SOBRE COMO A SENHORA ANTÔNIA SE PREPARA PARA RECHAÇAR A TERCEIRA INVASÃO À PACATA CIDADE DE VILA VELHA

Por Paulo Marreco (ou seja, eu):

convento da penha

DONA ANTÔNIA MANUELA VELASQUEZ SOARES DE ANDRADA tem 67 anos. Seu nome é uma homenagem ao ascendente mais remoto, Dom Antônio, navegador famoso, integrante da comitiva de Vasco Fernandes Coutinho, fundou a aldeia de Vila Velha em 1535, com o intuito de explorar o comércio de pau-brasil, madeira abundante na região; posteriormente, dedicou-se ao plantio de café. Dona Antônia vive na casa edificada pelo patriarca da família no que hoje é o centro da cidade; a fazenda, responsável pela riqueza do clã, fora desmembrada e vendida pelos tios -gente urbana, educada nas melhores escolas, ambiciosa e nada disposta a se sujeitar às durezas da vida no campo- de Dona Antônia após a morte de seu adorado pai, em 05 de outubro de 19–. Ela é a única remanescente do clã Soares de Andrada que permanece na cidade; uma personalidade conhecida e muito procurada por estudantes do curso de História, em razão de sua proverbial hospitalidade e dos acurados registros mentais da velha dama, verdadeiro arquivo do desenvolvimento da antiga vila no decorrer dos anos.

Acompanhada de perto por Fiel, um enorme, atento e silencioso pastor alemão de aparência feroz, Dona Antônia recebe todas as suas visitas com um invariável sorriso acolhedor, um bule de café fresco e uma fatia de bolo de laranja. Sempre após as duas da tarde; a boa senhora dorme até as onze horas da manhã. Assim que os visitantes estão confortavelmente acomodados na sala -após o indefectível período de adaptação à ameaçadora presença de Fiel- e diante das suas fisionomias complacentes, ela passa a contar como seu tataravô combateu e derrotou os aymorés naquela que ficou conhecida como a Primeira Invasão. Os aymorés, índios de enorme estatura, robusta compleição, ferocidade extrema e voraz apetite por carne humana, especialmente a branca, cercaram a vila poucos meses após a chegada de Dom Antônio. Ocorre que o bandeirante não era menos feroz; sim, Dom Antônio também pertencia a essa raça de gigantes que um dia caminharam sobre a terra. Durante oito dias, os colonos suportaram o duro cerco dos índios; durante oito dias, combateram sem trégua, rechaçando os terríveis ataques diuturnos; durante oito longos e tenebrosos dias as flechas e lanças e balaços e furiosos gritos de guerra e imprecações cruzaram os céus da vila e o sangue (fato curioso: uma vez derramado, era impossível distinguir se o líquido vital pulsara em veias índias ou brancas…) de incontáveis valentes encharcou aquele solo embriagado de violência, até que, derrotados, os índios bateram em retirada.

Dona Antônia faz uma pausa, apreciando o impacto da narrativa -que inclui precisos e vívidos detalhes sobre olhos vazados por flechas, cabeças rachadas por balas, orelhas, dedos e narizes decepados e outras consequências naturais em circunstâncias com aquelas- em seus ávidos ouvintes. As xícaras estão suspensas no ar, as bocas abertas, e os pedaços de bolo intactos em seus respectivos pratos. Após sorver um deleitoso gole de café e abocanhar um modesto naco do bolo, a elegante senhora prossegue seu relato de como as coisas prosperaram após o feroz combate; de como o café trouxe a riqueza nas décadas seguintes; de como Dom Antônio gerou a Dom Antônio Segundo, que gerou a Dom Manuel, que gerou a Dom Leôncio, que gerou a Dom Antônio Terceiro, seu pai.

E a Segunda Invasão, quando foi, perguntam (sempre há um estudante mais afoito). A segunda tentativa de invasão, você quis dizer, corrige, bem humorada, Dona Antônia; graças aos céus, não faltou um Soares de Andrada para defender esse pedaço abençoado de chão quando foi necessário…

