e exprimiam uma frustração “difusa” e “crescente” — duas palavras usadas pelo ministro Gilberto Carvalho, a sombra onipresente de Lula no governo de Dilma. As marcas da juventude e de uma diversificada classe média, inclusive das periferias, estavam impressas nos protestos de massa. “Não é a Turquia, não é a Grécia — é o Brasil que saindo da inércia”, gritaram em São Paulo. Só se grita isso porque, de algum modo não óbvio, é “a Grécia” e “a Turquia”.

A escala faz a diferença. As quimeras das seitas esquerdistas tornaram-se inaudíveis nos protestos de multidões. No lugar delas, desenhavam-se os contornos de uma agenda implícita, ainda não cozida no fogo da linguagem política. As pessoas estão fartas do governo e da oposição, da corrupção e da impunidade, da arrogância e do cinismo, da soberba e do descaso. O estádio superfaturado, o ônibus superlotado, a escola arruinada, a inflação, a criminalidade, o Dirceu e o Eike — é sobre isso que falam os manifestantes, ecoando palavras de milhões ainda inseguros quanto à conveniência de protestar nas ruas. O inimigo, que ninguém se engane, é toda a elite política reorganizada durante a década de balofa euforia do lulopetismo. Um preocupado Gilberto Carvalho alertou contra a tentação de “tirar proveito político, de um lado ou de outro” dos eventos da segunda-feira. Mestre no ofício de “tirar proveito político”, ele já percebeu que um ciclo se fechou.

A política é, entre outras coisas, a arte de ordenar e hierarquizar as inquietações populares. No declínio da ditadura, estudantes e sindicalistas usaram as expressões “anistia”, “liberdades democráticas”, “direito de greve”. Na hora da dissolução do regime militar, as oposições se reuniram em torno do estandarte das eleições diretas. A bandeira do impeachment, erguida pelos partidos e movimentos sociais, encerrou a saga desastrosa do governo Fernando Collor. Diante da hiperinflação, os tucanos ofereceram um programa de estabilização, reformas e privatizações. Na conjuntura de crises externas que erodiam os salários e as aposentadorias, o PT prometeu distribuir a renda e exterminar a pobreza. Hoje, porém, a “difusa” e “crescente” inquietação não encontra traduções políticas nítidas.

A desmoralização da ágora — eis a pior herança do lulopetismo. O governo Lula cooptou os movimentos sociais, convertendo-os em marionetes de suas ambições eleitorais, e reforçou os grilhões que prendem o movimento sindical ao poder de Estado. No governo Dilma, completou-se a construção de uma esmagadora maioria parlamentar alicerçada sobre a distribuição de sesmarias na administração direta e nas empresas estatais. Do lado de fora da ampla coalizão governista, destituídos de princípios ou convicções, os partidos de oposição remanescentes abdicaram da crítica e do debate, aguardando que um milagre transfira o poder para suas mãos. A política parlamentar democrática feneceu, exaurindo-se de sentido. As manifestações provavelmente teriam começado antes, não fossem as esperanças depositadas no julgamento do mensalão.

Nesse cenário, os protestos descrevem trajetórias pré-políticas e os manifestantes apalpam terreno desconhecido, em busca de uma linguagem e de uma agenda. A anomia não perdurará eternamente — mas, por enquanto, gera muito calor e pouca luz. De qualquer modo, uma festa terminou antes mesmo de começar: desconfio que Prá frente Brasil não será ouvida na Copa do Mundo de 2014.

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À moda antiga

Por Dora Kramer. No Estadão:

DORA KRAMER

A presidente Dilma Rousseff convocou uma grande reunião com governadores e prefeitos e propôs a discussão de “cinco pactos” que poderiam ser vistos como itens de uma boa carta de intenções caso as soluções não estivessem nas mãos de um grupo que há dez anos ocupa o poder.

O que se viu foi a tentativa de tratar um problema novo à moda antiga, com a enferrujada ferramenta do gesto de impacto.

A presidente voltou a condenar a violência e prometeu mudanças. Teria dito o óbvio não fosse a esquisitice de ignorar que a preservação da responsabilidade fiscal e o controle da inflação são tarefas das quais seu governo se descuidou.

Governo este que teria de ter cumprido a tarefa de conduzir um esforço nacional pela garantia de serviços decentes na saúde, educação e transportes coletivos. No lugar disso, o discurso antes de falarem as ruas era o de que estava tudo uma maravilha no País cujo sucesso o autorizava a dar lições de gestão mundo afora.

