HAI KAI DO TEMPO

Por eu mesmo:

HAI KAI DO TEMPO

O TEMPO?

VI, SIM

INDA AGORINHA

PASSOU POR MIM

TÃO APRESSADO, ASSIM,

AI!

DEU NEM PRA FAZER

UM

HAI

KAI

RELÓGIO

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A DURA VIDA DE UM ESCRITOR ANÔNIMO

CARTA

 

Paulo Marreco

 

 

Escrever é um negócio muito agradável. Deve ser uma das melhores formas de se ganhar o pão de cada dia: escrevendo. Claro, considerando que poucas pessoas conseguem se tornar surfistas profissionais. E ainda menos pessoas conseguem ser o Brad Pitt. Depois destas duas profissões, escritor deve ser a melhor. Eu simplesmente adorei escrever meus dois primeiros livros, Vagas lembranças de um quase atleta e À noite na Barra, além de cada um dos inúmeros contos e crônicas que já tive a desfaçatez de cometer. Como meu próximo – se Deus quiser!- livro, Vida virada do avesso, as peripécias de uma adolescente de 15 anos e sua turma, a Galera do Farol.

Porém, ao contrário dos dois primeiros, lançados por minha própria grana, conta e risco, desta vez optei por tentar vender meu peixe (onde se lê “peixe” entenda-se “livro”) para uma editora; afinal, não dá para ficar sempre investindo seu suado décimo terceiro na publicação de seus livros. Mandei e-mail para algumas, com uma rápida apresentação do autor e da obra; duas delas se interessaram e pediram os originais para avaliação; outra exigia que fosse preenchido um formulário antes mesmo de cogitar analisar o livro. Preenchi o tal formulário e enviei. Sim, uma certa ansiedade tomou conta do pobre escritor esperançoso.

Alguns dias depois, recebo a auspiciosa notícia de que o formulário foi aprovado e a editora “gostaria de conhecer um pouco mais sobre a obra, favor enviá-la em arquivo Word”. A esperança aumenta junto com a confiança; algum mérito há de haver no livrinho, ou três editoras não se dariam a esse trabalho. Especialmente aquela, que exige o preenchimento de prévio formulário…

Arquivo em formato Word enviado, mais um pouco de ansiedade que ninguém é de ferro, mais uns dias e vem outro email: “A leitura analítica do seu livro ‘Vida virada do avesso’ foi concluída e aprovada para o selo (para evitar embaraços e possíveis e prováveis dissabores judiciais futuros, criemos um nome fictício para o tal selo. Digamos, Novos Talentos da Literatura Brasileira). Alvíssaras! Sou –ou serei –um Talento da Literatura Brasileira! Abra alas, Paulo Coelho! Dá licença, Augusto Cury! A essa altura, eu, no auge da vaidade, estava me sentindo o próprio Arturo Bandini de Pergunte ao pó (John Fante)…

Porém, como dizem, quando a esmola é muita o santo desconfia, e também dizem que alegria de pobre dura pouco, ainda mais se o pobre em questão for um pobre escritor; juntamente com essa inebriante notícia de que você está prestes a se tornar um Novo Talento, há uma solicitação curiosa: “por favor, analise a apresentação em anexo e diga se você está de acordo em adquirir 500 ou 1.000 exemplares da primeira tiragem, para encaminharmos o orçamento.”

Orçamento? Adquirir? Imediatamente após ler tais palavras, soou o alarme na minha cabeça; aí tem pegadinha do Malandro… já completamente descartada a tal editora, ainda assim concordei hipoteticamente em adquirir os 500 exemplares; eu queria ver até onde iria a brincadeira…

Aquisição concordada entre muitas aspas e com muitas felicitações por ter sido eleito entre ainda mais aspas, recebi o orçamento, para um original de 160 páginas: “Para viabilizar o projeto o autor deverá adquirir 500 exemplares da primeira tiragem no valor de R$ 14.500,00 ou 1.000 exemplares no valor de R$ 16.500,00 divididos em 7 parcelas através de cheques, nominal à Editora Fulana de Tal ou com 10% de desconto para pagamento a vista. Havendo necessidade de reimpressão do livro, a editora firmará com o autor um novo contrato de edição; todos os custos desta reimpressão ficarão por conta da editora, que ainda remunerará o autor com 10% sobre o valor das vendas.”