Antes de prosseguir a narrativa, Dona Antônia se levanta, retira cuidadosamente de seu nicho na parede uma antiga espingarda -herança de Dom Antônio Terceiro- e passa a limpar a imponente arma com todo cuidado e perícia. Aos visitantes curiosos informa, sem abandonar o sorriso, que precisa estar preparada para rechaçar a Terceira Invasão. Invariavelmente, as visitas riem, deleitadas com a fanfarronice guerreira da saudável anciã. Então, a velha descendente dos fundadores da cidade se dirige para o amplo alpendre, convidando a todos para que a sigam. Intrigados com os estranhos modos da distinta dama, os estudantes se postam na varanda, aguardando a próxima cena daquele divertido teatro involuntário. Dona Antônia chega a espingarda ao ombro, faz mira por um instante e dispara. O estrondo reverbera no ar e assusta os jovens; ao longe, um pássaro que os rapazes e moças da cidade não estão aptos a identificar despenca dos céus como um anjo caído, sem vida. A pontaria da velha excêntrica é precisa e letal. Mais alguns certeiros disparos em alvos inertes e distantes (parece-me oportuno mencionar que a residência de Dona Antônia situa-se aos fundos do vasto cemitério da cidade; também é conveniente observar que as autoridades locais intentaram inúmeras vezes, sem sucesso, demovê-la do reprovável hábito de alvejar as lápides e esculturas que ornamentam a morada final dos habitantes de Vila Velha) aguçam a admiração e a curiosidade dos estudantes; Dona Antônia aparenta estar realmente apta a combater um eventual inimigo. Felizmente, nos civilizados dias de hoje, uma invasão bárbara é algo restrito aos volumes de História ou aos romances de capa e espada que já não cativam os jovens leitores (onde estão os Dumas desta geração? Onde foram se meter os Cervantes?), mais propensos a consumir com voracidade contos sobre apaixonados e bondosos vampiros ou bruxinhos adolescentes. Não, senhores; no panteão de heróis desta geração, não há mais lugar para mosqueteiros ou cavaleiros andantes… Enfim: a única ameaça real ao sossego da decana dama poderia ser algum gatuno incauto que invadisse o seu quintal; mas, para combater esse tipo de perigo, o vigilante Fiel estaria preparado.

Após seu exercício diário de tiro, Dona Antônia passa a limpar, lubrificar e municiar cuidadosamente a espingarda, enquanto prossegue sua exposição. A Segunda Invasão -que, observava novamente a dama, deveria ser mais corretamente chamada de tentativa; mas, somos forçados a reconhecer, esse nome teria menos apelo dramático; a Segunda Invasão, dizíamos, teve lugar nos dias de seu avô, Dom Leôncio, um gigante da estirpe do patriarca Dom Antônio. Desta vez, foram os holandeses, aqueles arrogantes macacos brancos. Os huguenotes holandeses vieram ao Brasil tentar impor sua religião herética, sua pretensa superioridade cultural e sua cupidez desenfreada. Os blasfemadores da Santa Virgem chegaram no inverno e cercaram a cidade com seus numerosos canhões. O confiante Van Nuurt -um metódico estudioso das estratégias bélicas- contava em vencer os locais pelo cansaço; esperava que a população faminta se entregasse sem resistência depois de alguns dias de privações. Aqueles foram dias terríveis para a cidade, fustigada por uma ininterrupta chuva torrencial e pelo gélido e constante vento sul e assolada pela negra fome. Porém, Van Nuurt, experimentado nas artes da guerra, desconhecia a matéria-prima de que eram feitos aqueles homens e mulheres de bronze. Sim, Dom Leôncio era aço forjado da mesma têmpera de seu avô; e seus conterrâneos o admiravam e seguiam com fidelidade e confiança caninas. Ao compreender que as mulheres da vila, após duas semanas de cerco, estavam antes dispostas a cozer os próprios filhos do que a se renderem aos dourados hereges, Dom Leôncio preparou seus homens. Muito antes que se dissipasse a escuridão da noite do décimo sexto dia de cerco, em meio à chuva incessante, um bando de valentes se esgueirou silencioso, chafurdando lentamente na lama fria até chegar aos pés dos férreos canhões, espalhando-se pelas fileiras e cortando as gargantas dos sonolentos vigias. Depois disso, foi fácil circular pelo acampamento; nas próximas horas, o aço mudo e preciso verteu o sangue dos mais hábeis guerreiros que os Países Baixos haviam enviado para colonizar aquela terra selvagem; quando finalmente os enregelados holandeses começaram a despertar de seu sono profundo, metade da tropa já havia sido exterminada. Aos primeiros raios do tímido sol, os canelas verdes, urrando como feras, investiram com irrefreada fúria sobre os soldados que ainda ressonavam nas barricadas inimigas. A estratégia era perfeita; paralisados de pavor, os pobres diabos louros eram presas fáceis; quase todo o contingente tombou sem vida antes que Van Nuurt capitulasse. Dom Leôncio o obrigou a embarcar de volta ao seu país alagadiço, barba e cabelos de toda a tripulação rapados, levando as cabeças dos holandeses vencidos na batalha, para que os Estados Gerais se lembrassem de nunca mais ousar investir contra a Vila feroz. Os poderosos canhões holandeses, espólio de guerra, ainda hoje ornam os prédios históricos da cidade.

Não é difícil calcular o impacto de semelhante narrativa nas mentes impressionáveis de jovens modernos e urbanos; a tarde transcorre célere e imperceptível enquanto Dona Antônia discorre sobre os heroicos feitos de seus antepassados. Mas, assim que ela percebe que os raios do sol começam a perder seu brilho e calor, e que a noite se avizinha, a anfitriã até então perfeita se apressa em despedir seus hóspedes vespertinos, praticamente enxotando-os de sua casa, mediante a promessa solene de continuarem a agradável conversa no dia seguinte. Os estudantes interpretam toda aquela agitação como caprichos normais de gente velha, e se deleitam com a perspectiva de retornarem amanhã para desfrutarem de mais uma xícara de café, de mais um bocado de bolo, de mais um pouco dos olhares vigilantes de Fiel e das deliciosas histórias da extravagante dama.

