SE AO MENOS ELA SOUBESSE…

BUS
Por eu mesmo:

Amava-o?
Sim. Em seu íntimo, sabia que o amava.
Sabia que o amava, mas havia obstáculos.
Primeiro obstáculo: aquele ridículo bigodinho a la cobrador de ônibus.
Segundo obstáculo: saber que, por trás daquele ridículo bigodinho a la cobrador de ônibus, havia, efetivamente, um… cobrador de ônibus.
Terceiro obstáculo: saber que, por trás daquele cobrador de ônibus, havia um passado de ignorância e pobreza –como o dela. E, o pior: diante dele, se descortinava um futuro medíocre.
Assim, por mais que o coração se aquecesse com os seus galanteios e um sorriso assomasse em seus lábios sempre que se lembrava das suas sinceras –sim, ela sabia; eram sinceras- juras de amor, de pronto a razão sufocava o sentimento. Ninguém vive só de amor, e ela merecia mais. Ela, a belezura do bairro. Seus pais esperavam mais. Ela esperava mais.
Se ao menos ela soubesse…
Mas ela não tinha como saber.
Ninguém tinha.
Como ela –como alguém- poderia saber que não haveria outro pretendente sério? Que ela seria apenas o divertimento passageiro de conquistadores baratos? Como ela poderia saber que o ridículo bigodinho de cobrador logo se tornaria um ridículo bigodinho de motorista, evoluindo rapidamente para um ridículo bigodinho de proprietário de um ônibus velho, galgando vertiginosamente todas as etapas até se tornar o ridículo bigodinho de um dos mais poderosos empresários do setor de transporte de passageiros, dono de concessionárias de automóveis e marido de uma grande dama da sociedade?
Sempre que contempla a ubíqua foto do feliz casal, sorrindo nas melhores festas e eventos, rodeados por incontáveis filhos e netos e pela nata da sociedade, a antiga beldade, decomposta, desgastada pelo tempo e pela necessidade até não restar nada além de uma solitária e triste matrona, deplora o próprio orgulho. Lamenta a própria sorte, protesta contra a crueldade do destino e se faz as mesmas perguntas que ecoarão sem resposta até o fim dos dias: a fortuna do seu antigo pretendente estava traçada desde sempre, ou foram a rejeição, o amor negado, o orgulho ferido que o impulsionaram através das dificuldades da vida até romper a barreira de um destino inescapável? Teria mantido o deplorável bigodinho apenas para jamais se esquecer de sua origem humilde? Lembraria dela?
Uma lágrima pela outra vida, a vida que poderia ter tido, infinitamente mais exuberante e farta e plena do que essa, inunda seus olhos, mas não pense que não lhe resta alguma soberba; ela jamais permitiria que a gota escorresse pelas gastas e corrugadas faces.
Ao invés, ela sorri com amargura, pensando em como um simples, ralo e ridículo bigode pode determinar todo o curso de uma existência.

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FRAGMENTOS

Li muito pra Jim sobre reis, duques, condes e gente desse tipo, e como eles se vestiam com roupas brilhantes, e como afetavam grande estilo, e chamavam uns aos outros de vossa majestade, vossa graça, vossa senhoria e coisa e tal, em vez de falar senhor, e os olhos de Jim saltaram pra fora, ele tava interessado. Disse:

– Num sabia que tinha tantos assim. Nunca ouvi falá de ninhum deles, quase ninhum, só do veio Rei Salumão, a num sê que ocê também conta os rei que tem no baraio de carta. Quanto ganha um rei?

– Ganha? – digo eu. – Ora, querendo eles ganham mil dólares por mês. Eles podem ganhar o que quiserem, tudo pertence a eles.

– Num é pândega? E o que é que eles têm que fazê, Huck?

– Eles não fazem nada! Ora, que jeito de falar. Eles só andam por aí.

– Não… mesmo?

– É claro. Só andam por aí. Menos talvez quando tem uma guerra, então eles vão pra guerra. Mas no resto do tempo eles só ficam à toa, ou vão caçar falcões e pass… ssshhh!… ouviu um barulho? A gente saltou pra fora e olhou, mas não tinha nada a não ser o agito da roda de um vapor, que bem de longe vinha descendo ao redor do cabo. Então a gente voltou.

– Sim – digo eu – e no resto do tempo, quando as coisas tão paradas, eles fazem um estardalhaço com o parlamento, e se todo mundo não faz exatamente o que eles querem, mandam cortar a cabeça de todo mundo. Mas a maior parte do tempo eles passam no harém.

– Onde?

– No harém.

– O que é o harém?

– O lugar onde eles guardam as suas mulheres. Ocê não sabe sobre o harém? Salomão tinha um, ele tinha quase um milhão de mulheres.

– Ora, sim, é assim… Eu… eu tinha esquecido. Um harém é uma pensão, acho. Quase certo que eles faz algazarra no quarto das criança. E acho que as muié brigam muito e que isso aumenta o barulho. Mas eles diz que Salumão era o hômi mais sábio que já viveu. Num credito não. Por causa do seguinte: um hômi sábio ia querê vivê num vozerio desses o tempo todo? Não… num ia querê mesmo. Um hômi sábio ia armá barulho e tumulto, e então ele ia podê acabá com a algazarra quano queria descansá.