 

Quase sem acreditar no que meus olhos liam, perguntei: “E qual seria a remuneração do autor sobre as vendas?” A resposta: “25% sobre as vendas de ebooks e 10% sobre livro impresso a partir da segunda edição…” Ainda descrente de que o negócio pudesse ser assim, insisti: “E sobre a primeira edição?” A resposta: “25% sobre ebook”.

Então, caro leitor solitário, solidário e amigo, ficamos no seguinte: para me tornar um Novo Talento da Literatura Brasileira, e ter à minha disposição quinhentas cópias do meu livro, bastaria desembolsar a módica (oi?) quantia de 14.500 dilmetas; apenas para recuperar o investimento, seria preciso simplesmente vender TODAS as quinhentas cópias por 29 reais (preço de venda, aliás, sugerido pela editora). É óbvio que este valor abrange a produção de muito mais do que as “minhas” quinhentas cópias; portanto, a editora teria a possibilidade de obter lucro vendendo os outros mil exemplares restantes do contrato, a um custo reduzido. Homem primata, capitalismo selvagem, ôô

Bem, no momento, meu bolso não está à altura de me tornar um Novo Talento da Literatura Brasileira; humilde, gentil e penhoradamente, declino. Prefiro aguardar a resposta das outras editoras.

Ou esperar sair o meu décimo terceiro.

 

Cauteloso rio

Por eu mesmo:

Você me olha da outra margem do rio, interminável intransponível rio.

Eu, rio. Você, rio

Você ri, eu rio.

Eu rio e você ralha e esse sempre foi o problema; eu rindo, você indo…

Rio, pois, digo; rio que se alarga -Ó o perigo!- incontornável até seu rosto se tornar uma lembrança irrecuperável, mas que merda, isso, rio de merda, mar de lama, tempestade de bosta, não, definitivamente assim não dá.

Até que a lembrança se transmute, até que o tempo, esse outro rio (e dá-lhe Borges!) lime alise aperfeiçoe transforme o que de fato foi era mas jamais será -mas isso já está ficando insuportável!

Caudaloso rio.

Rio infinito até que venha o fim da História e aí eu quero ver onde vão parar todas essas confortáveis irrenunciáveis cômodas convenientes certezas que você guarda na gaveta, bonitinhas, arrumadinhas, para usar em caso de necessidade.

Cauteloso rio.

Mas até lá o rio já virou oceano e você nem me vê mais do outro lado.

E enquanto você procura e eu procuro

Você chora e eu rio.

Eu rio?

Eu,

Rio de lágrimas.

rio

Pátria amada, Brazil! (capítulo 3)

Par moi-même:


O doutor jornalista sem doutorado que desde o seu nascimento em 12 de agosto do ano da Graça de 1968 atende pelo nome de batismo José Carlos Patto Filho Patto Filho foi uma herança e tanto; muito obrigado, papai chegou à redação do Diário de Notícias com cara de pouquíssimos amigos; encontrar, sobre a sua mesa, um tosco troféu de lata –o justo e merecido prêmio recebido por um dos colegas num torneio de dominó- no qual algum engraçadinho havia dependurado uma tartaruga de pelúcia, azedou por completo o seu já combalido humor. De algum lugar na profunda sala alguém debochou: “parabéns pelo Jabuti!”. As risadas brotaram de todos os lados.

– Rá, rá, rá. Essa foi muito boa, pessoal. Sério. Estou morrendo de rir.

Débora Rangel, repórter da editoria de Cotidiano, aproximou-se dele e contemporizou, enquanto lhe estendia uma xícara de café:

– Deixa pra lá. Você sabe como são esses jornalistas; se ficar puto é pior…

– É, eu sei, disse ele, fazendo login em seu computador.