Mas Dona Antônia já não sorri, nem se importa mais com suas visitas; desde o por do sol até o momento em que cessa o escasso movimento na rua -por algum motivo as pessoas geralmente evitam a proximidade dos cemitérios durante as horas noturnas- ela observa atentamente a rua pela janela; então -sempre seguida de perto por Fiel, joga um xale sobre os ombros, tira novamente a espingarda da parede, vai até a varanda, senta-se na cadeira de balanço fabricada pelas hábeis mãos de seu pai, coloca uma garrafa de café na mesinha ao seu lado e espera. Espera, não; vigia.

Enquanto vigia, Dona Antônia se recorda de sua infância. De como seu pai a iniciara, sua filha única e adorada, nas artes do manuseio de armas, apenas ela fora capaz de caminhar sobre os pezinhos vacilantes; de como durante toda a infância e adolescência ele, com disciplina e diligência espartanas, a condicionara a ser uma guerreira que fizesse jus ao nome dos Soares de Andrada, a despeito dos olhares de reprovação e da censura de Dona Augusta, sua mãe, que se esmerava em ensinar as boas maneiras da corte à menina. O resultado de formação tão paradoxal seria que Dona Antônia se tornaria uma elegante jovem, capaz tanto de servir um imponente jantar para trinta talheres segundo a mais delicada etiqueta quanto de combater com letal maestria um levante de bravios botocudos. Quando Dona Antônia adquiriu idade e habilidade suficientes, seu pai trancou-se com ela em seu quarto e, com ar grave, anunciou:

– Preste toda atenção, filha minha; vou contar-lhe a verdadeira história das Invasões, que me foi contada por meu pai; a abominável e secreta história que nenhum livro jamais ousaria registrar…

Aquelas foram as horas mais aterradoras da vida de Dona Antônia; seu pai lhe contara a verdade sobre a natureza dos invasores que nenhum ouvido civilizado, racional, cartesiano, seria capaz de aceitar. Aquelas horas hediondas selaram o seu terrível destino. Depois deste dia, Dona Antônia exercitou suas habilidades marciais com aplicação e urgência como nunca antes fizera, irremediavelmente mesmerizada, atormentada pela Revelação; por conta da Revelação fatídica, a bela (precisamos registrar que Dona Antônia tornara-se uma mulher de rara e fulgurante beleza, que atraía a atenção e o desejo de todos os homens da região e além) e desejável moça recusou -sob os desesperados protestos de sua mãe- até mesmo o pedido do Barão de Tremembé, que perdera-se de amores por ela e almejava levá-la para São Paulo. Fico profundamente lisonjeada com vosso amável e generoso pedido, senhor Barão, disse a jovem altaneira; contudo, lamentavelmente, vejo-me obrigada a recusá-lo, em caráter peremptório. Nasci em Vila Velha e pertenço a este chão; meu destino está aqui, e aqui meus ossos descansarão ao lado dos ossos de meus pais, e dos pais de seus pais. Nada, nem mesmo o vosso intenso e digníssimo amor, seria capaz de me afastar desta cidade e de minha sina irrefutável. Assim, adeus!

Com estas palavras Dona Antônia abandonou o Barão inconsolado -consta que o pobre homem nunca se casou- e manteve-se firme em seu propósito; nunca deixou de praticar o tiro, nunca se afastou de sua cidade. Todas as noites, sentava-se na varanda ao lado do pai, perscrutando a profunda escuridão em busca de qualquer sinal de perigo; até que, tarde da noite, vencida pelo cansaço, ia dormir, deixando Dom Antônio sozinho em sua vigília. Quando seu pai faleceu, quatorze anos após sua mãe, sussurrou-lhe entre os espasmos de seu último fôlego:

– Agora só restou você. Defenda a cidade. Não deve demorar muito. Que Deus tenha piedade de sua alma!

Dona Antônia assumiu seu posto. Sim, ela havia sido alertada; sim, ela sabia; ela podia sentir no frio ar da noite.

A Terceira Invasão era questão de tempo. O inimigo, em breve, se levantaria mais uma vez para tentar conquistar a cidade. Mais uma vez, do outro lado, haveria um Soares de Andrada, pronto para o feroz combate.

Mas, desta vez, ele estaria só. Desta vez, ele seria uma mulher.

Dona Antônia Manuela Velasquez Soares de Andrada, a Última, bebe um gole de café, acaricia a enorme cabeça de Fiel e suspira profundamente, os olhos fixos em algum ponto na densa escuridão da noite sem lua. Tudo que a velha dama de ferro almeja é estar à altura da missão, ser digna do nome que ostenta. Logo saberemos, pensa.

