Diz aí, meu amigo esquerdista…

por Paulo Marreco:

LULLADRÃO

“Aqui pra Constituição e pras leis, ó!”

 

OK, você votou em Dilma. E em Lula antes dela.

Acreditou (ainda acredita?) nos benefícios sociais do governo petista.

Acredita, de verdade, que o governo do PT é melhor que o do PSDB –esse, um bando de abutres conservadores elitistas de direita.

Acredita ser absurdo que um bando de corruptos julgue o impeachment da Dilma, eleita pelo povo (mas esquece –ou despreza- que o bando de corruptos também foi eleito pelo mesmo povo).

Acha que o impeachment é golpe dessa direita reacionária que não aceita os pobres dentro dos seus shopping centers, e muito menos dividir o assento do avião com eles.

Em suma, acha que devemos aceitar Dilma até o fim do seu mandato, pois assim estaremos preservando nossa jovem e ainda trôpega democracia.

Ok, entendo. Discordo radicalmente, mas entendo.

Agora, a respeito da nossa democracia –ou, mais especificamente, da democracia petista, me diga lá uma coisa (ou duas, ou até três):

Coisa número um: Durante a campanha presidencial de 2010, o candidato José Serra fazia uma caminhada por um bairro do Rio de Janeiro. Foi cercado por militantes petistas e impedido de continuar, pois se tratava de um “reduto petista” e, portanto, ele não poderia continuar sua campanha ali. Lula, com a ligeireza que lhe é peculiar, comparou o incidente à simulação protagonizada pelo goleiro chileno Rojas, afirmando que Serra havia fingido ser atingido, ou que fora alvejado por uma simples bola de papel. O fato é que a tal bolinha -na verdade, um rolo de fita- acabou desviando o foco do verdadeiro e grave problema: UM CANDIDATO À PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA FOI IMPEDIDO PELOS PETISTAS, POR MEIO DA FORÇA, DE EXERCER UM DIREITO CONSTITUCIONAL E, PORTANTO, DEMOCRÁTICO: o de ir e vir e, por extensão, de realizar campanha onde bem entender.

Coisa número dois: em 2013, a blogueira cubana Yoani Sanchez, opositora do regime castrista, visitou o Brasil. Esquerdistas favoráveis (muitos ligados) ao PT e à ditadura cubana hostilizaram a mulher, impedindo a realização de suas palestras e forçando o cancelamento da exibição de documentários. Ou seja: MAIS UMA VEZ, OS PARTIDÁRIOS DO PT E SEUS ALIADOS IMPEDIRAM, À FORÇA, O EXERCÍCIO DE UM DOS MAIS CAROS PILARES DA DEMOCRACIA: O DIREITO À LIBERDADE DE EXPRESSÃO.

Coisa número três: num evento repleto de simbolismo involuntário, em 2015, parlamentares petistas, na tentativa de evitar a derrota certa na eleição da comissão que conduziria o processo de impeachment da Presidente (ao menos me conceda a prerrogativa de ser fiel à nossa língua) Dilma, destruíram as urnas. Isso mesmo: parlamentares petistas destruíram urnas! Ou seja: PARLAMENTARES PETISTAS, TENTANDO OBSTRUIR UM DOS PROCESSOS BASILARES DA DEMOCRACIA, QUAL SEJA, UMA ELEIÇÃO, QUE DEFINE A VONTADE DA MAIORIA, DESTRUÍRAM O OBJETO QUE SINTETIZA O PRÓPRIO PROCESSO DEMOCRÁTICO.

Coisa número quatro: é notório o terrorismo eleitoral a que o partido recorre em época de eleições: divulga entre os mais pobres as mentiras de que, se o partido for derrotado, o “outro” vai acabar com o Bolsa Família, vai privatizar a Petrobras (o que seria uma excelente ideia!). Apesar de ser uma tática de guerrilha conhecida por todo mundo, foi chocante assistir o vídeo gravado durante as convocações para as manifestações que promoveria a favor de Dilma, no qual carros de som do PT propalavam estas e outras mentiras em alto e bom som. Ou seja: o PT perdeu até mesmo o pudor de fingir qualquer compromisso com a verdade, com a ética.