– E como você está?

– Muito puto, claro.

– Imagino. O que fizeram ontem foi sacanagem da grossa…

Ontem. O dia tão esperado. O lançamento do meu livro. Meu grande momento de glória. A consagração. Noite de autógrafos, matéria na mídia

… impedir um evento cultural assim, na marra, no grito…

me aparece aquele bando de paus mandados, um punhado de idiotas úteis, uns estudantes sem nada na cabeça, manipulados por políticos radicais vassalos do governo, agitadores baratos

… quem esses babacas pensam que são? Os donos do país?

fazendo arruaça em frente à livraria, invadindo o evento, berrando palavras de ordem, tocando tambores, intimidando as pessoas, afastando os convidados, impedindo o debate e lá se foi a tão aguardada noite da minha consagração.

– E agora, a livraria vai remarcar o lançamento?

É, aqueles filhos da mãe me ferraram direitinho

– Não há previsão. Eles ficaram realmente assustados. Talvez cancelem o pedido do livro.

– Mas que covardes!

– Não sei se é covardia. Eles são práticos. Nessa crise, não querem saber de perder dinheiro, nem de se indispor com o governo. Todos nós sabemos que ser oposição, hoje em dia, é mau negócio, em todos os sentidos. Inclusive no sentido financeiro sim, eles conseguiram o que queriam. Acabaram comigo.

– Mas isso é deplorável! Permitir que a ideologia se imponha no campo cultural! Censurar um livro, boicotar seu autor por ser crítico do governo! E a liberdade de expressão, onde fica? Onde é que nós vamos parar? Que país é esse?!

Zeca Patto não respondeu. Bebeu um gole de café. Dos filhos deste solo és mãe gentil, Pátria amada, Brazil!

A cabeça de Marcelo Bonelli, editor-chefe do jornal, surgiu flutuando na porta entreaberta:

– O glorioso escritor da casa já chegou?

– Já chegou. Estou aqui, respondeu Zeca.

– Vossa excelência poderia me dar a subida honra de se dirigir à minha humilde sala, por obséquio?

O que foi agora?    

Patto se levantou lentamente, respirou fundo e se levantou. Então se lembrou da conversa com o Alemão.

– Rangel.

– Fala.

– Você já ouviu alguma coisa estranha sobre a Guarda Popular?

– Muitas. Tipo o quê?

– Tipo estarem cobrando uma “taxa de proteção” dos comerciantes…

– Tá de sacanagem! Isso é sério?!

– É sério. Quer dar uma checada nisso?

– Só se for agora!

Após deixar essa rápida dica para a repórter Débora Rangel, Patto se dirigiu à sala do seu chefe, que já havia se recostado confortavelmente na cadeira e jogado os pés sobre a mesa. Assim que o jornalista entrou, Bonelli disparou a bomba:

– Sua coluna de amanhã não vai sair.

Patto ficou imóvel, a boca aberta e uma expressão estúpida como se tivesse acabado de ouvir a explicação de uma intrincada equação de física quântica. Depois de alguns instantes de estupor, finalmente disse:

– Como assim? Não entendi.

– Não entendeu o quê? Não ouviu o que eu falei?

– Claro que ouvi.

– Então qual é o problema? Eu falei javanês, por acaso?

– Por que minha coluna não vai sair, perguntou Patto, ignorando a ironia do chefe.

– Por quê? Porque alguém lá em cima acha que você está pegando pesado demais com o governo.

– Você só pode estar de sacanagem.

– Eu, de sacanagem? Longe disso; eu sou um cara muito sério. Sacanagem, meu caro, é você ficar descendo a lenha na Magnânima, depois de tudo que essa pobre mulher tem feito pelo seu país. Você deveria ser um pouco menos ingrato.

– Você está falando sério?

– Eu estou com cara de quem está brincando?