Do outro lado da rua, o abafado som das pancadas aumenta noite após noite.

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Todo mundo tem algo a doar: participe do #DiaDeDoar!

Publicado por Suzana Camargo no Planeta Sustentável:

doação

D-O-A-R. Quatro letras. Palavra pequena, mas com imenso significado. Talvez um dos mais bonitos e complexos termos da língua portuguesa e de tantos outros idiomas. Doar vai muito além de dar. É verbo que compreende mais do que um sujeito. Quem doa, doa a alguém ou a muitos. E para fazê-lo necessita de desprendimento, generosidade e compromisso.

Para celebrar a beleza deste conceito e promover a cultura da doação em nossas sociedades, vários países, organizações e empresas do mundo inteiro realizarão uma grande campanha no dia2 de dezembro. A proposta é simples: conclamar companhias, indivíduos, famílias, mídia e organizações não-governamentais (ONGs) a doar.

O movimento internacional #GivingTuesday existe desde 2012, nos Estados Unidos, como resultado de uma parceria entre a organização nova-iorquina 92Y e a Fundação das Nações Unidas. É o contraponto a Black Friday e a Cyber Monday, promoções do comércio para aumentar o consumo e as vendas nas lojas virtuais no final do ano, quando se aproxima a comemoração do Natal.

Rapidamente, ganhou forte adesão internacional e, hoje, reúne mais de 10 mil parceiros em países como Nova Zelândia, Canadá, Israel, Austrália, México, Singapura e Reino Unido, onde são promovidas atividades para estimular o ato de doar. A intenção é que o movimento dissemine ações inteligentes, que possam ser replicadas e gerem impacto de grande escala nas populações mais carentes.

No Brasil, o movimento – Dia de Doar – foi organizado pela primeira vez em 2013 pelo Instituto Doar, que faz parte de uma coalização de entidades – entre elas, a Acorde e a Arredondar – e indivíduos que se uniram para promover a solidariedade no país a partir do estímulo à doação, oMovimento por uma Cultura de Doação. Em 2014, terá, pela primeira vez, o apoio do movimento internacional #GivingTuesday.

O Planeta Sustentável já está engajado nesta campanha, começando por este post e também pelo encontro que será realizado na sede da Editora Abril no dia 28 próximo (acompanhe o Facebook e o Twitter para saber mais). E você?

Lembre-se: para doar não é necessário muito. Mas deve envolver sentimento. Tem que ser de coração. Doar é compartilhar com o outro. Pode ser um objeto, um valor. Todavia, pode ser muito mais. Doar tempo, sangue, medula, carinho, conhecimento, trabalho voluntário, atenção… É um ato que tem em seu interior a vontade de mudar a vida do próximo.

Todo mundo tem o que doar. Isso é fato. Que tal começar doando um pouco do seu tempo para divulgar a hashtag #DiaDeDoar nas redes sociais? Você verá que esta ação faz  bem para todos: quem doa e quem recebe. Um universo está aberto para novas mudanças e elas podem começar com apenas quatro letras: D-O-A-R.

A VISITA

Por Paulo Marreco (ou seja, eu mesmo):

Mister James é um velho escritor. Tem setenta e oito anos. Seus livros fizeram relativo sucesso. Nunca conquistou nenhum prêmio, porém ganhou dinheiro suficiente para que cuidasse da família, às vezes com certa dificuldade. Mas foi o bastante para pagar a faculdade dos três filhos. Não escreve mais, pois enxerga mal; as mãos já não têm firmeza para sustentar a pena, e o cérebro não funciona muito bem. Mister James sofre do mal de Alzheimer. Está internado em uma clínica, recebendo o melhor tratamento que o dinheiro pode pagar. Seus filhos tornaram-se ricos.

A esposa faleceu há mais de seis anos. Seis anos, quatro meses e doze dias. Cada um destes dias foi um suplício, foi morrer um pouco. Mister James sente muito sua falta. Dorme quase nada, alimenta-se mal, e chora todas as noites. Mister James definha de saudades.

O velho escritor sente-se muito só. Os filhos aparecem pouco, em rápidas visitas, ocupados que estão com a vida. Não puderam vir no Natal passado, e não deram certeza de que viriam este ano. Da última vez que Peter esteve ali, não trouxe as crianças. O avô adora as crianças, tão graciosas, tão cheias de vida… Peter não disse, mas o velho está desconfiado de que ele não trará mais as meninas. Peter tem razão. Elas ficariam muito impressionadas em vê-lo neste estado.

Longos são os dias, e penosas as horas para Mister James. Não há nada para fazer na clínica. Ou melhor, nada o interessa. Não se anima com as dinâmicas de grupo, nem com a tevê, nem com o carteado. Não retribui o afeto das enfermeiras, tão solícitas, as moças. Só uma coisa ocupa sua mente: as lembranças de sua amada, sua doce e gentil Sarah.