Quanto à reforma política, foi a presidente Dilma Rousseff em pessoa quem avisou logo no início de seu mandato que deixaria de lado toda e qualquer reforma. Agora propõe um plebiscito que por ora tem jeito de factoide: assume o papel de protagonista do debate com vistas a deixar as questões de gestão governamental em segundo plano.

Dilma suscitou mais dúvidas que ofereceu respostas. Muito provavelmente porque não houvesse mesmo nada de diferente a dizer, dado o susto que assolou a nação em geral e talvez de modo especial a presidente, que uma semana antes reagia a vaias com jeito de poucos amigos e atribuía as críticas à intolerância vazia dos militantes do mau agouro.

O buraco, como se viu, é mais profundo e requer algo além de oratória veemente e atos que no passado impressionavam, mas hoje perderam a credibilidade.

Notadamente devido à discrepância entre os fatos e suas versões. Tome-se como exemplo o PAC, a salvação da lavoura a respeito da qual não se tem boas notícias.

O governo queimou capital de confiabilidade fiando-se na sustentação dos índices de popularidade. Agora vai precisar produzir resultados para recuperar o patrimônio.

Dilma dá ênfase ao combate à corrupção, promete mais investimentos e eficiência. Não explicou como vai conjugar essa boa intenção com a companhia de figuras emblemáticas no quesito descompostura nem com o gigantismo da máquina, com a existência de 39 ministérios, muitos deles meras sinecuras para sustentar um modelo esfarrapado de coalizão.

Pregar transparência tendo recentemente ordenado que os gastos com viagens presidenciais fossem considerados sigilosos não ajuda a tecer uma rede de confiabilidade na palavra presidencial.

Na semana passada soou desafinada também a alegação de que não há dinheiro público nos estádios de futebol depois de o governo passar seis anos faturando politicamente a paternidade da Copa do Mundo.

A inconsistência ronda a proposta dos pactos para melhoria dos serviços públicos. Quais os termos do “contrato”, quem abrirá mão do quê? O governo federal quer repartir os danos com governadores e prefeitos, pretendendo receber deles apoio político. Já os chefes de executivos estaduais e municipais querem da União mais dinheiro.

Mas, se o Planalto avisa que não tem margem para repartir receitas, fica difícil vislumbrar condições objetivas em torno das quais seria construído um entendimento para atender a gama de demandas.

Como não se enfrenta isso com passes de mágica e o palavrório cansou, convém aguardar para ver se o plano visa a aplacar os protestos ou se ficou bem entendido que as pessoas exigem que o poder público dê soluções concretas aos problemas.

Governo americano vai aposentar maioria dos chimpanzés usados em laboratórios

Uma boa notícia para quem gosta de animais. Na Veja:

 

Os Institutos Nacionais de Saúde dos EUA vão afastar 310 animais, que serão levados para santuários. Cerca de 50 continuarão em cativeiro

chimpanzésChimpanzés: os cerca de 50 animais que continuarão em cativeiro serão utilizados principalmente em testes para a vacina da hepatite C ou para estudos do comportamento psicológico da espécie (Thinkstock)

Os Institutos Nacionais de Saúde (NIH, na sigla em inglês) dos Estados Unidos anunciaram nesta quarta-feira a decisão de restringir o uso de chimpanzés em pesquisas científicas. A instituição decidiu aposentar 310 animais sob sua guarda e levá-los para santuários. Cerca de 50 chipanzés continuarão disponíveis para estudos futuros.

“Vamos reduzir consideravelmente a utilização dos chimpanzés nas pesquisa biomédicas”, afirmou o diretor dos NIH, Francis Collins. “A maioria dos chimpanzés que temos deveria se aposentar”, acrescentou. Segundo o NIH, a decisão será aplicada paulatinamente ao longo dos próximos meses e deverá levar alguns anos até que todos estejam afastados.

A decisão, que será revisada a cada cinco anos, foi tomada com base em um relatório desenvolvido pelo Instituto de Medicina (IOM, na sigla em inglês),a pedido dos NIH, sobre a necessidade de utilizar chimpanzés em estudos científicos.

De acordo com Collins, os animais que continuam em cativeiro serão utilizados principalmente em testes para a vacina da hepatite C ou para estudos do comportamento psicológico da espécie. Eles também não poderão mais se reproduzir.

Problemas de espaço – As autoridades americanas não aceitaram, porém, a recomendação de atribuir um espaço de 93 metros quadrados a cada chimpanzé, por considerar que a necessidade desta medida não foi suficientemente comprovada.

