FRAGMENTOS

MACHADO

“Unamos agora os pés e demos um salto por cima da escola, a enfadonha escola, onde aprendi a ler, escrever, contar, dar cacholetas, apanhá-las, e ir fazer diabruras, ora nos morros, ora nas praias, onde quer que fosse propício a ociosos.

Tinha amarguras esse tempo; tinha os ralhos, os castigos, as lições árduas e longas, e pouco mais, mui pouco e mui leve. Só era pesada a palmatória, e ainda assim… Ó palmatória, terror dos meus dias pueris, tu que foste o compelle intrare com que um velho mestre, ossudo e calvo, me incutiu no cérebro o alfabeto, a prosódia, a sintaxe, e o mais que ele sabia, benta palmatória, tão praguejada dos modernos, quem me dera ter ficado sob o teu jugo, com a minha alma imberbe, com as minhas ignorâncias, e o meu espadim, aquele espadim de 1814, tão superior à espada de Napoleão! Que querias tu, afinal, meu velho mestre de primeiras letras? Lição de cor e compostura na aula; nada mais, nada menos do que quer a vida, que é das últimas letras; com a diferença que tu, se me metias medo, nunca me meteste zanga. Vejo-te ainda agora entrar na sala, com as tuas chinelas de couro branco, capote, lenço na mão, calva à mostra, barba rapada; vejo-te sentar, bufar, grunhir, absorver uma pitada inicial, e chamar-nos depois à lição. E fizeste isto durante vinte e três anos, calado, obscuro, pontual, metido numa casinha da rua do Piolho, sem enfadar o mundo com a tua mediocridade, até que um dia deste o grande mergulho nas trevas, e ninguém te chorou, salvo um preto velho -ninguém, nem eu, que te devo os rudimentos da escrita.”

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Detento é o primeiro de SP a obter ensino superior dentro da cadeia

Sim, há esperança.

Leia a matéria de Eduardo Schiavoni, publicada no UOL:

  • Divulgação/ Claretiano

Sob aplausos de aproximadamente cem pessoas, Venilton Leonardo Vinci, 55, tornou-se, na quinta-feira (3), o primeiro detento do Estado de São Paulo a conseguir formação de nível superior exclusivamente em regime fechado. Formado em pedagogia, Vinci terminou o ensino médio atrás das grades e, graças a uma parceria com uma universidade que oferece a modalidade de ensino à distância, conseguiu o diploma. O próximo passo, segundo ele, é iniciar a pós-graduação.

A cerimônia de colação de grau ocorreu na Penitenciária 1 de Serra Azul, presídio de segurança máxima no qual Vince é interno. “Só me resta agradecer. Primeiramente, a Deus. Depois, à direção desta unidade, que acreditou na educação e, principalmente, ao ser humano. Quero ser o espelho de uma nova realidade, pois hoje me torno um pedagogo”, disse ele, logo após receber o diploma e ser ovacionado por parentes, colegas de presídio e professores.

Segundo Vinci, o próximo passo é a pós-graduação. Ele já ganhou uma bolsa integral da instituição de ensino onde se graduou para continuar os estudos. Quero, no futuro, como protagonista da minha história, concluir uma pós-graduação, na área da educação. Também penso em dar palestras, pois acredito na superação e no exemplo acima de tudo”,disse.

Diretor da unidade prisional de Serra Azul, Reginaldo Araújo, acompanhou a cerimônia e não conteve as lágrimas. Ele conta que a unidade que comanda tem um projeto pioneiro no Estado, mas que Vinci foi o primeiro a conseguir a graduação. “Começamos com 13 alunos, mas alguns abandonaram o curso, ou deixaram a prisão. Tomara que ele motive os demais e sirva como exemplo”, disse.

História

Vinci conta que iniciou sua trajetória no crime antes mesmo da maioridade. Desde então, já tem passagens na polícia por roubo, furto, receptação, tráfico de drogas e homicídio. “Em 14 de agosto de 1979, pela primeira vez, perdi minha liberdade. Achei que era o início do fim. Sem sonhos, achei que tinha chegado ao fim”, contou ele.

A redenção, entretanto, começou em 2007, depois de sequentes entradas e saídas do sistema prisional, quando chegou a Serra Azul com uma pena de 30 anos a cumprir. “Tive a oportunidade de voltar a estudar e concluir o ensino médio e, em 2009, fui agraciado com a chance de ser monitor educacional contratado pela Funap e passei a alfabetizar outros presos”, disse ele, que chegou a aprender braile para ensinar um detento cego a ler e escrever.