Numa fria manhã de novembro, Mister James sentia-se especialmente só. Recebera um telefonema de Jack, o filho mais velho, advogado, informando-o de que realmente não iria aparecer para o Natal. Provavelmente, não apareceria nem para o Natal, nem para outras ocasiões. Estava de mudança para a Costa Oeste. Isso era coisa de Susan. A nora nunca gostou do velho sogro. Sentiu, naquele momento, que não veria mais este filho. Então, uma estranha sensação foi se apoderando dele. Passou todo o dia com aquela sensação, até que se transformasse em certeza: não veria mais nenhum dos filhos. Não teria mais tempo para isso.

Foi quando olhou para a porta e o viu.

Oscar é um velho gato de pelos cinzentos, gordo e carinhoso. Anda livremente pelos corredores da clínica, ronronando e enroscando-se nas canelas dos poucos que se dignam fazer-lhe algum carinho. Gosta, principalmente, de perambular pelo terceiro andar, onde ficam os pacientes com problemas mentais.

Oscar é conhecido de todos na clínica. Sua presença causa desconforto na maioria das pessoas, sejam internos ou funcionários. Talvez por isso ele goste mais dos pacientes do terceiro andar. O problema com Oscar começou quando ele apareceu pela primeira vez. Uma enfermeira o viu no colo de um paciente. A jovem tentou enxotá-lo, mas o homem reagiu e abraçou o gato, impedindo que ele saísse. Deixe Oscar em paz, disse, e aí foi dado o nome ao simpático felino. Poucas horas depois, o paciente estava morto. E o gato havia sumido.

Alguns dias se passaram, e Oscar apareceu novamente. Passeou tranquilamente por várias alas, até deter-se à porta fechada do quarto da Sra. Watson. O gato esperou até que alguém abrisse a porta. Quando isso aconteceu, ele entrou rapidamente e pulou no colo da senhora, que o acolheu com alegria. Até àquele dia, a mulher estava muito bem de saúde. Solitária, mas bem de saúde. Duas horas depois de encontrar-se com Oscar, a Sra. Watson havia deixado esta vida.

A direção da clínica tentou expulsar o gordo felino, temendo que ele estivesse contaminado com alguma doença. Entretanto, não havia no corpo da Sra. Watson nada que indicasse que pudesse ser o gato o responsável por sua morte súbita. Além disso, Oscar sumiu por um tempo, só retornando numa certa manhã para acompanhar o passamento de outro interno, que, nos seus últimos momentos de vida, desfrutou da companhia do simpático e misterioso Oscar.

Neste dia, Oscar não foi embora. Observou o corpo de Mr. Freeman sendo recolhido e continuou no corredor. Passou o dia inteiro na clínica, até que às sete da noite dirigiu-se ao quarto de outro paciente. Que faleceu horas depois. Cerca de duas horas. Como todos os outros pacientes que recebiam a visita de Oscar.

A partir deste dia, ninguém mais tentou expulsar Oscar. A partir deste dia, ele não foi mais embora. O gato não saiu mais do hospital. Ninguém entendia como o animal se alimentava, uma vez que ele não aceitava comida de ninguém. Também não fazia sujeira em lugar algum. Apenas vagava pelos corredores, observando. Observando e esperando. Depois destes acontecimentos, outras vinte e duas pessoas receberam a visita do felino cinzento. Todas elas morreram no mesmo dia. Cerca de duas horas após o derradeiro encontro com Oscar. Alguns pacientes diziam que Oscar era um mensageiro da morte. Outros, que ele era a própria morte. Muitos o consideravam um tipo de anjo, que assistia aos homens em seu derradeiro momento.

Agora ele estava ali, olhando para Mister James. O escritor sorriu e abriu os braços para Oscar, que veio mansamente se aninhar em seu colo.

Olá, meu velho. Finalmente você veio me visitar! Quanto esperei por este dia… O gato fechou os olhos quando a velha mão trêmula pousou sobre sua cabeça num afago. Mister James sabia que lhe restavam apenas algumas horas. Gastou-as relembrando os momentos felizes que vivera ao lado de sua amada Sarah, o nascimento dos filhos, dos netos… tantas histórias, tantas alegrias tivera!

Viver foi muito bom, meu velho, mas estou pronto, estou em paz, disse ele para o gato. Sinto tanta falta de minha Sarah! Mister James deu um profundo suspiro, enquanto Oscar olhava fixamente para ele.

Sabe, Oscar, bem que eu gostaria de escrever sobre você…

Mister James passou desta vida. Seu último pensamento foi sobre a história do gato Oscar, que tinha a estranha habilidade de prever a morte.

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(MAIS UM)A REVOLUÇÃO DOS BICHOS

QUANDO OS CACHORROS -finalmente! Alguém já deveria ter tomado essa providência há tempos!- começaram a falar, para assombro de todos e irritação das autoridades, obrigadas a baixar novos decretos e etc., a primeira coisa que disseram a seus donos perplexos foi:

– Sabem aquele cafuné que vocês sempre nos fazem, esfregando nossas orelhas?

– Sim? O que é que tem?