Paralelamente a isso, o Serviço de Peixes e Vida Selvagem dos Estados Unidos(US Fish and Wildlife Service) anunciou na semana passada a intenção de colocar os chimpanzés criados em cativeiro na lista de espécies ameaçadas, o que dificultaria o uso desses animais em estudos.

 

(Com Agência France-Presse)

Protesto contra o protesto

Por Rogério Gentile. Na Folha:

 

marcha

 

SÃO PAULO – Depois que a polícia de Alckmin reagiu com absurda violência contra manifestantes, passou a ser politicamente incorreto reclamar de protestos. Mas, ainda assim, por que o direito de alguém se manifestar vale mais do que o de uma pessoa levar o filho para a escola ou simplesmente voltar para casa?

É evidente que, quando manifestações mobilizam multidões de 80 mil, 100 mil, 200 mil pessoas, como aconteceu na semana passada, o transtorno é compreensível e necessário. Avenidas importantes acabam mesmo tendo de ser fechadas e resta às autoridades tomar medidas para tentar atenuar o impacto disso na cidade, indicando desvios e rotas alternativas.

Mas, passado o tsunami de protestos, o que se vê em São Paulo é a multiplicação de pequenos atos com 100, 500, 1.000 pessoas. E o governo, acuado, mal tenta negociar a não obstrução das ruas. É justo que essas manifestações miúdas interrompam totalmente vias importantes, como ocorreu na Paulista ontem e anteontem, prejudicando centenas de milhares de pessoas?

Se a intenção é apenas melhorar o país, por que esses pequenos protestos não são realizados em áreas livres, como a praça da Sé ou o Anhangabaú, ou, vá lá, por que não ocupam só uma faixa de trânsito, de modo a não interromper totalmente a circulação?

Os grandes protestos mostraram que há um sentimento de insatisfação difuso na sociedade. Todo o mundo tem algum motivo para se indignar. Houve cartazes contra a Copa, por mais saúde, contra Dilma, contra Alckmin, contra a repressão policial, contra a corrupção, por tarifas menores, contra o deputado Feliciano etc. Houve até quem pedisse a saída do jogador Valdivia do Palmeiras.

De fato, são tantas as queixas que é possível reunir todos os dias grupos diferentes de 30 pessoas para fechar a Paulista no rush. É justo? Assim como a polícia precisa aprender a respeitar os manifestantes, os manifestantes precisam aprender a respeitar os demais cidadãos.

Fragmentos

Limites, por Jorge Luis Borges (em tradução livre):

borges 2

 

Há uma linha de Verlaine que não tornarei a recordar

Há uma rua próxima que está vedada a meus passos,

Há um espelho que me terá visto pela última vez,

Há uma porta que terei fechado até o fim do mundo.

Entre os livros de minha biblioteca (estou os vendo)

Há algum que nunca mais abrirei.

Este verão farei cinquenta anos;

A morte me desgasta, incessante.

 

 

Você prefere rede ou banheira?

Que tal nós dois

numa banheira de espuma…

Publicado na Casa Vogue:

Uma rede ou uma banheira? Splinter Works cria peça para relaxamento

 
  (Foto: Divulgação)

Para alguns, relaxar significa ter um bom lugar para se deitar tranquilamente e assistir o tempo passar. Pode ser uma rede. Ou uma banheira de água quente. Ou, quem sabe, algo novo, que misture essas duas coisas. Pensando nesses símbolos universais do descanso, o estúdio de design Splinter Works criou a banheira Vessel, cujo formato côncavo imita o de uma rede. A peça ainda fica suspensa no ar, tal qual sua inspiração original.

“Desenvolvemos uma peça com intuito de fornecer um escapismo quase que total”, explica o estúdio sobre o projeto. Suspensa e presa pelas duas extremidades por suportes de aço inoxidável, a Vessel é fabricada em fibra de carbono, material resistente que pode ser esculpido em formas curvilíneas complexas, como a do tecido de uma rede quando alguém se deita. Maior que uma banheira regular a Vessel tem 2,70 m de comprimento, mas é adaptável de acordo com o banheiro do cliente. As opções de cores variam entre preto, como nas imagens, vermelho, azul, rosa, prata e bronze.

Para manter a temperatura da água quente por mais tempo, uma espuma foi inserida entre as camadas de fibra, o que prolonga o conforto durante a imersão. O equilíbrio entre solidez e leveza no design aliado a uma experiência de descanso quase total faz dessa banheira um objeto de desejo.  

  (Foto: Divulgação)

 

  (Foto: Divulgação)

 

  (Foto: Divulgação)

  (Foto: Divulgação)

 

  (Foto: Divulgação)