Pátria amada, Brazil!

brazil

Por Paulo Marreco:

 

Caríssimos,

 

Tenho andando remoendo uma ideia. de tanto remoer, saiu isso aí embaixo: o prólogo do (assim espero) meu próximo livro.

Se puderem me dar a honra de lerem, opinarem e divulgarem, compartilhando em suas redes sociais se gostarem, será um êxtase.

SINOPSE:

Um brilhante professor e filósofo, socialista ferrenho. Um jornalista em crise. Dois grandes amigos em lados opostos de um conflito de ideias transposto para as ruas de um país em transe.

Um misterioso argentino.

Quem sabe onde isso vai parar?

 

 

 

PRÓLOGO

 

AO ACORDAR NAQUELA MANHÃ, já tinha alguma noção do péssimo dia que teria pela frente. Suspirou profundamente como quem busca forças para lutar ou, que remédio, resiliência para suportar o que viesse. Antes de abrir os olhos já sabia: o infalível cachorro estava ao seu lado, sobre a cama, ganindo baixinho, timidamente, recatado, respeitoso, solene, suplicante. A despeito da sua origem e postura humilde, o cão, um vira-latas preto de orelhas grandes e caídas resgatado das ruas, a única herança deixada pela sua ex-mulher –se bem que não era bem uma herança mas uma troca; o animal ficara –sejamos justos; ficaram o animal e os livros- e em seu lugar a mulher levara o carro, metade do valor do apartamento que estava à venda e uma parcela mensal considerável do seu nem tão considerável salário; a despeito de sua origem e da postura humilhada subserviente diante do seu amo e senhor, o cão gania e estendia a pata sobre o seu peito, arranhando, suplicante, mas ele poderia tanto estar implorando um favor como –o que não era nada inverossímil- demandando um privilégio um direito adquirido inalienável inadiável. Quem poderia saber? Cães são animais misteriosos.

Levantou-se, despejou a devida porção de ração no devido pote, deixou o Negão pois o cachorro não poderia ter outro nome que não fosse Negão se refestelando naquele intragável monótono banquete de tripas e penas e bicos e ossos e arroz triturados cozidos moídos prensados hidrolisados e foi para o banheiro despejar no devido lugar o devido resultado dos seus noturnos processos interiores. A primeira coisa que faço todos os dias quando acordo é dar comida e levar esse cachorro a passear. A última coisa que faço todos os dias antes de dormir: dar comida e levar esse bicho a passear. Todo santo dia, de segunda a segunda. Chova ou faça sol: de manhã: acordar, dar comida, levar para passear; à noite: dar comida, levar para passear, dormir. Vossa Excelsa e Fuleira Majestade Vira-Lata, Dom Negão Primeiro.

Apanhou a coleira, o que sempre deixava Negão num estado de extrema excitação e nunca deixava de deixar o jornalista impressionado com aquela imutável saltitante singela simplória alegria. Como é fácil deixar um cachorro feliz e lá iam eles em direção à banca de jornais e revistas onde finalmente chegavam após incontáveis paradas para cheirar e mijar e duas paradas para cagar.

Bom dia patrão; o Diário? Bom dia, Alemão. O Alemão não está com a cara muito boa hoje está aí todo macambúzio. O que é que te dói? Seu Botafogo perdeu de novo? Até perdeu, mas nem é esse o problema, doutor. Qual é problema, então?

O Alemão hesitou olhando para todos os lados desconfiado ressabiado como alguém com medo de estar sendo vigiado e finalmente falou baixinho. São aqueles putos da Guarda, doutor. Que eles são uns putos eu sempre te avisei; mas o que é que tem os putos a Guarda? Aqueles vagabundos estão cobrando taxa de proteção do pessoal aqui do comércio do bairro, doutor. Eu já tinha ouvido dizer que andavam fazendo isso em outros lugares; mas nunca pensei que pudesse chegar até aqui, onde só tem gente grã-fina.

O doutor que só era doutor por conta de um hábito nacional herdado do tempo do Brazil Império na verdade apenas graduado em Jornalismo pensou em tirar um sarro do Alemão parece que agora que está sentindo na própria pele você está finalmente começando a enxergar a verdade não é mesmo seu pateta mas isso não era nada engraçado muito pelo contrário as coisas iam de mal a pior numa escalada preocupante é sério isso Alemão? Pior que é, doutor; o senhor é que estava certo. Vamos denunciar, Alemão. Faço uma matéria, cobramos providências das autoridades, não vamos deixar barato essa safadeza. Mexe com isso não, doutor; é capaz desses escrotos fazerem alguma maldade com a gente. O governo deu muita autoridade para esses safados, agora esse pessoal está pior do que a polícia.

