PAI EM DOBRO

Minha singela homenagem aos caras que, de repente, precisam se virar nos trinta. Ou em dois, para ser mais exato. Como se ser pai já não fosse difícil o suficiente…

 

pai

 

Começando com o básico: são precisos dois indivíduos, biologicamente maduros, macho e fêmea, para que uma nova vida seja gerada. Desde o tempo em que morar em condomínio fechado era colocar uma pedra na entrada da caverna até recentemente, o homem, na condição de patriarca da família, exercia o papel de provedor e protetor. À mãe cabia cuidar da casa (ou da caverna) e da prole.

Naqueles tempos o pai era aquele sujeito grande, forte, másculo, autoritário, e às vezes feroz; e a mãe, gentil, carinhosa, cuidadosa. E, claro, às vezes, feroz.

Porém a vida nem sempre segue o roteiro, e eventualmente o homem, seja por uma trágica perda ou por uma indesejada separação, se vê às voltas com uma jornada dupla. Vê-se na contingência de exercer o duplo papel de pai e mãe. Situação geralmente súbita, inesperada, na qual o pai precisa descobrir dentro de si a capacidade de ser forte apesar da tragédia, de ser firme apesar do afeto, de ser terno a despeito da dor. Além do alimento, agora terá de prover o consolo. Além do abrigo, o abraço. Além de pai, tem de ser amigo. Para isso, deverá esquecer de si mesmo, passar sobre a própria dor. Terá de encontrar, nas profundezas do seu despreparado coração masculino, alguma coisa da doçura feminina.

Para os que acreditam, o amor de mãe é o único sentimento comparável ao amor divino.

O que dizer então do amor do pai que também é mãe?

O pai que também é mãe tem trabalho em dobro.

Tem preocupação em dobro.

Tem angústias e temores em dobro.

Não recebe amor em dobro, pois isso não é possível.

Porém se desdobra para amar em dobro.

O pai que também é mãe é, portanto, pai em dobro.

 

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FRAGMENTOS

Quando um homem morre, não importa qual tenha sido seu talento, influência e gênio, sua vida foi um fracasso se morreu sem amor, sua morte é um frio horror. Parece-me que quando se pode optar entre dois cursos de pensamento ou ação, devemos lembrar da morte e tentar viver de maneira a que nossa morte não proporcione prazer ao mundo.

John Steinbeck, A leste do Éden

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