A CIDADE INVISÍVEL / THE INVISIBLE CITY

THE WOODS 4

Você consegue ver a Cidade Invisível?

Por Paulo Marreco:

A Flórida é o estado que mais cresce atualmente nos Estados Unidos, e Orlando segue esse ritmo acelerado; milhares de pessoas desembarcam na cidade, atraídas pelo clima, pelos mundialmente famosos parques e pelas oportunidades de trabalho. Novas estradas rasgam o arenoso solo do Sunshine State (sinto muito; algumas coisas, talvez poucas, ficam melhor ditas em inglês); condomínios e centros comerciais brotam por todos os lados.

Orlando é vasta, e, apesar da acelerada ocupação, grandes porções de espaço ainda são dominadas pela vegetação nativa; extensos bosques circundam os bairros, condomínios e comunidades.

Entretanto, para além dos parques com seus brinquedos, distante dos shoppings, por trás dos condomínios, existe uma outra cidade. Uma cidade que quase ninguém vê. Uma outra Orlando, praticamente invisível para quem, distraído, concentrado, atrasado ou preocupado, trafega em velocidade pelas suas largas pistas. Para descobrir esta Orlando secreta, é preciso caminhar através dela (esta é a melhor forma, talvez a única, de se realmente conhecer qualquer lugar: caminhando), percorrer sem pressa suas calçadas pouco povoadas; Orlando é uma cidade de pessoas motorizadas.

Ao caminhar pela cidade, é possível notar as pistas da Cidade Invisível: uma bicicleta verde encostada em um tronco de árvore, quase camuflada em meio aos arbustos de um bosque onde a entrada é, ao menos diz a placa feroz, proibida. Tempos depois, essa mesma bicicleta passará por você, pedinte apressada, afastando-se sem nem mesmo esperar a resposta que não virá: seventy-five cents, would-u-gimme-seventy-five cents”…

THE WOODS 2

O caminho…

Caminhando pela cidade, é possível ver um pequeno cachorro, marrom e peludo, que sai de outro bosque, do Bosque, espreita e fareja, ressabiado, para logo depois voltar ao seu secreto refúgio. Caminhando pela cidade e esquadrinhando as matas com os olhos, pode-se ver ao fundo as barracas, precárias habitações que abrigam os Homens-e-Mulheres-Que-Não-São: gente que vive à margem da cidade, da sociedade, do sistema, dos seus próprios erros e desarranjos e obsessões. Ouse aproximar-se, e você ouvirá o latir nervoso do Cão, o amigo incondicional que não julga e defende com todas as armas a mão trêmula que o alimenta, pois os Homens-e-Mulheres-Que-Não-São também sabem amar.

THE WOODS 3

… que os apressados não veem.

Caminhando pela cidade nas horas escuras e quietas e vazias da noite, é possível encontrar os Homens-e-Mulheres-Que-Não-São rebuscando, nos abundantes refugos da sociedade, qualquer coisa que lhes acrescente algum conforto: eis um deles, magro, cabeça rapada, barba longa, sentado numa cadeira, experimentando-a como se estivesse numa loja. Havia algo majestoso em sua solidão; cumprimentei-o e ele devolveu o aceno, humilde e surpreso; o Rei-Dos-Que-Não-São, Soberano da Cidade Invisível, aboletado em seu trono de rebotalho, acostumou-se à sua condição de não ser.

Mas ele é.

Eles são.

Alguém os vê.

Para enxergar a Cidade Invisível, é preciso ter os pés no chão.

E o coração nas nuvens.

 

 

THE INVISIBLE CITY

Florida is the fastest growing state in the US in these days, and Orlando follow this accelerated rhythm; thousands of people land in the city, attracted by the warm weather, the world famous theme parks and for the job openings. New roads daily cleave the sandy soil of the Sunshine State; condos and malls emerges from all over the city.

Orlando is vast but, although the accelerate occupation, large portions of space are still dominated by the native vegetation; extensive woods and swamps surround the communities, condos and neighborhoods.

Notwithstanding, aside of the parks and their rides and toys, distant from the malls, behind the luxurious condos, there is another city. A city almost anybody see. Another Orlando, virtually invisible for those who, distracted or concentrated, belated or concerned, traffics in velocity through her wide tracks. To discover this Secret Orlando, one needs to walk across her (that’s the best way, maybe the only way, to really know any place: walking); roam with no rush her depopulated sidewalks –Orlando is a city of motorized people.