O doutor pagou pelo Diário de Notícias e pela revista Visão com uma nota de cinquenta e deixou o troco para o Alemão, apesar de não estar exatamente em condições de se dar ao luxo de ser generoso.

Voltaram para casa, o Preto insistindo em parar em cada poste e em cada árvore e tentando se aproximar de todos os outros cães que, como ele, levavam quase à força seus donos ou as empregadas domésticas mas não se diz mais empregadas domésticas e sim secretárias do lar de seus donos na outra ponta da coleira; o doutor jornalista sem doutorado quase resignado exercia a mesma negociação de todos os dias permitindo que o cachorro parasse na maioria as vezes puxando em algumas evitando o contato com os demais cachorros; não confiava muito na índole pacífica do seu animal. Vinha pensando no que o Alemão lhe dissera; em como a situação do país se deteriorara e a sua própria não andava lá em condições muito melhores há apenas um ano atrás eu tinha uma vida. Tinha esposa, casa, carro, carreira e cachorro. Hoje eu só tenho a carreira e o cachorro. E a carreira anda bem a perigo...

Ao chegar em casa e abrir o jornal, descobriu que o dia seria ainda pior do que ele havia imaginado.

Muito pior.

 

Mais Fragmentos

Admira-se o senhor ao ver que o abstrato conduz, por caminhos mais diretos e mais inelutáveis do que esta, à situação em que se trata de “um de nós dois, tu ou eu”, a situação propriamente radical, a do duelo, da luta corporal? O duelo, meu amigo, não é uma “instituição” como qualquer outra. É um último recurso, é a volta ao estado primevo da natureza, apenas levemente suavizada por certo código cavalheiresco que não deixa de ser superficial. O característico dessa situação é o seu cunho totalmente primitivo, a luta corporal, e cabe a todo homem, por mais que se distancie da natureza, manter-se preparado para essa emergência. Ela pode ocorrer a qualquer instante. Quem não é capaz de arriscar a vida, o braço, o sangue na defesa de um ideal não é digno dele. Em que pese a nossa espiritualização, cumpre sermos homens.

Thomas Mann, a Montanha mágica

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Artista alemão cria site para criticar selfies no Memorial do Holocausto

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Que nós vivemos a geração do selfie, todo mundo já está careca (eu, pelo menos, já estou beeem careca) de saber.

A falta de noção e de limite na busca pela selfie perfeita já levou idio… quer dizer, incautos a despencarem de precipícios e a serem destroçados por animais selvagens. A selfie é, atualmente, o esporte mais letal do planeta.

Mas o pessoal está perdendo também qualquer senso de decoro. De respeito.

Uma situação em particular estava incomodando o artista plástico israelense Shahak Shapira, radicado na Alemanha; a quantidade de babac… quer dizer, de pessoas desavisadas que tiravam selfies engraçadinhos e fofinhos no Memorial do Holocausto em Berlim destinados à nada saudosa e em tudo deplorável memória do Holocausto. Como alguém pode sorrir, em meio ao testemunho do Mal Absoluto?

Shapira, então, criou um site, o Yolocaust, no qual selecionou algumas fotos tiradas no local e publicadas em redes sociais como Facebook, Instagram, Tinder and Grindr; quando o usuário passa o mouse sobre a foto, ela passa a mostrar a pessoa retratada com um fundo de uma imagem dos tempos dos campos de concentração nazistas. Assim, uma garota pode surgir fazendo uma pose sorridente sobre uma pilha de cadáveres de judeus massacrados por Hitler. Sinistro.

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O nome do projeto, “Yolocaust”, é um jogo de palavras com “Holocausto” e “YOLO” acrônimo da expressão em língua inglesa “You Only Live Once” (“Você Só Vive Uma Vez”, em tradução livre).
Shapira deseja explorar “a nossa cultura de comemoração ao combinar selfies do Memorial do Holocausto em Berlim com imagens dos campos de extermínio nazi”. Ele lembra que aproximadamente dez mil pessoas visitam o Memorial aos Judeus Mortos da Europa todos os dias. “Muitas delas tiram fotos idiotas, pulam, andam de skate ou de bicicleta nos 2711 blocos de cimento” do local.
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Se um dos pate… quer dizer, se uma das pessoas retratadas entrar no site e se sentir incomodada, pode solicitar a retirada de sua foto através do email undouche.me@yolocaust.de (“Douche” significa “idiota”;”Undoucheme” é um neologismo que pode se traduzido como “desidiotize-me”).
Se você está entre elas, corre lá.
Ainda dá tempo de apagar essa vergonha da sua vida.