Isso, conta Vinci, além de reduzir a pena – a cada 12 horas de estudo, um dia de pena pode ser deduzido – também fez com que ele descobrisse o dom da pedagogia. “Aqui descobri meu dom de ser professor, ensinei outros presos a ler e escrever “, disse.

Já o início da graduação ocorreu em 2010, através de um projeto que concedia bolsas de estudos do curso de pedagogia no Centro Universitário Claretiano, de Batatais, para detentos. Segundo o coordenador geral de ensino a distância da instituição, Evando Ribeiro, a bolsa cobria 50% do valor do curso, algo na casa dos R$ 260 em valores atuais.

Ele conta que, para possibilitar o estudo, um sistema foi desenvolvido para que Vinci pudesse acessar, pela internet e de forma restrita, os conteúdos. “Elaboramos um sistema que possibilitou que o Vanilton obtivesse os conhecimentos que necessitava e, uma vez por mês, um tutor ia até ele, na cadeia, para aplicar provas e complementar a formação”, conta. “Apesar de todos os esforços para realização do projeto, os méritos são do formando. Ele só conseguiu a oportunidade de ingressar em um curso superior pelo seu histórico dentro da penitenciária”, disse.

Prêmio

O UOL já havia feito uma reportagem sobre a história de detentos de Serra Azul que, por meio da educação a distância, começaram a ter suas realidades transformadas.

A matéria “Depois que comecei a estudar, não vejo mais grades, diz preso de SP que faz pedagogia”, da jornalista Camila Rodrigues, foi vencedora da categoria internet do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos.

O HORROR…

We are the hollow men...

We are the hollow men…

Por eu mesmo:

Joseph Conrad escreveu No coração das trevas (Heart of Darkness, 1902) a partir de sua experiência no Congo. Imbuído do nobre propósito de “abrir para a civilização a única parte do nosso globo onde o cristianismo ainda não penetrou e eliminar a escuridão que cobre a população inteira”, Leopoldo II, rei da Bélgica, iniciou o processo de colonização daquele país africano. A prática viria demonstrar que na verdade o maganão queria mesmo era se locupletar, encher as burras com o vil metal, exaurindo literalmente até o tutano as riquezas da colônia através da extração de ouro, borracha, diamantes e marfim. A obra retrata as atrocidades cometidas contra os “bárbaros” locais pelos “civilizados” belgas, e foi adaptada para o cinema em 1979 no magistral Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola. No filme, a ação foi transportada para a guerra do Vietnã; o personagem central continua sendo Kurtz; porém, ao invés de funcionário da Companhia, coletor de marfim, foi alçado ao posto de coronel, desertor do exército americano, provavelmente enlouquecido. Enquanto comanda com mão de ferro uma milícia e trucida seus oponentes, espetando suas cabeças em estacas espalhadas pela mata, Kurtz recita delicados versos de Hollow Men, de T. S. Elliot. Provavelmente, Conrad pretendia denunciar a maldade que habita a alma humana, apenas contida mediante freios impostos pela civilização; distante dos olhares repressores, da lei e demais freios, “no coração das trevas”, o verniz de humanidade escorre e a besta emerge em toda a sua crueldade, assombrando, assolando e oprimindo tudo o que cruza seu caminho, restando apenas nas palavras do próprio Kurtz, “o horror…”

O horror…

Quarta-feira, dois de setembro.

O corpinho miúdo de Aylan Kurdin, 3 anos de idade, é lançado pela maré numa praia da Turquia. Ele, seu irmão, de cinco anos, e sua mãe morreram afogados, juntamente com outras nove pessoas, quando a embarcação em que tentavam chegar à Grécia naufragou. Eles fugiam da violenta guerra civil que explodiu na Síria em 2011, já matou mais de 215.000 pessoas e expulsou mais de dois milhões de sírios de seu país. No bojo do conflito pela tomada do poder, ainda nas mãos sujas de sangue do ditador Bashar al-Assad, emerge  o grupo jihadista Estado Islâmico, que pretende converter, não apenas a Síria, mas todo o mundo num imenso califado.

O horror…

Na obra de Conrad, o horror era representado pela escravização e suplício dos negros; hoje, os extremistas do EI e do Talibã explodem ruínas arqueológicas e impõem aos olhos atônitos do mundo um desfile macabro de fuzilamentos, decapitações, apedrejamentos, sepultamento de pessoas vivas, escravização sexual de mulheres e uma vasta gama de atrocidades impensáveis.

