FRAGMENTOS

O bom e velho Norman

O bom e velho Norman

“Esse foi o seu discurso, e ele discursou bem. Mas eu lhe teria dito que devemos inevitavelmente procurar uma diversão, já que a diversão é o que nos dá força para tentar de novo. Pois nós não nos arriscamos em nosso caminho até o cerne do mistério contra todo o poder das boas maneiras, da boa moral, do medo dos micróbios e do sentimento de pecado? Para não mencionar as prisões da dor, os poços do prazer e as vozes públicas e profissionais de nossa terra sentimental. Se há um deus, e algumas vezes eu acredito que haja, tenho certeza de que Ele diz: ‘Vá em frente, meu garoto. Não sei se posso ajudá-lo, mas não queremos que todas aquelas pessoas lhe digam o que fazer.”

Há horas em que eu teria a arrogância de responder ao próprio Senhor, e por isso pergunto: ‘O Senhor concordaria em que o sexo é onde começa a filosofia?’

Mas Deus, que é o mais antigo dos filósofos, responde do Seu modo cauteloso e cifrado: ‘Em vez disso pense no Sexo como o Tempo, e no Tempo como a ligação de novos circuitos.’

Então, por um momento, naquela minha alma fria e irlandesa, um brilho da alegria da carne veio me minha direção, raro como o olho da mais rara lágrima de compaixão, e nós rimos juntos afinal de contas, porque ter ouvido que o sexo era o tempo e o tempo a ligação de novos circuitos era parte dos diálogos pobres e estranhos que dão esperança a nós, pobres seres humanos, por mais do que uma noite.”

Norman Mailer, em Parque dos Cervos

20 fotos incríveis que parecem retocadas, mas são reais

publicado no Mistérios do Mundo

Às vezes, é difícil distinguir a realidade da ficção – especialmente quando o Photoshop faz com que seja tão simples borrar a linha entre os dois. No entanto, certos casos, mesmo que sejam difíceis de acreditar, são totalmente reais.

Estas fotos parecem muito incríveis para serem retratos da realidade, mas elas são. Algumas delas são terríveis, enquanto outras vão fazer você se perguntar como a Mãe Natureza conduz seus negócios.

# 1. Aranhas subiram em árvores para escapar das inundações no Paquistão. Milhares delas fizeram teias ali mesmo.

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# 2. A incrível estação de metrô Solna Centrum, em Estocolmo.

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# 3. Os maiores chifres do boi em todo o mundo.

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# 4. Coelho mais fofo do mundo

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# 5. O ralo no Reservatório de Ladybower, no Reino Unido. O buraco foi, na verdade, feito para evitar inundações.

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# 6. Uma escultura em uma praia em Sydney, Austrália.

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# 7. Uma opala que dá a ilusão de um pequeno oceano dentro da pedra.

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# 8. Um navio que quase invadiu esta vila.

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# 9. O vulcão Ijen, na Indonésia, expele lava azul

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# 10. Árvores secas na Namíbia, fotografadas contra uma duna gigante.

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# 11. Este enorme caranguejo é uma visão comum em climas tropicais, como a Austrália.

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# 12. Uma montanha que parece um Doritos gigante, no Parque Nacional das Geleiras, em Montana, nos Estados Unidos.

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# 13. Um avião pousando no aeroporto da Ilha de São Martinho.

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# 14. Borboletas monarca voam de volta de onde ficam no inverno na Serra Chincua, México.

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# 15. Lago Retba, um dos poucos que são naturalmente rosas em todo o mundo.

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# 16. A paisagem do deserto da Namíbia, na África Austral.

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#17 Um tubarão dentro de outro tubarão

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#18 Um homem com um buraco em seu rosto

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#19 Um peixe com dentes parecidos com os dos humanos

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#20 Um gato com rosto dividido

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O ENCARGO DE APOLO – FINAL

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Por Paulo Marreco (moi):

Anos se passaram até Edmond ser finalmente levado para o temível Hospital Heisenheimer e ali ser abandonado pelo único amigo que lhe restara; depois do desaparecimento de sua esposa, a polícia cumpriu o papel que lhe cabe em casos tais e, durante meses a fio, importunou o pobre Edmond, principal e previsível suspeito, com visitas, intimações e as mesmas aborrecidas, incríveis e ofensivas perguntas, repetidas até à exasperação. Enquanto isso, Edmond se entregara a uma vida de completa dissolução, entremeada por períodos de intenso fervor religioso, nos quais ele buscava, mais do que refrigério ou perdão para sua alma atormentada, sinais da existência de alguém, de algum poder maior que pudesse nos proteger no terrível dia em que Apolo não tiver mais forças para se levantar e arrostar sozinho as forças das trevas por nós. Não sei se ele encontrou tais sinais; gostaria que tivesse; mas, a julgar pelo brutal desfecho de sua vida, creio que sua busca tenha sido em vão.