– Nós odiamos. Por favor, nunca mais façam isso.

– Mas… Mas vocês até viram a cabecinha de lado assim, ó…

– É porque nós ficamos completamente transtornados. O ouvido canino também tem labirinto -e vocês deviam saber disso!- e ele é, aliás, quatro vezes mais sensível do que o ouvido humano; vocês podem imaginar o desconforto. Por favor, nunca mais façam isso.

A partir desta terrível revelação, dessa reivindicação mesclada com crítica, o relacionamento entre homens e cães nunca mais foi o mesmo. Aquela velha e alegre e cordial intimidade deu lugar a um certo formalismo desconfiado, a um esfriamento, a um cauteloso e constante pisar em ovos, por mais que todos se esforçassem para demonstrar que tudo estava bem, que todos estavam ótimos, que tudo continuava normal, que tudo continuava absolutamente normal. A decepção pairava no ar, mesmo que a velha rotina de sempre permanecesse imutável: sim, os cães ainda balançavam rabos alegres quando viam seus donos, ainda eram alimentados por eles, ainda pulavam sobre eles na volta do trabalho, ainda eram levados diariamente a passeio, ainda dormiam aos pés de suas camas, e além disso não houve novas reivindicações; entretanto, alguma coisa antiga e feliz e indefinível havia se perdido. Ninguém dizia nada, mas, no íntimo, todos, cães e homens, lamentavam que o encanto entre eles, aquele antigo deslumbramento cúmplice, houvesse se quebrado.

Não sem motivo, determinados conhecimentos são vedados aos homens.

CACHORRO

10 Filmes biográficos sobre grandes escritores

Publicado no Ditopelomaldito:

O cinema nunca se cansa de sugar o tutano da literatura para alimentar a base de suas produções. Enquanto houver livros sendo publicados, sempre haverá uma história a ser adaptada para as telonas por Hollywood. Infelizmente, na maioria das vezes o resultado desta fusão não é lá muito satisfatório. O que nos leva ao eterno dilema de que o livro é sempre superior ao filme que fazem dele.
Em um outro ponto, e por um outro ângulo, já abordamos aqui alguns raros filmes que, segundo os próprios autores, melhoraram o livro em que foram baseados. Mas o que esses autores diriam de um filme que foi inspirado, não em uma de suas obras, mas sim em suas próprias vidas?
Parece que mesmo quando todas as obras de um escritor já foram exploradas, contadas e até refilmadas no cinema, os estúdios ainda encontram uma forma nada sutil de ganhar dinheiro filmando a biografia desses autores. Já dentro deste gênero, a margem de acerto parece ser bem maior por parte da indústria cinematográfica, e nos últimos anos alguns grandes escritores tiveram suas vidas brilhantemente levadas para o cinema.
Abaixo tivemos o cuidado de selecionar alguns desses filmes biográficos sobre a vida de grandes escritores, sinta-se a vontade para sugerir outros em nosso espaço de ‘comentários’.
✔ Capote,… sobre Truman Capote

Em novembro de 1959, Truman Capote lê um artigo no jornal New York Times sobre o assassinato de quatro integrantes de uma conhecida família de fazendeiros em Holcomb, no Kansas. O assunto chama a atenção de Capote, que estava em ascensão nos Estados Unidos. Capote acredita ser esta a oportunidade perfeita de provar sua teoria de que, nas mãos do escritor certo, histórias de não-ficção podem ser tão emocionantes quanto as de ficção.
Usando como argumento o impacto que o assassinato teve na pequena cidade, Capote convence a revista The New Yorker a lhe dar uma matéria sobre o assunto e, com isso, parte para o Kansas. Acompanhado por Harper Lee, sua amiga de infância, Capote surpreende a sociedade local com sua voz infantil, seus maneirismos femininos e roupas não–convencionais. Logo ele ganha a confiança de Alvin Dewey, o agente que lidera a investigação pelo assassinato. Pouco depois os assassinos, Perry Smith e Dick Hickock, são capturados em Las Vegas e devolvidos ao Kansas, onde são julgados e condenados à morte. Capote os visita na prisão e logo nota que o artigo de revista que havia imaginado rendia material suficiente para um livro, que poderia revolucionar a literatura moderna.
✔ Eclipse de uma Paixão,… sobre Arthur Rimbaud e Paul Verlaine

O filme conta a história de um relacionamento homossexual proibido entre os poetas franceses Arthur Rimbaud (Leonardo DiCaprio) e Paul Verlaine (David Thewlis).
Impressionado pelo talento e espontaneidade do jovem Rimbaud, o veterano Verlaine se aproxima do rapaz. Em noites regadas a absinto, os dois estreitam a amizade, descobrem o amor entre eles e escrevem alguns de seus poemas mais famosos. Porém, as amarras da sociedade e a própria intensidade da paixão entre eles começam a minar esse relacionamento.
✔ Wilde: O Primeiro homem moderno,… sobre Oscar Wilde.