Walking through the town, one can note the traces of the Invisible City: a green bike rest by a three trunk, almost camouflaged amid the bushes of a wood where, at least says the unfriendly poster, the entrance is prohibited. Some time after, the same bike will run by you, a rushed beggar, moving away without even wait for the not coming answer: “seventy-five cents, would-u-gimme-seventy-five cents”…

Walking through the town, one can see a brown, furry little dog, coming out from another woods –coming out from The Woods; it lurks and scents, resentful, and soon return to its secret refuge. Walking through the town and rummaging the woods with the eyes, one can see the tents, precarious habitations of the Men-and-Women-Who-Are-Not; people who lives at the borders of the society, of the system, of their own mistakes and derangement and obsessions. Dare to come close and one will hear the nervous barking of the Dog, the unconditional friend who does not judge and defends with all weapons the trembling hand that feeds it, for the Men-and-Women-Who-Are-Not also know how to love.

Walking through the town at the dark and quiet hours of the night one can find the Men-and-Women-Who-Are-Not searching at the abundant refuses of the society anything that gives them some comfort; here is one of them, skinny, shaved head, long beard, sited on a chair, trying it as if he was at the store. There was something majestic in his solitude; I saluted him and he gave me back the gesture, humble and surprised; the King-of-Those-Who-Are-Not, Sovereign of The Invisible City, accommodated at his wasted, refused throne, got use to his non-being condition.

But he is.

They are.

SomeOne sees them.

To see the Invisible City, one needs to have his feet on the ground.

And his heart on the clouds.

 

 

Anúncios

SELVAGENS

SELVAGEM

Capa de SELVAGEM, disco sensacional dos Paralamas do Sucesso. Os meninos de hoje não brincam mais de índio…

 

Por Paulo Marreco:

 

1984, de Orwell; Admirável Mundo Novo, de Huxley; e Laranja Mecânica, de Burgess, são considerados a trilogia distópica do Século XX. A seu modo, cada um dos autores descreve um futuro (fictício, em princípio; mas nunca se sabe. Vai que…) sombrio para a Humanidade. Porém, dos três, o mais perturbador, para mim, é o quarto (nunca fui muito bom em matemática), Senhor das Moscas, de Golding. A trama expõe o (nada bom) selvagem que habita o homem, pronto a colocar as garras de fora sempre que as amarras civilizatórias se afrouxam. O mais perturbador, no caso, é que toda a ação se desenvolve entre crianças. Qualquer um que tenha sofrido bullying na infância sabe como os pequenos podem ser bastante malvados; porém, nos últimos tempos, essa maldade infantil tem se elevado a níveis de barbárie.

Circula na Rede um vídeo. Não sei onde foi filmado. Alguns garotos –três ou quatro- conversam, sentados na calçada. O vídeo foca num deles: um garoto pequeno, mirrado, parecendo mal ter entrado na adolescência; um daqueles garotos que, em outros tempos, não muito distantes, seria considerado “café com leite” nas brincadeiras com crianças maiores. Outro garoto passa de bicicleta pelo grupo e diz: “estou cagando pra vocês”. Os meninos se entreolham; o vídeo continua focado no pequenino. “Ele falou que tá cagando pra nós?”, ele diz (ele não tem mais que doze, treze anos de idade). Ou amigos confirmam. Ele se levanta (ele é só uma criança), vai andando calmamente atrás do garoto na bicicleta. O vídeo o segue. O garoto da bicicleta para logo adiante; devia estar chegando em casa. O pequeno (por Deus, uma criança!) o aborda: “Cê falou que tá cagando pra nós, é?”. O outro diz alguma coisa. A criança –sim, a criança!- saca uma arma e atira. O outro cai sem vida.

Um menino tira a vida de outro menino. Assim, sem mais nem menos. Sem um motivo (não, nada justifica um assassinato; mas tem sempre que haver um motivo). Não há uma explosão de raiva. Não há emoção. Não há remorso. Para esta criança, matar alguém é algo banal. Terá sido sua primeira vez? Infelizmente, as circunstâncias apontam em outra direção, e eis-nos chegados ao cerne do horror. As crianças de nossos dias matam. Apontam armas para outros seres humanos, apertam o gatilho e matam. Sem dar chance de reação; sem tentar resolver na conversa. Sem emoção. Sem raiva. Sem remorso.

 

Em 1986, os Paralamas do Sucesso lançaram a canção Selvagem. Um dos versos alertava:

 

A cidade apresenta suas armas

Meninos nos sinais, mendigos pelos cantos

E o espanto está nos olhos de quem vê

O grande monstro a se criar

 

Trinta anos se passaram desde então. O grande monstro está entre nós. Enorme. Faminto. Indiferente ao sofrimento. E Teseu, coitado, perdeu-se no labirinto; Ariadne, preocupada com a novela, esqueceu-se de dar-lhe o novelo.