O fato inescapável é que Edmond não esteve internado durante boa parte da sua vida por conta de um colapso causado pelo desaparecimento não explicado de sua esposa, nem foi sua personalidade arredia que o levou a se afastar e fugir do mundo dos homens, nem foi a melancolia de um artista deprimido e sensível que o fez procurar o próprio fim. O que acabou com a alma de Edmond foi o mais primitivo e absoluto medo. Eu sei disso; eu conheço a verdade.

Eu conheci pessoalmente Edmond; hoje, o compreendo. Sei o que o destruiu. Hoje, sabendo o que eu sei, não ouso reler O encargo de Apolo.

Vendi a editora por um bom preço. Depois de tudo, o mundo como o conhecemos deixou de fazer sentido para mim. Compreendo Edmond plenamente; mas não tenho coragem (não tenho… coragem?) para tomar a mesma decisão terminal.

Sigo vivendo, temendo, esperando o fim. O meu próprio, ou da humanidade; já não tenho certeza de qual virá primeiro.

Sei que, em algum lugar deste estranho mundo, Apolo está cansado. Sei que ele não estará entre nós por muito mais tempo.

Vila Velha, 17 de abril de 2014.

IARA E A ARCA DA FILOSOFIA

Por Paulo Marreco (sim, eu mesmo):

Filolau e Iara partindo rumo à aventura

Filolau e Iara partindo rumo à aventura

Acabei de ler Iara e a Arca da Filosofia, do meu dileto amigo Maurício Abdalla, professor da Universidade Federal do Espírito Santo.

Agora já me sinto capaz de identificar os ardis do malévolo Pwyll, de encontrar o caminho da Metafloresta e de mover pesadas portas utilizando apenas a força do pensamento.

O livro é divertido, os personagens, convincentes e a trama, muito bem amarrada. A narrativa flui com facilidade. Aliás, não esperava menos do criador do titânico Cíclope.

Recomendo a leitura aos adolescentes que gostam de livros. Se é que esse bicho ainda não foi extinto.

FRAGMENTOS

O Visconde partido ao meio. Vale a leitura.

“… assim, também os significados são muito importantes, mas numa narrativa como esta o aspecto de funcionalidade narrativa e, digamos, de diversão é muito importante. Creio que divertir seja uma função social, corresponde à minha moral; penso sempre no leitor que deve absorver todas estas páginas, é preciso que ele se divirta, é preciso que ele tenha também uma gratificação; esta é a minha moral: alguém comprou o livro, despendeu dinheiro, investe parte de seu tempo nele, deve divertir-se. Não sou só eu que penso assim; por exemplo, Bertold Brecht dizia que a primeira função social de uma obra teatral era o divertimento. Penso que o divertimento seja uma coisa séria.”

Ítalo Calvino, sobre o seu O Visconde partido ao meio.

O ENCARGO DE APOLO – PARTE VII

o valente Apolo

o valente Apolo

Por Paulo Marreco:

Então olhei e finalmente compreendi.

Apolo.

Aquele era o seu destino, o seu encargo. Toda a sua existência se justificava unicamente por aquele dia, por aquele momento, por aquele embate.

De uma forma inexplicável –que minha alma imediatamente assimilou-, Apolo era o obstáculo intransponível, a última oposição, a última (a única?) barreira que impedia o cumprimento dos malévolos desígnios de quem quer que fosse: Shaitan, Satã, diabo…