A história de Oscar Wilde, poeta e dramaturgo irlandês, gênio da literatura. Não por acaso, o filme tem uma espécie de subtítulo, “o primeiro homem moderno”. Na virada do século 20, Wilde (Stephen Fry) escandalizou a sociedade com a maneira que viveu sua homossexualidade. Casado e com filhos, viveu um caso turbulento com o jovem Lord Alfred Douglas, que deixou os ingleses de cabelo em pé. Por causa de seu comportamento sexual, foi obrigado a prestar dois anos de trabalhos forçados na cadeia.
✔ Medo e delírio em Las Vegas,… sobre Hunter S. Thompson

Medo e Delírio pode ser interpretado como um mergulho inconsequente pelo universo das drogas. Baseado em obra do jornalista Hunter S. Thompson, o filme recusa-se a avaliar os prós e contras do uso das drogas. Limita-se a enfocar os seus efeitos – desde a atraente sensação de incoerência até as conseqüências de uma “bad trip’’. O estilo visual acompanha o tom alucinógeno, enchendo a tela com imagens atordoantes como um suposto ataque de morcegos e uma seqüência em que os motivos de decoração do carpete começam a subir pelas pernas do protagonista.
O filme só faz sentido quando o espectador lembra que a ação se passa em 1971, quando as drogas deixavam de ter a conotação de paz, amor e a inocência dos anos 60. O alter ego de Thompson, Raoul Duke (Johnny Depp), tenta justamente resgatar os velhos e bons tempos. O título pode ser interpretado como a sua “última viagem’’. Sempre na companhia de seu advogado tresloucado, dr. Gonzo.
As aventuras da dupla têm início na estrada, a caminho de Las Vegas, onde eles deveriam cobrir um evento esportivo. Na bagagem, uma máquina de escrever, roupas com estampas floridas ou espalhafatosas e muita, muita droga.
✔ Contos Proibidos do Marquês de Sade,… sobre Marquês de Sade

A história do Marquês de Sade, que viveu na tumultuada França do século 18. Sade, além de perigoso dissidente em meio a sangrenta Revolução Francesa, foi escritor, escandalizou a todos com seus poemas eróticos, foi preso, tornou-se revolucionário e escapou da sentença de morte duas vezes.
O filme aborda a censura e a liberdade de expressão a partir de um personagem que continua a chocar no século 21 com suas obras sobre perversidades e prazeres sexuais ligados à violência.
✔ O Círculo do Vício,… sobre Dorothy Parker

Em 1937, vivendo em Hollywood, Dorothy Parker (Jennifer Jason Leigh) relembra os tempos em que pertencia ao grupo Algonquin Round Table, formado por amigos escritores na Nova York dos anos 20. Entre festas, romances e amizades com os escritores, Dorothy passa por alcoolismo, comportamento auto-destrutivo e tentativa de suicídio. Destaque para a atuação elogiada de Jennifer Jason Leigh e para os diversos atores famosos que aparecem em pontas, incluindo Harpo Marx.
A escritora e língua afiada profissional Dorothy Parker pode não ter ganhado a cinebiografia mais divertida do mundo dada a natureza trágica de sua vida, mas teve uma interprete à altura
✔ O Carteiro e o Poeta,… sobre Pablo Neruda

Filme poético sobre a extremidade da poesia. Mario (Massimo Troisi) é um carteiro que, ao fazer amizade com o grande poeta Pablo Neruda (então exilado político), vira seu carteiro particular e acredita que ele pode se tornar seu cúmplice para conquistar o coração de uma donzela. Descobre, assim, a poesia que sempre existiu em si, assemelhando-se às descobertas de verdade pelos meios dialéticos de Sócrates-Platão.
O filme se passa em uma ilha na costa italiana. Massimo Troisi, que morreu aos 41 anos horas após o término das filmagens, não pôde ver o enorme reconhecimento mundial que o filme teve, com as 5 indicações para o Oscar, incluindo Melhor Filme, Diretor e Ator, em 1995.
✔ Henry e June,… sobre Henry Miller e Anais Nin

Este excelente filme de Philip Kaufman introduz-nos na vida erótica de duas grandes figuras da literatura do século XX.
Ao conhecer o escritor americano Henry Miller (Fred Ward) em Paris, em 1931, uma jovem escritora chamada Anais Nin (Maria de Medeiros) embarca numa viagem de descoberta interior, anotando fielmente num diário todas as suas experiências.
Na sua busca de novos territórios, Anais e Henry vêem-se seduzidos pela inquietante sensualidade da esposa de Henry, June (Uma Thurman).
Henry & June é uma inesquecível viagem através do território desconhecido das relações humanas, baseada nas passagens suprimidas dos diários de Anais Nin.
✔ Em Busca da Terra do Nunca,… sobre James M. Barrie

