SELVAGENS

SELVAGEM

Capa de SELVAGEM, disco sensacional dos Paralamas do Sucesso. Os meninos de hoje não brincam mais de índio…

 

Por Paulo Marreco:

 

1984, de Orwell; Admirável Mundo Novo, de Huxley; e Laranja Mecânica, de Burgess, são considerados a trilogia distópica do Século XX. A seu modo, cada um dos autores descreve um futuro (fictício, em princípio; mas nunca se sabe. Vai que…) sombrio para a Humanidade. Porém, dos três, o mais perturbador, para mim, é o quarto (nunca fui muito bom em matemática), Senhor das Moscas, de Golding. A trama expõe o (nada bom) selvagem que habita o homem, pronto a colocar as garras de fora sempre que as amarras civilizatórias se afrouxam. O mais perturbador, no caso, é que toda a ação se desenvolve entre crianças. Qualquer um que tenha sofrido bullying na infância sabe como os pequenos podem ser bastante malvados; porém, nos últimos tempos, essa maldade infantil tem se elevado a níveis de barbárie.

Circula na Rede um vídeo. Não sei onde foi filmado. Alguns garotos –três ou quatro- conversam, sentados na calçada. O vídeo foca num deles: um garoto pequeno, mirrado, parecendo mal ter entrado na adolescência; um daqueles garotos que, em outros tempos, não muito distantes, seria considerado “café com leite” nas brincadeiras com crianças maiores. Outro garoto passa de bicicleta pelo grupo e diz: “estou cagando pra vocês”. Os meninos se entreolham; o vídeo continua focado no pequenino. “Ele falou que tá cagando pra nós?”, ele diz (ele não tem mais que doze, treze anos de idade). Ou amigos confirmam. Ele se levanta (ele é só uma criança), vai andando calmamente atrás do garoto na bicicleta. O vídeo o segue. O garoto da bicicleta para logo adiante; devia estar chegando em casa. O pequeno (por Deus, uma criança!) o aborda: “Cê falou que tá cagando pra nós, é?”. O outro diz alguma coisa. A criança –sim, a criança!- saca uma arma e atira. O outro cai sem vida.

Um menino tira a vida de outro menino. Assim, sem mais nem menos. Sem um motivo (não, nada justifica um assassinato; mas tem sempre que haver um motivo). Não há uma explosão de raiva. Não há emoção. Não há remorso. Para esta criança, matar alguém é algo banal. Terá sido sua primeira vez? Infelizmente, as circunstâncias apontam em outra direção, e eis-nos chegados ao cerne do horror. As crianças de nossos dias matam. Apontam armas para outros seres humanos, apertam o gatilho e matam. Sem dar chance de reação; sem tentar resolver na conversa. Sem emoção. Sem raiva. Sem remorso.

 

Em 1986, os Paralamas do Sucesso lançaram a canção Selvagem. Um dos versos alertava:

 

A cidade apresenta suas armas

Meninos nos sinais, mendigos pelos cantos

E o espanto está nos olhos de quem vê

O grande monstro a se criar

 

Trinta anos se passaram desde então. O grande monstro está entre nós. Enorme. Faminto. Indiferente ao sofrimento. E Teseu, coitado, perdeu-se no labirinto; Ariadne, preocupada com a novela, esqueceu-se de dar-lhe o novelo.

Enquanto aguardamos, sessenta mil almas são oferecidas ao Grande Monstro em sacrifício. Todos os anos.

 

Mas, como também profetizaram os Titãs nos anos noventa…

 

“A morte não causa mais espanto.”

 

Até que ela chegue à nossa porta.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s