– Que merda, Bonelli! Você vai deixar essa vergonha passar? Vai deixá-los fazer essa covardia? Vai amarelar?

– Sinto muito, meu chapa; ordens lá de cima. Manda quem pode, obedece quem tem juízo. E você sabe que eu sou um cara muito ajuizado.

– Eu devo estar com algum problema de audição; pensei ter ouvido o Marcello Bonelli, editor-chefe do Diário de Notícias, o repórter que era o terror dos políticos corruptos e incompetentes, dizendo que vai obedecer a uma ordem de censura absurda; mas eu devo ter ouvido errado, porque o velho Bona que eu conheço jamais se sujeitaria a esse tipo de humilhação.

– Alto lá, velhão, disse o Bonelli, ligeiramente irritado; é muito fácil você me criticar assim; escreve o que quiser naquela sua porcaria de coluna, sem nem precisar sair de casa; e depois eu é que me fodo para segurar o rojão! Você não sabe o tipo de pressão que eu tenho que aguentar quando deixo publicar suas diatribes contra o governo. E o negócio está cada vez pior. Já esqueceu o que aconteceu com a Visão e o Global?

– Eu não estou nem aí para as pressões dessa corja! Porra, Bonelli! Você vai se deixar dobrar assim, sem mais nem menos? Nós somos da imprensa, daquela velha imprensa, daquela, a verdadeira imprensa, ou trabalhamos num armazém de secos e molhados?!

– Você não está nem aí, seu puto, mas eu tenho que estar. Os caras do governo metendo o pau em nós nos outros veículos, reclamando que você não alivia nas críticas; o departamento jurídico está atolado de ações judiciais, e o contrato de publicidade da Competro está por um fio. Tem ideia do que perder essa verba representaria nos tempos atuais, com a economia na merda do jeito que está? Não, é claro que você não tem. Você não sabe quanto custa imprimir um jornal; não sabe quantos empregos teriam que ser cortados na empresa se nós perdêssemos essa verba. Você só quer saber de descer o malho na santinha da Presidente e no seu Partido impoluto. Porra, Patto! Você até escreve direitinho, e a sua coluna faz um certo sucesso entre os nossos leitores; mas tem hora que é preciso saber recuar, aliviar um pouco a barra.

A raiva borbulhava no peito de José Carlos Você não pode se acovardar. Não pode. Nunca mais

– Olha aqui, eu não sei quanto custa imprimir um jornal, e nem quero saber; eu sou é jornalista, não sou empresário nem burocrata. E eu não estou nem perto de começar a pegar pesado com essa mulher; você vai ver!

– Pois eu sei e eu preciso saber; se eu não souber, o Diário não arruma grana nem para pagar o papel onde você desanca a Toda Poderosa. E eu posso até ser um mero burocrata; mas é esse burocrata que tem segurado o seu pescoço nesse jornal ultimamente. Isso mesmo, velhão; não são os seus belos olhos, nem os seus textos magistrais, nem o seu charme irresistível e muito menos a sua multidão de leitores. Não pense que já não pediram sua cabeça lá no último andar. Várias vezes. E é bom você saber que estes pedidos foram bastante veementes.

Não dê ouvidos a ele. Não ceda. Você prometeu a si mesmo. Nunca mais um covarde

– Cacete, Bonelli! O que você espera que eu faça? Que eu alivie a barra desses caras? Essa gente pinta e borda, mete os pés pelas mãos, mete a mão no dinheiro público sem a menor cerimônia, estupra a Constituição todos os dias e eu tenho que ficar calado?

– Meu amigo, longe de mim pedir a você que tome qualquer atitude contrária à sua consciência; eu só estou te informando como andam as coisas por aqui. Mas uma coisa eu realmente quero te pedir: tome cuidado.