A violência da colonização europeia na África decorreu da ganância; a violência do Estado Islâmico e congêneres procede da fé. Estes fundamentalistas acreditam ser sua missão divina converter ou exterminar os infiéis.

O horror…

A Europa foi protagonista do abjeto processo de colonização da África; aqueles eram outros tempos, aquele era outro mundo. Agora, diante do massacre na Síria, a Velha Senhora fecha suas fronteiras aos refugiados e lhes nega a oportunidade de escapar aos seus algozes. O Ocidente, Europa em particular, testemunham o surgimento de uma nova onda colonizadora. Ainda mais brutal, grotesca e bárbara. Agora, os colonizados somos nós.

Aylan Kurdin, em sua inocência infantil, seguramente não compreendeu o processo de violência que tirou sua vida. Apenas testemunhou a impotência, o medo e o horror nos olhos de seus pais, trágicos instantes antes de submergir.

Aylan, ceifado em sua inocência, descansa em paz.

Mas que sua morte não tenha sido em vão. Que o sacrifício de Aylan sirva para despertar a Humanidade de seu torpor. Antes que seja tarde.

O horror… o horror…

CUIDADO COMIGO: SOU UM FUNDAMENTALISTA RELIGIOSO! (OU: SOBRE A INTOLERÂNCIA).

Por Paulo Marreco (ou seja, eu mesmo):

Isso mesmo. Não se iluda com minha aparência simpática, com meus ares de civilidade, com minhas postagens engraçadinhas, com minhas pobres referências literárias, com minhas críticas políticas. Por trás disso tudo há um fundamentalista religioso; todas as minhas ações, mesmo as mais inofensivas na aparência, visam um único objetivo: a conversão dos pecadores empedernidos, especialmente o Nelson Porto, o Zoca Moraese o Luiz Luiz Tadeu Cebola.

Porém, antes de mais nada, às definições, segundo o meu dicionário: um fundamentalista religioso é alguém que vive, ou procura viver (e peço desculpas antecipadas pela cacofonia de efes que vem pela frente), de acordo com os fundamentos da sua fé; alguém cuja trajetória é fundamentada nos preceitos da sua crença. Tornei-me cristão lá pelos dezoito anos de idade, quando o peso do mundo foi tirado das minhas costas; desde então, mal ou bem, procuro tomar a cada dia a minha cruz e caminhar olhando para o alto, na direção do meu Senhor. Nem sempre é fácil –mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa-, nem sempre sou bem sucedido; mas jamais, ao longo dos anos, me arrependi nem por um instante, nem cogitei desistir.

Mas quais seriam, pois, os fundamentos da fé cristã? Fácil; qualquer garoto que frequenta a escola dominical dirá que o Cristianismo pode ser sintetizado no versículo 16 do capítulo 3 do Evangelho de João, o qual ensina que o amor de Deus pelos homens é tão imenso que Ele enviou Seu Filho, Jesus Cristo, para dar a vida eterna aos que nele crerem. O próprio Jesus ensinou certa vez que a “lei” divina pode ser resumida a dois preceitos: amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo.

Não parece tão difícil; mas a experiência humana tem demonstrado que, na prática, nós conseguimos complicar qualquer coisa, mesmo as mais simples.

Ora, é sabido que o Cristianismo é monoteísta; acreditamos num único Deus –ainda que Ele seja composto por Três Pessoas, mas aí já é conversa para outro papo. E, sim, acreditamos no “catolicismo” da nossa fé, ou seja, na sua universalidade, ou seja, o Cristianismo é para todos os homens, ou seja, ele é para você. “Todos pecaram”, diz o Livro; “todos precisam da graça de Deus”.

Então, PM, você acha que os homossexuais são pecadores e precisam da graça de Deus?

Sim, acho.

Como são pecadores os heterossexuais, e carentes da graça de Deus.

Como você é pecador e necessita da graça de Deus.

Como eu sou pecador e preciso desesperadamente da graça de Deus.

Diariamente.

Sim, no que diz respeito ao Cristianismo, estou com o meu xará mais famoso: prouvera a Deus que todos se tornassem como ele, exceto pelas correntes…

Entretanto, depois de tantos anos, já consegui aprender uma coisa ou outra. Entre elas: ninguém é obrigado a acreditar em Cristo. Nem mesmo a respeitá-lo. Não cairá um raio dos céus para fulminar os incréus ou os escarnecedores. Quem quiser segui-lo não será convencido por sinais miraculosos, mas deverá exercer a maravilhosa faculdade que nos difere dos outros animais, mais do que a capacidade da fala ou os polegares opositores: o livre arbítrio.