Coisa número cinco: em 2016, militantes favoráveis ao governo tentaram impedir que representantes da OAB protocolassem, no Congresso, novo pedido de impeachment da Presidente da República. Aquela entidade aponta as “pedaladas fiscais, as renúncias fiscais ilegais em favor da Fifa e a intenção de beneficiar um aliado, alvo de investigação judicial, atribuindo-lhe as prerrogativas de ministro de Estado” como razões suficientes para o impedimento. Ou seja: MAIS UMA VEZ, PARTIDÁRIOS FDESTE GOVERNO TENTARAM, PELA FORÇA, OBSTRUIR O EXERCÍCIO LEGÍTIMO DE UM DIREITO DEMOCRÁTICO, O DE PETICIONAR PERANTE OS ÓRGÃOS PÚBLICOS.

Nem vamos falar da utilização de dossiês fajutos, das reiteradas quebras de sigilos bancários e fiscais de adversários políticos, da incompetência catastrófica de Dilma, do desastre econômico, da recessão, da inflação, do desemprego.

Fiquemos apenas nestes gravíssimos exemplos de violações ao exercício pleno da democracia protagonizado pela militância petista.

Então, me diga: mesmo que você acredite sinceramente em tudo aquilo que eu mencionei lá em cima; mesmo que veja benefícios advindos da gestão petista nestes 13 anos…

Esse modus operandi violento, essa truculência quando o resultado do jogo não lhes é favorável, essa intolerância à vontade do outro…

Estas coisas não te deixam nem um pouco preocupado? Não te deixam assim, com uma pulga atrás da orelha? Não te deixam desconfiado de que o PT talvez não seja, assim, tão democrático? Que seja democrático apenas quando o resultado da democracia lhe é favorável?

Ou concorda com tudo isso e aceita estas práticas? Acha isso tudo normal? Acha tudo “tranquilo, favorável”? Democrático? Acha que “os fins justificam os meios”?

Humm… talvez você esteja um pouco confuso, pois tudo isso foi protagonizado pelo Lula, pelo PT, pela esquerda. Ou seja, por aqueles que sempre lutaram pelo bem do povo, pela “justiça social”, pela ética, contra a corrupção…

Já sei: para facilitar o raciocínio, faça o seguinte:

Finja que que fez tudo isso foi o FHC e o seu pessoal neoliberal.

Agora me diga: isso é coerente com o seu conceito de democracia?

 

 

 

 

FRAGMENTOS

PIN UP

‘O americano não ama realmente nada a não ser seu automóvel: nem a mulher e o filho nem seu país nem mesmo sua conta no banco tanto (na realidade ele não ama sua conta bancária tanto quanto costumam os estrangeiros pensar porque é capaz de gastar quase tudo ou tudo para comprar qualquer coisa desde que ela seja suficientemente fútil) quanto seu automóvel. Porque o automóvel se tornou nosso símbolo sexual nacional. Não sabemos realmente curtir coisa nenhuma a não ser que por um desvio se possa ir até lá. Entretanto toda a nossa origem e criação e educação proíbem o escuso e o clandestino. Assim temos de nos divorciar de nossa esposa hoje a fim de remover de nossa amante essa pecha de amante a fim de nos divorciarmos da esposa amanhã a fim de remover de nossa amante e assim por diante. Em decorrência disso a mulher americana se tornou fria e subsexuada; ela projetou sua libido no automóvel não só porque os brilhos e penduricalhos e mobilidade dela são cúmplices da sua vaidade e incapacidade (por causa das roupas que lhe são impostas pela associação nacional dos varejistas) de andar mas também porque ele não vai querer apertá-la, estragar seu cabelo, deixá-la toda suada e descomposta. Assim a fim de capturar e dominar ainda um mínimo qualquer que seja dela o homem americano tem de fazer com que esse carro seja seu. Que ele viva por isso num buraco infecto alugado desde contudo que não só tenha o seu mas o troque todo ano por um novo em prístina virgindade, não o emprestando a ninguém, não deixando que nenhuma outra mão jamais conheça a intimidade última secreta para sempre casta para sempre lasciva de seus pedais e alavancas, não tendo é bem verdade aonde ir com ele e se o tivesse não iria onde arranhões ou manchas pudessem desfigurá-lo, dedicando todas as manhãs de domingo a lavar e encerar e polir o carro porque ele está acariciando ao fazê-lo o corpo da mulher que há muito lhe negou sua cama.’