Cuidado o cacete. Eu prefiro morrer a ser um covarde mais uma vez

– Bona, não faça isso. Cara, onde foram parar os seus princípios? Foi para isso que nós lutamos tanto? Foi para amarelar no pior momento, quando o país mais precisa de nós? Estão querendo calar nossa boca usando grana, o pior motivo, e nós vamos deixar por isso mesmo? Vamos publicar receitas de bolos e salgados, ou ensinar dicas para o cultivo de rosas, como nossos antecessores faziam na época da ditadura?

– Ora, não seja tão melodramático, Carlito. Eu não tenho a pretensão de ser o salvador da pátria. E você também já deveria ter entendido que esse papel não é nosso.

– Ah, não? Então nós vamos deixar essa corja afundar o país sem lutar? Sem nem mesmo denunciar essa sacanagem toda? Não me decepcione assim, Bona. Por favor; você, não.

Bonelli ficou em silêncio por alguns segundos. Por fim, exclamou:

– Ah, que se foda. Você está certo; vamos botar a boca no trombone. Se não der em nada, pelo menos que seja para encher o saco daqueles safados. Cancelem a porra do contrato se quiserem, nos demitam; não seria a primeira vez que nós ficaríamos sem um puto no bolso.

Isso. Isso mesmo. Sejamos valentes. Nunca mais um covarde filhinho de papai

– Assim é que se fala!

– Depois, se a coisa apertar, nós criamos um desses “blogs progressistas” financiados por estatais para puxar o saco do governo.

– Assim é que não se fala. Abraço, mané!

- Se cuida, babaca.


(continua...)maquina

Fragmentos

Difícil um homem saber o que acontece às mulheres. Vivo com a minha há quinze anos e o diabo me leve se eu sei. Tenho imaginado uma porção de coisas que possam nos separar, mas o diabo me leve se pensei no cadáver de uma mulher morta há quatro dias. Elas tornam a vida difícil, não aceitando as coisas como chegam, à maneira dos homens.

William Faulkner, Enquanto agonizo.

faulkner

FRAGMENTOS

eca

E nem sei se depois adormeci – porque os meus pés, a que não sentia nem o pisar nem o rumor, como se um vento brando me levasse, continuaram a tropeças em livros no corredor apagado, depois na areia do jardim que o luar branquejava, depois na Avenida dos Campos Elísios, povoada e ruidosa como numa festa cívica. E, ó portento! Todas as casas aos lados eram construídas com livros. Nos ramos dos castanheiros ramalhavam folhas de livros. E os homens, as finas damas, vestidos de papel impresso, com títulos nos dorsos, mostravam em vez de rosto um livro aberto, a que a brisa lenta virava docemente as folhas. Ao fundo, na Praça da Concórdia, avistei uma escarpada montanha de livros, a que tentei trepar, arquejante, ora enterrando a perna em flácidas camadas de versos, ora batendo contra a lombada, dura como calhau, de tomos de Exegese e Crítica. A tão vastas alturas subi, para além da terra, para além das nuvens, que me encontrei, maravilhado, entre os astros. Eles rolavam serenamente, enormes e mudos, recobertos pôr espessas crostas de livros, de onde surdia, aqui e além, pôr alguma fenda, entre dois volumes mal juntos, um raiozinho de luz sufocada e ansiada. E assim ascendi ao Paraíso. Decerto era o paraíso – porque com meus olhos de mortal argila avistei o Ancião da Eternidade, aquele que não tem Manhã nem Tarde. Numa claridade que dele irradiava mais clara que todas as claridades, entre fundas estantes de ouro abarrotadas de códices, sentado em vetustíssimos fólios, com os flocos das infinitas barbas espalhados pôr sobre resmas de folhetos, brochuras, gazetas e catálogos – o Altíssimo lia. A fronte super-divina que concebera o Mundo pousava sobre a mão superforte que o Mundo criara – e o Criador lia e sorria. Ousei, arrepiado de sagrado horror, espreitar pôr cima do seu ombro coruscante. O livro era brochado, de três francos… O Eterno lia Voltaire, numa edição barata, e sorria.

Eça de Queirós, A Cidade e as Serras