Fragmentos

Pequena alma, alma terna e inconstante, companheira do meu corpo, de que foste hóspede, vais descer àqueles lugares pálidos, duros e nus, onde deverás renunciar aos jogos de outrora. Por um momento, contemplemos juntos ainda os lugares familiares, os objetos que certamente nunca mais veremos… Esforcemo-nos por entrar na morte com os olhos abertos…

Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar

MARGUERITE YOURCENAR

LIBRAS

Por eu mesmo:
CAO.jpg
ERA UMA VEZ UM FILHOTE CHAMADO LIBRAS.
Libras era bonitinho. Um filhote fofo.
Nasceu em meio a outros filhotes.
Havia chihuahuas, pinchers, dobermanns, hotweillers, pastores alemães e belgas. E havia Libras.
Desde pequeno, Libras adquiriu dois estranhos hábitos:
Apesar de ser um filhote grande, preferia a companhia –e os hábitos- dos cachorros pequenos. Vivia entre os chihuahuas e pinschers, sempre latindo para os outros filhotes grandes.
E, o mais curioso: vivia correndo em círculos, tentando morder o próprio rabo.
No início, todos achavam aquilo engraçado; quando Libras começava suas peripécias, todos riam muito e aplaudiam à moda dos cães, seja lá como os cães aplaudem.
Com o passar do tempo, os cães grandes foram se cansando; tanto dos recorrentes latidos quanto das corridas alucinadas e inúteis de Libras. Perspicazes, eles ainda o aconselharam:
– Libras, deixe de ser pateta. Se você continuar a se comportar como um chihuahua, vai acabar virando um.
E:
– Libras, deixe de ser pateta e pare de correr atrás do próprio rabo. Assim você se cansa e não chega a lugar algum.
Mas Libras era pouco permeável à sabedoria. Continuou andando com pinschers e chihuahuas, continuou latindo para os grandes e continuou perseguindo em vão o próprio rabo.
Alguns pinchers ouviram o conselho dado a Libras, e passaram a se comportar como os grandes; por incrível que pareça –se bem que isso é uma fábula e, nas fábulas, nada parece incrível-, acabaram se tornando dobermanns e pastores alemães.
Enquanto isso, Libras continuava latindo e correndo atrás do próprio rabo.
Obviamente, ele não chegou a lugar algum; os outros, por sua vez, cresceram, seguiram em frente, prosperaram -à moda dos cães- e foram cuidar da vida.
Libras continua o mesmo até hoje: cheio de manias de grandeza, latindo para cães muito maiores do que ele. Cães que não lhe dão a menor bola.
Pode ser que, um dia, Libras se canse, caia em si, perceba a insensatez do seu comportamento, pare de correr em círculos tentando morder o próprio rabo e comece a seguir em frente.
Pode ser que isso aconteça.
Sim, é possível.
Mas é muito pouco provável.

FRAGMENTOS

Devo confessar que acredito pouco nas leis. Quando demasiado duras, são transgredidas com razão. Quando muito complicadas, o engenho humano encontra facilmente o meio de escapar por entre as malhas dessa rede frágil e escorregadia. O respeito pelas leis antigas corresponde ao que a piedade humana tem de mais profundo; serve também de travesseiro à inércia dos juízes. As leis mais antigas participam da selvageria que elas mesmas pretendem corrigir; as mais veneráveis são ainda um produto da força. A maioria das nossas leis penais só atingem, talvez felizmente, uma pequena parte dos culpados; nossas leis civis jamais serão bastante flexíveis para se adaptar à fluida variedade dos fatos. Mudam menos rapidamente do que os costumes; perigosas quando estes as ultrapassam, o são ainda mais quando pretendem precedê-los. Contudo, desse amontoado de inovações perigosas que oferecem tantos riscos, ou de rotinas obsoletas, surgem aqui e ali, como na medicina, algumas fórmulas aproveitáveis. Os filósofos gregos ensinaram-nos a conhecer um pouco melhor a natureza humana: nossos melhores juristas vem trabalhando há algumas gerações visando ao bom senso. Eu mesmo efetuei algumas dessas reformas parciais, que são as únicas duradouras. Toda lei muitas vezes transgredida é má: cabe ao legislador revogá-la ou substituí-la antes que o desprezo por uma disposição insensata se estenda a outras leis mais justas.

Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar

MARGUERITE YOURCENAR