Enquanto aguardamos, sessenta mil almas são oferecidas ao Grande Monstro em sacrifício. Todos os anos.

 

Mas, como também profetizaram os Titãs nos anos noventa…

 

“A morte não causa mais espanto.”

 

Até que ela chegue à nossa porta.

OS AMERICANOS E OS CARROS

Por eu mesmo:

Os Estados Unidos são o reino do automóvel. Desde que Henry Ford passou a produzi-los em série, os americanos se apaixonaram pelo veículo autopropulsor movido a motor de combustão interna. Através de um dos personagens de O Intruso, William Faulkner afirmou que  “o americano não ama realmente nada a não ser seu automóvel: nem a mulher e o filho nem seu país nem mesmo sua conta no banco”.

Talvez o vencedor do Nobel de Literatura tenha exagerado, mas o fato é que os carros são parte indissolúvel da cultura e da vida nos EUA. As estradas, cidades e até mesmo casas são projetadas em função deles: as pistas são largas, as garagens são na frente e, se, não há estacionamento, não há negócio (no parking, no business, eles dizem).

Pelas ruas americanas desfilam todos os tipos e modelos de carros que se pode imaginar: de velozes esportivos a poderosas picapes, passando pelos sedans de luxo, latas-velhas caindo aos pedaços, SUV’s, modelos clássicos, coupês conversíveis e enormes monster trucks.

Porém, o veículo mais impressionante para mim é, de longe, o ônibus escolar.

Sim, ele mesmo. O velho, famoso e amarelo ônibus escolar. Você já o viu, imortalizado nas telas do cinema, transportando o malandro Ferris Bueller em Curtindo a Vida Adoidado, ou levando Forest Gump, pai e o filho, de casa para a escola e no sentido inverso. Sim , o ônibus escolar é uma genuína instituição americana. O ônibus escolar atravessa as gerações.

O ônibus escolar é ubíquo e infalível; sua carcaça amarela, antiga e imponente, pode ser vista circulando ligeira por todos os lugares. Centenas de milhares de crianças americanas assentam diariamente seus traseiros infantis em seus bancos, sejam elas brancas, negras, amarelas ou vermelhas; o ônibus escolar não é racista. Não mais.

E ele impressiona por revelar um aspecto fundamental da cultura americana: o extremo cuidado e proteção dispensados às crianças. As crianças são uma espécie de semideuses nos Estados Unidos. O ônibus escolar carrega o maior tesouro do país: carrega sonhos e esperanças, investimentos e anseios. O ônibus escolar transporta potenciais campeões olímpicos, ganhadores de prêmios Nobel, presidentes. O ônibus escolar transporta o futuro, a perpetuação do american way of life e por isso é mais respeitado até do que as viaturas policiais; o ônibus escolar é uma espécie de soberano das pistas. Quando suas luzes traseiras começam a piscar, os veículos ao seu redor reduzem a velocidade; quando as luzes vermelhas acendem e a placa soberana ordenando STOP se abre, todos os carros, em todas as faixas (dependendo da pista, até mesmo os carros que trafegam no sentido contrário), param atrás dele e aguardam o embarque ou desembarque despreocupado das crianças; esta regra é tão severa que as crianças nem mesmo olham para os lados ao atravessar a rua quado descem do ônibus. Violar esta determinação é uma das infrações de trânsito mais graves nos Estados Unidos.

O cuidado com suas crianças revela o nível de desenvolvimento de um país; o ônibus escolar americano é um símbolo de proteção, uma declaração de valores.

Mas pode ser visto também como um aviso, quase uma ameaça. Algo do tipo:

“Nós protegemos nossas crianças por aqui. Tenham cuidado.”

Yes, be careful.

Be very careful.

 

 

SCHOOL BUS

Faça chuva ou faça sol, lá vai ele, a transportar o futuro de um país.

Então é Natal

Por eu mesmo:

 

Um dia o Pai olhou

E viu do alto os seus;

Tristes, Perdidos e sós.

Então disse o Filho:

“Eu vou”;

E desceu e habitou entre nós.

Então um Menino nos nasceu

E Nele vimos a Graça de Deus.

O Eterno habitou o Tempo.

O Etéreo se fez matéria.

O Princípio desceu ao Fim

E de novo subiu aos céus

Para mostrar o caminho

Para mim.

Para nós.

O Filho nasceu entre os homens

Para fazer deles irmãos.

Então brilhou nas trevas

a Luz;

Então,

Celebremos

JESUS.

NATAL