‘Isso não é verdade’, ele disse.

‘Eu já passo dos cinquenta anos’, seu tio disse. ‘E foi embaixo de saias que passei os quinze do meio. Minha experiência é que poucas delas estavam interessadas no amor ou mesmo em sexo. Só queriam casar.’

‘Continuo não acreditando’, ele disse.

‘Está certo’, seu tio disse. ‘Pois continue. E mesmo quando você passar dos cinquenta recuse-se ainda a acreditar.’

William Faulkner, O Intruso

 

DESTINOS

KEROUAC

O atormentado Jack

Por Paulo Marreco:

Em “Inferno, 1, 32”, Borges escreve sobre uma noite em que Deus teria visitado o sonho de um leopardo encarcerado e explicou-lhe a razão pela qual a fera estava destinada a passar o resto de seus dias na prisão: ele fora privado da sua liberdade para se tornar uma palavra num poema “que tem seu preciso lugar na trama do universo”. Com esta peça magistral, o gênio argentino queria demonstrar que cada indivíduo tem um papel determinado a representar no intrincado mecanismo cósmico. A fera, segundo Borges, sofria o cativeiro unicamente para inspirar o poeta.

O médico Clarence suicidou-se com um tiro de pistola em seis de dezembro de 1928 aos 28 anos, deixando viúva, Grace, e três filhos: Marcelline, Ernest e Leicester. Sua morte assombraria o filho até o fim; anos depois da trágica extinção de Clarence, Ernest recebe da mãe um macabro presente: a pistola com a qual o pai havia tirado a própria vida, acompanhada de um bilhete enigmático, interpretado pelo pobre Ernest como uma forma de “agouro ou profecia”. Teria o doutor Clarence se matado apenas para que o impacto desse ato desesperado ficasse gravado indelevelmente na alma tortuosa de seu filho e se refletisse em portentos da Literatura como Por quem os sinos dobram e Ter ou não ter; livros que definitivamente “tem seu preciso lugar na trama do universo”?

Trinta e três anos depois da morte de Clarence, seu atormentado filho, Ernest Hemingway, matou-se com um tiro de espingarda; provavelmente, sem a epifania inesperada que tiveram o leopardo de Borges e o Dante, autor da Comédia; certamente, sem, como eles, saber “por fim quem era e o que era”, e sem “abençoar suas amarguras”.

Gabrielle era casada com Léo-Alcide e trouxe à luz do mundo Gerard e Jean-Louis. Gerard, coitadinho, morreu aos 9 anos de idade, em 1926, depois de padecer de febre reumática por toda a sua curta vida. Como se pode imaginar, a vida e morte do adorado irmão impactaram o pequeno Jean-Louis de maneira inimaginável.

Em 1946, ou seja, vinte anos depois de enterrar seu primogênito, Gabrielle devolveria o marido ao pó e à cinza; e, finalmente, em 1969, seria a vez de assistir a partida de Jean-Louis, aos 47 anos, vítima de cirrose hepática, decorrente do consumo ininterrupto e massivo de álcool. Falido e debilitado, Jean-Louis tinha voltado a morar com a mãe. Gabrielle foi a trágica testemunha da extinção de toda a sua família; indefesa, foi obrigada a suportar o desaparecimento de sua semente da face da Terra.

Quando morreu, Jean-Louis era um ícone de sua geração. Havia publicado vários livros; entre eles, sua obra-prima, On the road, livro sagrado da contracultura. Jean-Louis se tornou Jack.

Não sabemos se Deus visitou a pobre Gabrielle em seu leito de morte em 1975; jamais saberemos se ela compreendeu e aceitou que suas tragédias, assim como o encarceramento da fera, eram necessárias para que seu filho urdisse um importante capítulo na História da Literatura; “a máquina do mundo é complexa demais para a simplicidade dos homens”, mas é possível ter um vislumbre de como foi duro o encargo, para Gabrielle, de ser Mamãe Kerouac.