 

5 lições que “A Revolução dos Bichos” nos ensinou

Publicada na Galileu:

 

Em 17 de agosto de 1945 a obra a A Revolução dos Bichos (“Animal Farm”) era publicada na Inglaterra. Na fábula distópica de George Orwell, autor do também clássico 1984, um grupo de animais revolucionários toma o poder dos donos humanos de uma fazenda e organiza um regime igualitário e justo no local. O equilíbrio é ameaçado, porém, por uma dupla de porcos totalitários. Não daremos mais spoilers, leiam!

O livro é uma sátira ácida das práticas do ditador Joseph Stálin e da própria história da União Soviética, feito por um socialista democrático crítico ao que o regime instituído pela Revolução Russa se tornara. E está, claro, repleto de lições sobre o que foi o mundo no meio século 20. Essas são algumas delas.

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1. Que a tradução de um título pode ser um spoiler

Em inglês, o título da fábula ácida de Orwell é mais simples: “Animal Farm”, que em tradução literal é algo como “fazenda dos animais”. Ou seja, não diz nada sobre o fato de que os animais da fazenda em questão organizariam uma revolução.

Em Portugal, os tradutores também não foram menos cruéis que aquele amigo dos comentários de uma matéria sobre Stranger Things. Houve a versão “A Quinta dos Animais”, idêntica ao inglês – “quinta” é fazenda em português de Portugal –, mas também houve o comprometedor “O Triunfo dos Porcos”.

É difícil discordar do apelo das versões lusófonas. Afinal, entre as incontáveis opções de uma livraria, você escolheria uma menção discreta ao fato de que há animais em uma fazenda ou uma promessa de guerra civil no chiqueiro? Pois é. O título pouco revelador da edição original, porém, não impediu que ele se tornasse um hit literário do pós-guerra, cujas vendas continuam aumentando até hoje (Trump, alguém?).

2. Que alianças diplomáticas e militares não se baseiam em ideais, mas em interesses

Orwell foi combatente na Guerra Civil Espanhola, espécie de “ensaio” para a Segunda Guerra Mundial que foi coberto também pelo então repórter Ernest Hemingway. Lá, conheceu de perto o horror propagado pelo exército soviético de Stálin – e percebeu que o sanguinário regime totalitário não tinha nada a ver com o socialismo democrático em que acreditava.

Para piorar a situação, a aliança formada entre Inglaterra e União Soviética para combater a Hitler – é difícil de acreditar que logo após o final da guerra a suposta “amizade” diplomática se tornaria a Guerra Fria – gerou uma cartilha de práticas midiáticas que tinham o intuito reabilitar a imagem da URSS no imaginário britânico. A ideia era fazer a população acreditar que o “terror vermelho” – que entre execuções em massa, trabalhos forçados e fome foi responsável pela morte de algo entre três milhões e 60 milhões de soviéticos – era uma invenção da propaganda nazista, justificando a aliança.

Orwell, que na época trabalhava no grupo de mídia BBC, pediu demissão, e escreveu o livro motivado a revelar, de maneira velada e alegórica, o real caráter do regime stalinista.

3. Que rock n’ roll e literatura são uma ótima combinação

Não foram só leitores comuns que aprenderam muito com A Revolução dos Bichos. No topo da lista de ídolos que fizeram música inspirada na obra de Orwell está o Pink Floyd com o álbum Animals. Em 1987 o R.E.M. escreveu a canção “Disturbance at the Heron House” com o escritor britânico em mente, às vésperas do anúncio de que o conservador George H. W. Bush – pai do Bush que era presidente na época dos ataques de 11 de setembro – iria concorrer à presidência.

O grupo punk The Clash usou uma imagem de uma animação inspirada no livro de Orwell como capa do single “English Civil War”, lançado em 1979, e em uma menção mais discreta, o Radiohead cita a obra em um dos versos da canção “Optimistic”.

(Observação do AhNãoMaisUmBlog: essa combinação funcionou perfeitamente na ótima música “Killing an Arab”, do não menos ótimo grupo inglês The Cure, inspirada no ainda mais ótimo “O Estrangeiro”, do francês Albert Camus).