Apolo continuava na mesma posição no alpendre; deitado, apenas a cabeça levantada. Olhava fixamente para o foco de luz; seus olhos não demonstravam nem espanto nem medo nem ódio. Apenas fitava a nebulosa, imperturbável, como um cão que, sem curiosidade, observa um acontecimento banal qualquer e espera sem interesse o próximo movimento. A luz hesitava na presença do cão; durante um tempo que parecia eterno e estático, não houve qualquer movimento ou manifestação; a impressão era de que estávamos diante de dois ferozes duelistas que se estudavam mutuamente antes de desferir seus ataques. O foco de luz realizou, então, um movimento para a frente. Tranquilamente, Apolo se soergueu em suas patas dianteiras; a nuvem recuou novamente, como se temesse a reação do portentoso animal. Os relâmpagos e trovões se intensificaram grandemente; todo o firmamento parecia prestes a explodir e ruir sobre nós. A nebulosa avançou; Apolo ficou de pé. A luz retrocedeu. Era possível sentir seu ódio na atmosfera, como descargas de pura energia maligna. Neste momento um raio despedaçou uma enorme árvore próxima à casa; imediatamente o fogo irrompeu na mata. A casa gemia e estalava sob a violência do ataque das forças das trevas; parecia prestes a ser destroçada. Apolo, contudo, demonstrava a impassibilidade, a calma, quase a complacência de uma divindade que se depara com uma potestade inferior; entretanto, não tirava os olhos do estranho redemoinho de luz e névoa à sua frente. O foco de luz, então pareceu intensificar-se grandemente e expandir-se; agora, os raios e trovões emanavam do seu terrível centro. Mais uma vez, Shaitan (só podia se tratar, efetivamente, do Mal personificado) avançou contra nós; agora, os pelos no dorso de Apolo se eriçaram, e ele, que já estava de pé, rosnou pela primeira vez, exibindo os poderosos caninos; novamente o recuo da massa de luz.

Este medonho e angustiante embate de forças, este avançar e recuar perdurou durante toda a madrugada; porém, assim que o primeiro raio de sol despontou no horizonte, todo o caos daquela noite começou a se desfazer; juntamente com a lenta alvorada, o vento impetuoso foi amainando, os raios, trovões e relâmpagos cessaram, parou a chuva e a massa de luz diabólica se dissipou numa terrível explosão. O mundo retornou à calma, quietude e normalidade de qualquer manhã; o único vestígio daquela noite colossal era o grosso tronco rebentado e carbonizado pelo raio; quem despertasse naquele exato momento jamais seria capaz de imaginar o pavoroso perigo que corremos; sim, era impossível imaginar que, enquanto os homens dormiam, desguarnecidos em suas camas, nosso pior inimigo havia requerido nossas almas naquela noite, e nosso defensor era um labrador chamado Apolo… 

Por toda a madrugada, o destino da humanidade esteve dependurado, à beira do abismo, à mercê da bravura e da resistência do valente Apolo; somente o enorme cão nos salvou da perdição que nos estava reservada naquela noite. Sim, eu não tenho qualquer sombra de dúvida; somente a presença poderosa de Apolo (quem o teria enviado? Quem o teria capacitado para exercer aquela tarefa crucial?) nos livrou das garras vorazes das potestades do abismo, dos principados e dominadores deste mundo tenebroso. Não fosse Apolo, estaríamos condenados; não fosse Apolo, o mundo teria sido definitivamente submetido ao domínio das trevas.

Eu estava completamente exausto e perplexo; como minha mente: humana, limitada, analítica e carnal, poderia compreender todas as implicações sobrenaturais daquela noite turbulenta? Como os meus olhos céticos aceitariam crer em todo aquele horror que eles presenciaram naquela noite? Era impossível a um homem do nosso tempo aceitar que todos aqueles eventos diabólicos tivessem ocorrido; e, contudo eles, de fato, ocorreram!   

Assim que toda aquela cruenta luta chegou ao fim, Apolo simplesmente se deitou novamente no alpendre, desfrutando os tépidos raios de sol que incidiam sobre o piso de madeira, como se nada tivesse acontecido; como se não tivesse acabado de salvar a raça humana da danação eterna. Sozinho. Entretanto, seus olhos demonstravam um cansaço antigo, uma estranha tristeza, como se lamentasse o que o futuro reservava para o mundo dos homens. Eu olhava fixamente pela janela, mesmerizado pelo tétrico espetáculo; a voz serena e acolhedora (sim; pela primeira vez, ele fora gentil) de meu anfitrião me chamou de volta à normalidade:

– E então, doutor, o que o senhor achou da atuação do nosso estimado Apolo? Nada mal para um velho cão gordo e sarnento; salvar o mundo assim, sozinho, mais uma vez? Hum?

Fiquei petrificado; como assim, mais uma vez, exclamei; esse medonho ataque já aconteceu antes?

– Certamente. Nos meus quatrocentos e vinte anos, essa foi a terceira investida que eu presenciei. Porém, além de ocorrerem em intervalos menores de tempo, os ataques estão se intensificando a cada vez. Esse foi o pior de todos que eu já vi.