Vai a Cristo quem quer. E também vaia Cristo quem quer. Se quiserem minha opinião sobre Ele: maravilhoso, magnífico, sensacional, supimpa. Recomendo fortemente a todos. Mais do que qualquer coisa.

Mas, repito: vai a ele quem quer.

Mas, afinal de contas, aonde você quer chegar?, pergunta meu interlocutor imaginário.

Simples: tem se falado muito de uma tal “intolerância religiosa” protagonizada pelos cristãos, especialmente contra os homossexuais. Silas Malafaia e Marco Feliciano, entre outros menos cotados, são apontados como os principais cabeças de algo que poderíamos chamar de “perseguição anti-gays”; quase uma nova Inquisição, onde quem arde na fogueira furiosa (eu avisei sobre a cacofonia) são aqueles que se relacionam com pessoas do mesmo sexo. Recentemente, o deputado Jean Wyllyz, notório principalmente por sua participação no Big Brother Brasil da –suprema ironia!- Rede Globo, o “muso” dos tolerantes do movimento GLTB e dos fascistinhas do PSOL, deu uma entrevista a uma rede católica. Chamou de intolerância religiosa o chute que o pastor desferiu na imagem da santa (concordo), bem como as invasões de terreiros de umbanda e a depredação dos seus objetos de culto (está certo); porém, classificou de “falsa intolerância” a performance do transsexual que se vestiu de Jesus na parada gay, assim como a utilização de objetos da “iconografia cristã, que se transformou em patrimônio da humanidade”, em manifestações artísticas do Porta dos Fundos e outros. Certamente, deve incluir nesta categoria os auto-estupros protagonizados por manifestantes na marcha das vadias. Wyllyz tomou incidentes isolados como se fossem a conduta dominante dos cristãos. Convenientemente, não mencionou a perseguição a Silas Malafaia e Marco Feliciano, essa sim, sistemática e generalizada. Ora, já que os cristãos são tão intolerantes, podem ser ridicularizados e ofendidos nas paradas gays da vida; como os cristãos são esses malvadões que perseguem os homossexuais, não há problema em manifestantes da marcha das vadias se auto-estuprarem utilizando crucifixos; isso é só manifestação artística; eles não estavam demonstrando seu ódio aos cristãos; estavam apenas se utilizando de um patrimônio da Humanidade. E, já que Malafaia e Feliciano e, por conseqüência, seus “seguidores” são assim, intolerantes, podem ser livremente hostilizados. Jornalistas podem mandá-los “chupar uma rola” ao vivo e serão efusivamente aplaudidos. Militantes podem assediá-los em seus locais de culto, aos berros, tumultuando as celebrações com batucadas de candomblé, turbando o direito alheio ao culto religioso, porque o candomblé é legal e tolerante.

Uma pessoa daqui do Facebook, ator global, postou este vídeo do inefável JW; polidamente, fiz as observações acima, sobre a falácia do seu argumento. O cara me mandou entregar meu cartão de crédito –com senha- para Feliciano. Depois desfez a amizade.

Esse é o tipo de tolerância reservada aos cristãos. E isso não é de hoje.
Tenho amigos cristãos cujos avós foram missionários pioneiros em vários lugares do país. Muitas vezes eram recebidos, nos interiores, por padres de espingarda em punho, defendendo suas paróquias. Lembro-me de, na minha infância, acompanhar meus primos de Belo Horizonte, alguns anos mais velhos, à igreja. Frequentemente eram ridicularizados e hostilizados nas ruas. Faça um esforço e procure se lembrar quando um personagem evangélico não foi retratado nas novelas como um fanático, um ignorante, um oportunista ou um hipócrita.

Como eu relatei, militâncias organizadas se acham no direito de perseguir líderes religiosos, tumultuando os cultos dos quais participam. Momentos que normalmente se caracterizam como oportunidade de reflexão, de manifestação da religiosidade, de celebração, estão sendo transformados em campos de ofensa, de confrontação. Presenciei isso ontem.

Mas os intolerantes são sempre os outros.

Especialmente se os outros forem cristãos.

Mas isso não chega a ser novidade. Há tempos os cristãos servem de alimento às feras para deleite do povo.

Boa hora para lembrar as últimas palavras Daquele que escolheu a cruz: “perdoai-os, porque não sabem o que fazem”…

A rude cruz que nos redime.

A rude cruz que nos redime.