4. Que na guerra a liberdade de expressão é muito relativa

Não houve censura estatal instituída formalmente na Inglaterra durante a Segunda Guerra. Mas o medo de discordar da posição governamental gerou um notável processo de autocensura, completamente voluntário. Poucas editoras, durante o conflito, teriam coragem de manchar a própria imagem junto ao Ministério da Informação publicando obras que ameaçassem, mesmo que de forma velada, a visão positiva da opinião pública sobre a aliança entre Estados Unidos, URSS e Inglaterra.

Orwell afirmaria posteriormente, em um artigo escrito na revista Partisan Review, que “agora é impossível imprimir qualquer coisa que se oponha demais à Rússia. Livros contrários à Rússia aparecem por aí, mas a maioria é de editoras católicas e tem um ponto de vista religioso e reacionário.”

5. Que força física sem consciência política não significa nada

Orwell teve a ideia para sua fábula distópica após se dar conta de que o ser humano é capaz de domar e comandar animais pelo fato de que eles, apesar de mais fortes, não têm consciência de que estão sendo dominados, e que uma relação parecida se estabelecia entre patrões e o proletariado.

Ou seja, se serviu do próprio princípio da fábula, a inversão entre o papel humano e o animal, como paralelo para a organização do trabalho na sociedade capitalista, para então demonstrar que as relações de poder que se formariam entre os próprios proletários após a revolução poderiam deturpar o ideal socialista. Uma aula de história.

Quem escreve para as massas ou para a crítica arrisca-se a perder a eternidade

Por João Pereira Coutinho, na Folha:

 

Os meus escritores vivos preferidos? Cito três de memória: Peter Constable, María Ligia Perez e o brasileiro João Mario Aquino. O leitor nunca ouviu falar?

Curioso. Nem eu. Para dizer a verdade, inventei os nomes ao correr da pena só para ilustrar uma hipótese: e se os melhores escritores do nosso tempo não forem aqueles que o nosso tempo considera os melhores escritores?

Eis a tese que Chuck Klosterman defende no último livro (“But What If We’re Wrong?”, “e se estivermos errados?”). Duas coisas importantes: Chuck Klosterman existe mesmo e, infelizmente, não é lido com a atenção que merece.

O livro é uma permanente investigação às nossas noções de certeza. Sim, cientificamente falando, tudo é uma “busca sem fim”, como diria o filósofo. O mundo de Ptolomeu parece-nos tão risível como as nossas certezas científicas serão um dia.

Mas Klosterman aplica o raciocínio à “indústria cultural” (peço desculpa pela expressão brega) e, em particular, ao supremo mundo da vaidade literária.

Escrevem-se milhares, milhões de livros por ano. A crítica escolhe uns poucos -por razões justas ou injustas, tanto faz. De fora, fica uma legião de anônimos que publicam na sombra, vivem na sombra e morrem na sombra. Sem falar dos autores “populares”, consumidos pelas massas mas ignorados pelas “elites”.

Pois bem: esses poucos -os eleitos, digamos- acreditam que a consagração “oficial” será uma consagração eterna. Esse raciocínio ignora um pormenor fulcral: o que é importante aos olhos letrados do nosso tempo não será necessariamente importante em tempos posteriores.

Chuck Klosterman defende, e defende bem, que a leitura é também uma forma de criação. A relevância e até a imortalidade de um escritor depende sempre do mundo futuro: das suas referências ideológicas, estéticas ou morais.

O americano Herman Melville é um caso instrutivo: quando publicou “Moby Dick”, em 1851, a crítica afastou-se do autor com repugnância (e os leitores fizeram o mesmo). O “flop” acabaria por determinar a triste existência que Melville teve na fase final da vida.

Passaram décadas. E foi preciso a emergência de uma nova sensibilidade modernista, depois da Primeira Guerra Mundial, para que Melville fosse resgatado do silêncio -e o seu “Moby Dick” eleito como o romance americano por definição.

E que dizer de Franz Kafka? Verdade: o escritor era menos obscuro do que pensamos. Lido e até escutado pelos seus colegas literatos, as histórias de Kafka eram recebidas em lágrimas (de riso) pelo absurdo dos seus enredos.

Foi preciso a destruição material e moral da Europa para que as histórias de Kafka passassem a ser prenúncios de um mundo sombrio, burocrático, totalitário, onde a liberdade individual é esmagada.

Para Chuck Klosterman, é possível conjecturar que o grande escritor do nosso tempo é ainda um nome desconhecido, ou então (mal) conhecido e (mal) apreciado.

Concordo -até certo ponto. Porque é importante lembrar que casos como os de Melville ou Kafka podem ser derrotados por outros nomes consagrados na sua época -e na nossa. Tolstói ou Dickens são candidatos óbvios.