J.M. Barrie (Johnny Depp) é um bem-sucedido autor de peças teatrais, que apesar da fama que possui está enfrentando problemas com seu trabalho mais recente, que não foi bem recebido pelo público. Em busca de inspiração para uma nova peça, Barrie a encontra ao fazer sua caminhada diária pelos jardins Kensington, em Londres. É lá que ele conhece a família Davies, formada por Sylvia (Kate Winslet), que enviuvou recentemente, e seus quatro filhos. Barrie logo se torna amigo da família, ensinando às crianças alguns truques e criando histórias fantásticas para eles, envolvendo castelos, reis, piratas, vaqueiros e naufrágios. Inspirado por esta convivência, Barrie cria seu trabalho de maior sucesso: Peter Pan.
✔ Anos Loucos,… sobre William S. Burroughs

O início desta história dá-se em 1944 em Nova Iorque, onde a estudante de Jornalismo, Joan Vollmer (Courtney Love) leva uma vida boêmia repleta de barbitúricos e sempre rodeada por amigos, na sua maioria, homossexuais, todos futuros “beatniks”, entre os quais, o jovem poeta Allen Ginsberg (Ron Livingston), Jack Kerouac (Daniel Martinez) e William S. Burroughs (Kiefer Sutherland), o mais velho da turma e Lucien Carr (Norman Reedus) por quem todos estão apaixonados, especialmente Dave Kammerer (Kyle Secor) que termina assassinado por Lucien devido a assédios.
Sete anos mais tarde, Burroughs, apesar de preferência sexual se casa com Joan. Tudo corre bem até que os dois são obrigados a fugir para o México depois de uma confusão devido às drogas. Lucien e Ginsberg, agora correspondentes para a UPI, decidem ir ao México visitar o casal e descobrem que Burroughs está na Guatemala traindo a esposa com um jovem.
Este acontecimento faz parte da história literária deste grupo de amigos chamados de “beats” (um movimento literário) que virou uma lenda.

BBC: as canções com maior poder de cura da história

Publicado no Whiplash:

Em uma pesquisa realizada pela BBC entre 1000 pessoas, a música “Bohemian Rhapsody”, lançada originalmente em 1975 pela banda Queen, foi eleita como a melhor para se ouvir quando alguém está doente ou se sentindo para baixo.

A referida canção foi Nº 1 duas vezes no UK Singles Chart, sendo a primeira no ano de seu lançamento, e a segunda, em 1991, quando o vocalista Freddie Mercury morreu em decorrência de complicações da Aids.

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Em segundo lugar na pesquisa ficou “Dancing Queen”, originalmente lançada em 1976 pela banda Abba. Com uma letra simples, a canção fala sobre uma uma jovem de dezessete anos, muito popular entre os homens, que adora dançar e passar noites divertidas. Confira como ficou o resultado final.

Top 10

01 – Queen: Bohemian Rhapsody
02 – ABBA: Dancing Queen
03 – Pharell Williams: Happy
04 – Música Clássica
05 – The Beatles: Let It Be
06 – Bob Marley: Three Little Birds
07 – Robbie Williams: Angels
08 – Michael Jackson: Billie Jean
09 – Elvis Presley: The Wonder Of You
10 – Frank Sinatra: My Way

Fonte: BBC: as canções com maior poder de cura da história http://whiplash.net/materias/melhores/212707-queen.html#ixzz3JhW4VqRJ

OS DOIS REIS E OS DOIS LABIRINTOS

Do genial Borges:

“Contam os homens dignos de fé (porém Alá sabe mais) que nos primeiros dias houve um rei das ilhas de Babilônia que reuniu seus arquitetos e magos e lhes mandou que construíssem um labirinto tão perplexo e sutil que os varões mais prudentes não se aventuravam a estrar, e os que entravam se perdiam. Essa obra era um escândalo, porque a confusão e a maravilha são operações próprias de deus e não dos homens. Com o passar do tempo veio à sua corte um rei dos árabes, e o rei de Babilônia (para escarnecer de seu hóspede) o fez penetrar no labirinto onde vagou afrontado e confundido até a declinação da tarde. Então implorou por socorro divino e deu com a porta. Seus lábios não proferiram queixa alguma, porém disse ao rei de Babilônia que ele, nas Arábias, tinha outro labirinto e que, se Deus fosse servido, o daria a conhecê-lo algum dia. Logo regressou à Arábia, reuniu seus capitães e alcaides e arruinou os reinos da Babilônia com tão venturosa fortuna que derrubou seus castelos, rompeu suas gentes e fez cativo ao mesmo rei. Amarrou-o sobre um camelo veloz e levou-o ao deserto. cavalgaram três dias, e lhe disse: ‘Ó rei do tempo e substância e símbolo do século! Na babilônia me quiseste perder num labirinto de bronze com muitas escadas, portas e muros; agora o Poderoso teve por bem que te mostre o meu, onde não há escadas que subir, nem portas que forçar, nem fatigosas galerias que percorrer, nem muros que te vedem o passo’.

Logo lhe desatou as amarras e o abandonou na metade do deserto, onde morreu de fome e de sede. A glória seja com Aquele que não morre.”

Labirinto