– Bem, mas ele foi o mais sábio, porque foi a própria viúva quem me disse.

– Num me importa o que a viúva disse, ele num foi um hômi sábio, não. Ele tinha as maneira mais estranha que eu já vi. Ocê sabe daquele menino que ele ia cortá em dois?

– Sim, a viúva me contou tudo sobre isso.

– Bem, então! Essa num foi a ideia mais esquisita do mundo? Pensa um minuto. Aí tá um cepo, aí… é uma das muié; aqui tá ocê… fica seno a outra; eu é o Salumão; e essa nota de um dólar aqui é o menino. As duas qué o menino. O que que eu faço? Saio a procurá entre os vizinho e descubro qual de ocês é a dona da nota, e entrego a nota pra dona certa, tudo são e salvo, tudo o que ia fazê quarqué um com valentia? Não… eu pego e rasgo a nota em dois pedaço, e dô uma metade procê, e a outra metade pra outra muié. É isso o que o Salumão ia fazê com o menino. Agora pergunto procê: que adianta metade de uma nota? Num dá pra comprá nada com ela. E que adianta metade de um menino? Eu num ia dá a menó bola nem prum milhão deles.

– Mas ora, Jim, ocê não entendeu a ideia… dane-se, ocê errou o alvo por uns mil quilômetros.

– Quem? Eu? Ora, vá. Num fala pra mim das tua ideia. Acho que eu enteno o sentido quano eu vejo sentido, e num tem sentido em fazê uma coisa dessa. A briga num era sobre metade de um menino, a briga era sobre um menino inteiro. E o hômi que pensa que pode resolvê uma briga sobre um menino intero cum a metade de um menino num sabe o bastante nem pra num se molhá na chuva. Num me fale desse Salumão, Huck. Conheço ele de trás pra diante.

– Mas tô dizendo que ocê não entendeu a ideia.

– Que se dane a ideia! Acho que sei o que sei. E olha aqui, a ideia de verdade vai mais longe… mais profundo. Tá no modo como Salumão foi criado. Ocê pega um hômi que só tem um ou dois fio, esse hômi vai esbanjá os fio? Não, num vai, num tem como. Ele sabe como dá valô a eles. Mas ocê pega um hômi que tem uns cinco milhão de fio correno pela casa, aí é diferente. Ele vai cortá um menino em dois assim como corta um gato. Tem muitos fio mais. Um fio ou dois, mais o menos, num importa pro Salumão, que se dane! Nunca vi um negro assim. Se ele metia uma ideia na cabeça, não tinha como arrancar fora. Era o negro mais crítico de Salomão que já vi. Então continuei a falar sobre outros reis, e deixei Salomão pra lá. Contei sobre Luís XVI, que teve a cabeça cortada na França muito tempo atrás, e sobre o menino dele, o delfim, que ia ser rei, mas eles pegaram e prenderam ele na cadeia, e uns dizem que ele morreu na prisão.

– Pobre menino.

– Mas uns dizem que ele saiu, fugiu e veio pra América.

– Inda bem! Mas ele vai se senti muito sozinho… num tem rei ninhum por aqui, né, Huck?

– Não.

– Então ele num vai tê uma profissão. O que é que ele vai fazê?

– Ah, não sei. Uns deles vão pra polícia, e uns ensinam as pessoas a falar francês.

– Ora, Huck, os francês num falam assim como a gente?

– Não, Jim, ocê não ia compreender nem uma palavra do que eles dizem… nem uma única palavra.

– Ora, c’o diabo! Como é que isso acontece?

– Não sei, mas é assim. Peguei um pouco da parolagem deles num livro. E se um homem viesse falar com ocê e dissesse Pallê-vu-francé – o que ocê ia achar?

– Num ia achá nada, eu pegava e rebentava a cabeça dele. Qué dizê, se ele num fosse branco. Eu num ia deixá ninhum preto me chamá assim.

– Balela, não tá te chamando de nada. Tá só perguntando se ocê sabe falar francês.

– Então por que num fala isso?

– Ora, ele tá falando isso. É o jeito do francês falar isso.

– É um jeito danado de ridículo, e num quero ouvi mais sobre isso. Num faz sentido. – Olha aqui, Jim: um gato fala como a gente fala?

– Não, um gato não.

– E uma vaca?

– Não, uma vaca também não.

– Um gato fala como uma vaca, ou uma vaca como um gato?

– Não, num fala.

– É natural e correto eles falarem diferente um do outro, não?

– É craro.

– E não é natural e correto um gato e uma vaca falarem diferente de nós?

– Ora, craro que é.

– Bem, então, por que não é natural e correto um francês falar diferente de nós? Agora me responde isso.

– Um gato é um hômi, Huck?

– Não.

– Então, num faz sentido um gato falá como um hômi. Uma vaca é um hômi? E uma vaca é um gato?

– Não, nenhum dos dois.

– Então, ela num tinha por que falá como um ou como o outro. O francês é um hômi? – Sim.

– Então! Macacos me morde, por que ele num fala como um hômi? Me responde isso.

Vi que não adiantava gastar palavras… não dá pra ensinar um negro a argumentar. Então desisti.

As aventuras de Huckleberry Fin, Mark Twain

HUCK FINN