A perplexidade me dominou por completo. Que espécie de loucura era aquela? Sem demonstrar qualquer emoção, Elijah (finalmente soube que este era o nome do meu anfitrião) explicou-me tudo: desde tempos imemoriais, o primeiro homem dos de sua estirpe recebeu a surpreendente visita de um Enviado, que lhe confiou o filhote de um Guardião, dando-lhe a incumbência de velar pelos nossos protetores, até mesmo ao custo de sua própria vida; desde então, cuidar para que sua linhagem se perpetuasse era o único propósito de suas existências. Durante séculos, eles foram bem sucedidos; os Guardiães se reproduziam, cresciam e cumpriam sua árdua missão. Porém, Apolo fora o único de sua ninhada que sobrevivera; era, portanto o último de sua raça imprescindível; e, aos cento e oitenta e três anos, a vida de Apolo não deveria durar muito mais; com a sua extinção, não haveria mais ninguém para rechaçar a próxima investida das hostes infernais.

– Mas, e vocês, não podem fazer nada, indaguei, desesperado com a hipóteses de que não houvesse ninguém mais para resistir ao Mal quando ele nos atacasse novamente; essa espingarda aí não tem poderes especiais? Ele sorriu de minha ingenuidade:

– Infelizmente, doutor, a velha Betsy aqui não passa de uma espingarda comum; ela serve apenas para matar uns coelhos de vez em quando. E olhe lá…

– Mas porque você a carregava enquanto tudo aquilo estava acontecendo?

– Bem, sempre pode acontecer que o nosso Apolo ali falhe na sua tarefa. E, nesse caso, é melhor estar preparado.

– Preparado…?

Seu olhar foi bastante significativo:

– Acho que, depois dessa noite, o senhor já acredita em alguma coisa. Pois bem: o senhor não ia querer acabar nas garras do diabo em pessoa, não é mesmo, doutor?

Anuí meneando a cabeça. Não, certamente, eu não iria querer acabar nas mãos do diabo, nem iria querer viver em um mundo onde ele desse todas as cartas; qualquer coisa seria melhor do que isso; até mesmo levar uma bala na cabeça. Olhei para o sol que já despontava alto no horizonte; seus raios generosos aqueciam minha face; depois de todo o horror daquela noite, aquela sensação de frescor, de normalidade; a sensação de que tudo continuava em ordem no nosso velho mundo, era magnífica; contudo, ela durou apenas um instante; a consciência de que estávamos sob a ameaça perpétua de uma iminente invasão diabólica me dominava; eu sabia que minha vida jamais voltaria a ser a mesma. Como poderia? Para onde alguém poderia fugir? Onde poderia o pobre e arrogante e patético e autossuficiente e fraco ser humano se esconder da presença e da atuação do Mal, depois que este tiver finalmente dominado nosso mundo; depois que Apolo não mais estiver entre nós para nos defender? Aflito, perguntei a Elijah:

– O que será de nós, então, quando Apolo faltar?

Ele olhou com carinho para o velho cão.

– Quando ele faltar, eu e Betsy ainda estaremos aqui.

– E isso será… suficiente? Conseguirá vencer?

Ele retirou do bolso um toco de charuto e o acendeu. Depois de uma longa baforada, respondeu com um sorriso indiferente, mastigando o charuto e as palavras:

– Não; mas isso não importa.

Durante um prolongado momento, permanecemos ambos em silêncio; então ele prosseguiu:

– O fim de toda carne é a extinção, o retorno ao pó; o que conta é a forma como vivemos e morremos. E tudo que eu vou querer naquele dia é uma chance de acertar aquela fuça fedorenta. Será uma boa morte, o doutor não acha?

– Mas, e quanto a nós? A raça humana? Quem nos defenderá?

– Bem, doutor, me parece que agora o senhor já não é mais tão incrédulo; o senhor já acredita –acho que o senhor já sabe– que o diabo existe, não é mesmo? Pois então, torça para Deus também existir…

– A propósito, não adianta o senhor procurar a sua esposa. A humanidade nunca sai impune destas batalhas contra o Mal; alguém precisa pagar o preço e aplacar o ódio milenar do nosso adversário.

De fato, por mais que eu tenha procurado –e eu realmente a procurei; e eu realmente ainda a procuro!-, jamais voltei a encontrar a minha adorada Sue.”

CONTINUA…