TINHAM CAMINHOS NO MEIO DA PEDRA

Reflexão do Lúcio Manga sobre o crack. Na Gazeta (assim mesmo, com essa pontuação):

tinha uma pedra no meio do caminho e não era poesia, era crack. o primo pobre da cocaína tem reinado absoluto nas ruas, consolidado por um exército de miseráveis zumbis alucinados correndo atrás de centavos para pagar pelas pedras do desassossego… o que assusta é a velocidade, o cinza.

há uma tristeza na cracolândia que perturba. perde-se a noção da inconveniência. perde-se a noção de tempo. lá, não há com quem dialogar. parece o resultado de uma sociedade que passou a viver como se não existisse mais ninguém ao redor. é verdade. o crack é a nóia do esgoto humano, a sobra desse mundo admirável mundo em que o dinheiro é a única forma de inclusão. a realidade nunca foi tão cruel com o que se oferece a ela. o lucro da indústria da droga é a evidência de que fugir da realidade tornou-se lugar comum. não há bucolismo.

o comércio vende apelos a toda hora. e endividam-se todos, porque há algo mais forte, – sabe-se lá que doença é essa… (ou você só compra o que precisa?) – …que leva ao consumo. o crack está dentro desse apelo comercial. o bom e o barato. efeito bombástico. alucinação garantida. essa é a educação social. comprar, consumir, ser melhor do que os outros. a invencibilidade regada às custas da derrota alheia. aliás, no brasil, estamos cercados por moralismos e moralistas por todas as ilhas. um perigo tão devastador quanto o crack. é um erro querer criar os filhos como antigamente. não dá mais. o mundo é outro.

se formos honestos, não negaremos que, de fato, o ser humano nunca importou. a miséria sempre me disse isso, desde que eu acreditava que poderia mudar o mundo. lá na juventude. e essa vontade de mudar o mundo está lá porque não é minha e nem de ninguém. mudar o mundo é o oxigênio dos jovens. não acaba nunca. por isso, de nada adiantou o discurso-moralista-anti-tudo do mundo adulto. ninguém ouviu… nem mesmo os que hoje repetem o discurso que, quando lá, também ignoraram. mas, continua-se a construir um universo surreal. o mundo escravo das religiões castradoras, com seus jovens olhando pela janela dos templos a liberdade que corre lá fora, enorme conflito. o mundo das vaidades cheio de mocinhas e de rapazes artificiais, plastificados na estupidez das fogueiras. o mundo dos que acreditam saber o que é melhor para os outros. o mundo dos canalhas que roubam o dinheiro público em benefício próprio. o mundo que nunca alforriou os pobres. o mundo cão.

esse mundo, cercado de entretenimento por todos os apelos é uma indústria de vampiros que vendem ivetes, mas não distribuem cultura. e aí, o que se pode esperar, diante disso? o horror. confirma-se a tragédia anunciada.

mudar esse universo é querer compreender todos os tipos de droga como questão de saúde pública. beber para esquecer, fumar cigarro para relaxar… são os truques lícitos da indústria comercial dos prazeres. a violência, a opressão gera fugas, gasta dinheiro público e não resolve nada. é preciso debater, construir um discurso verdadeiro sobre tudo aquilo que atinja as pessoas, acabar com as senzalas de uma vez por todas. cabe à juventude entender que não pode querer estar dentro do crack.

Respeitável público, a cracolândia é o circo dos palhaços tristes, das trapezistas sem corpo, do globo da morte, das jaulas sem feras, dos truques sem mágicos, da mulher barbada. o crack é o atirador de facas que quer errar no alvo.

o crack é uma pedra. no meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do carinho…

pedra