Existe um ponto, porém, em que concordo com ele sem reservas: se o passado ensina alguma coisa é que a universalidade de um escritor depende do equilíbrio sutil entre uma visão talentosa do seu tempo e a relevância dessa visão para tempos posteriores.

Ou, inversamente, um escritor que ignora a realidade circundante, preferindo uma prosa artificialmente “intemporal”, dificilmente será intemporal. Lemos Tolstói ou Dickens para conhecermos mundos distintos -a Rússia e a Inglaterra do século 19-, mas também porque Pierre Bezukhov ou Mr. Scrooge continuam a representar a nossa busca de sentido para a vida e o papel da consciência na nossa conduta.

Klosterman arrisca mesmo uma lista de temas incontornáveis para um escritor atual -a nossa definição, ou indefinição, de privacidade; a relutância em abandonar a adolescência para evitar a vida adulta; o impacto da tecnologia nas relações sociais; etc. -desde que nada disso seja trabalhado de forma óbvia.

Não vou tão longe e dispenso essas listas. Prefiro concluir que os aplausos da crítica ou das massas podem fazer bem ao ego -ou à bolsa. Mas quem escreve para as massas ou para a crítica arrisca-se a perder a eternidade.

Um cara chamado Bill

Por eu mesmo:

 

Bill é um dos oito homens mais ricos do mundo. Sua fortuna gira em torno da bagatela de 75 bilhões de dólares.

Ele e os outros sete detém uma riqueza de 427 bilhões de dólares, o mesmo valor que possuem as 3,6 bilhões de pessoas mais pobres do planeta.

Bill fundou sua empresa aos 19 anos. E ficou bilionário criando um sistema utilizado, literalmente, por todo mundo.

Até onde se sabe, Bill não roubou, matou, sequestrou ou sonegou para juntar sua fortuna.

Em 2010, Bill atingiu a marca de 37 bilhões de dólares em doações através da fundação Bill & Melinda Gates.

Sim, você leu certo: Bill, dono de 75 bilhões de dólares, já doou 37. Quase a metade.

Quando morrer, Bill deixará “apenas” 10 milhões de dólares para cada um dos três filhos e doará o resto da grana.

Nos próximos 10 anos, Bill doará 10 bilhões de dólares em vacinas. Com isso, espera salvar a vida de 8 milhões de crianças de menos de 5 anos de idade. A propósito, ele já salvou a vida de 5 milhões de pessoas.

Bill já fez mais pela humanidade do que qualquer governo de qualquer país. Socialista ou capitalista.

Bill não é o culpado pela pobreza das 3,6 bilhões de pessoas do “andar de baixo”. Mas ele se esforça um bocado para melhorar a vida delas.

Mais do que qualquer governo de qualquer país.

Capitalista ou socialista.

Eu quero que Bill viva uns duzentos ou trezentos anos.

E que ganhe mais um novecentos bilhões de dólares.

Manda bala, Bill.

Way to go.

bill

FRAGMENTOS

thomas-mann

 

Joachim caminhava a seu lado, com a cabeça baixa. Tinha os olhos fixos no solo, como se contemplasse a terra. Era muito esquisito: ali andava ele, correto e asseado, saudando os transeuntes na sua maneira cavalheiresca, cuidava do seu exterior e da sua bienséancei como sempre – e, contudo, pertencia à terra. Bem, nós todos pertenceremos a ela, mais cedo ou mais tarde. Mas, quando se é tão jovem e tão cheio da boa e ardorosa vontade de servir sob a bandeira da pátria, é muito amargo pertencer a ela dentro de pouquíssimo tempo. E é ainda mais amargo e mais incompreensível para quem, como Hans Castorp, caminha a seu lado, sabendo de tudo aquilo, do que para o próprio homem destinado à terra, cuja sabedoria reticente e discreta tem, no fundo, natureza muito acadêmica, carece para ele de caráter realístico e interessa mais aos outros do que a ele mesmo. Com efeito, a nossa morte é assunto dos sobreviventes, mais do que de nós próprios. Quer a conheçamos, quer não, conserva pleno valor para a alma aquela sentença de um sábio espirituoso que reza: enquanto existimos, não existe a morte, e quando ela existe, nós já deixamos de existir; por conseguinte, não há, entre nós e a morte, nenhuma relação real, e ela é uma coisa que para nós absolutamente não tem interesse e que, quando muito, afeta ao mundo e à natureza; motivo por que todas as criaturas a contemplam com grande calma, com indiferença, com certa ingenuidade egoística, e sem assumir responsabilidades.

Thomas Mann, A Montanha Mágica