Artista alemão cria site para criticar selfies no Memorial do Holocausto

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Que nós vivemos a geração do selfie, todo mundo já está careca (eu, pelo menos, já estou beeem careca) de saber.

A falta de noção e de limite na busca pela selfie perfeita já levou idio… quer dizer, incautos a despencarem de precipícios e a serem destroçados por animais selvagens. A selfie é, atualmente, o esporte mais letal do planeta.

Mas o pessoal está perdendo também qualquer senso de decoro. De respeito.

Uma situação em particular estava incomodando o artista plástico israelense Shahak Shapira, radicado na Alemanha; a quantidade de babac… quer dizer, de pessoas desavisadas que tiravam selfies engraçadinhos e fofinhos no Memorial do Holocausto em Berlim destinados à nada saudosa e em tudo deplorável memória do Holocausto. Como alguém pode sorrir, em meio ao testemunho do Mal Absoluto?

Shapira, então, criou um site, o Yolocaust, no qual selecionou algumas fotos tiradas no local e publicadas em redes sociais como Facebook, Instagram, Tinder and Grindr; quando o usuário passa o mouse sobre a foto, ela passa a mostrar a pessoa retratada com um fundo de uma imagem dos tempos dos campos de concentração nazistas. Assim, uma garota pode surgir fazendo uma pose sorridente sobre uma pilha de cadáveres de judeus massacrados por Hitler. Sinistro.

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O nome do projeto, “Yolocaust”, é um jogo de palavras com “Holocausto” e “YOLO” acrônimo da expressão em língua inglesa “You Only Live Once” (“Você Só Vive Uma Vez”, em tradução livre).
Shapira deseja explorar “a nossa cultura de comemoração ao combinar selfies do Memorial do Holocausto em Berlim com imagens dos campos de extermínio nazi”. Ele lembra que aproximadamente dez mil pessoas visitam o Memorial aos Judeus Mortos da Europa todos os dias. “Muitas delas tiram fotos idiotas, pulam, andam de skate ou de bicicleta nos 2711 blocos de cimento” do local.
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Se um dos pate… quer dizer, se uma das pessoas retratadas entrar no site e se sentir incomodada, pode solicitar a retirada de sua foto através do email undouche.me@yolocaust.de (“Douche” significa “idiota”;”Undoucheme” é um neologismo que pode se traduzido como “desidiotize-me”).
Se você está entre elas, corre lá.
Ainda dá tempo de apagar essa vergonha da sua vida.

 

O DOENTE

Minha homenagem à tribo de doentes mais saudáveis do planeta:

 

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– Doutor, o caso é grave?

 

– Não sei. O que aconteceu?

 

– Ele estava trabalhando e, de repente, surtou!

 

– Surtou?

 

– É, doutor. Ele estava atendendo um cliente e, do nada, gritou “UHUUUUUUUUUU!”, subiu em cima da mesa e ficou ali, os braços esticados, se balançando todo e gritando: “Eu sou o Carlos Leite! Eu sou o Carlos Leite!”. Que raio de doença é essa? E quem será esse tal de Carlos Leite, doutor?

 

O médico abanou a cabeça. Está acontecendo de novo, pensou.

 

– Kelly Slater.

 

– Perdão, doutor?

 

– Não é Carlos Leite, é Kelly Slater. Ele dizia que era o Kelly Slater.

 

– Kelly quem?

 

O doutor olhou espantado para o sujeito. Então existe alguém neste mundão de meu Deus, velho e sem porteira, que não sabe quem é KS? Preferiu não comentar. Examinou com atenção o estranho paciente. Olhos: vidrados, distantes; mãos: trêmulas, nervosas. De vez em quando, balbuciava palavras desconexas: Grajagan, Chicama, Trestles… O diagnóstico era claro, e o doutor acertou na bucha:

 

– Isso é Delirium Surfens.

 

– ??????

 

– Síndrome de abstinência.

 

– Síndrome de abstinência?

 

– É.

 

– Mas abstinência de quê, doutor?

 

– De onda.

 

– De onda?

 

– Isso.

 

– Como assim, doutor?

 

– Você nunca reparou?

 

– Reparou em quê, meu Deus?

 

– Nos ombros largos, no andar balançado, na pele sempre tostada de sol, no eterno bom humor, no sorriso permanente e na felicidade no olhar do rapaz?

 

– Hum, não, nunca reparei.

 

O médico deu um profundo suspiro. Esse sujeito deve ser realmente muito infeliz. O diagnóstico:

 

– Esse pobre coitado é viciado em surfe.

 

– Viciado em surfe?

 

– Exatamente.

 

– E isso é grave?

 

– Imagina. Esse cara é até bem saudável.

 

– Mas e essa negócio de subir nas mesas e achar que é o Carlos Leite?

 

– Kelly Slater.

 

– Isso, Quélislaiteir. Isso não é perigoso? Contagioso?

 

– Não se preocupe. O paciente é inofensivo. Essas crises são muito comuns nessa época do ano. É que no verão não tem onda…

 

– E qual é o remédio, doutor?

 

– Hoje à noite, um bom filme de surfe, para acalmá-lo um pouco. E amanhã…

 

– Amanhã…

 

– Amanhã você o despacha para uma semana em Itacaré, e ele voltará novinho em folha.

 

– Só isso?

 

– Só isso.

 

– Okêi, doutor. Muito obrigado pela ajuda.

 

– Às ordens.

 

O homem já ia saindo, aliviado. De repente, lembrou-se de um detalhe, virou-se para o médico e perguntou:

 

– Doutor, e esse negócio aí, de ser viciado em surfe, tem cura?

 

O médico abriu um largo sorriso e exclamou:

 

– Graças a Deus, não!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O HORROR…

We are the hollow men...

We are the hollow men…

Por eu mesmo:

Joseph Conrad escreveu No coração das trevas (Heart of Darkness, 1902) a partir de sua experiência no Congo. Imbuído do nobre propósito de “abrir para a civilização a única parte do nosso globo onde o cristianismo ainda não penetrou e eliminar a escuridão que cobre a população inteira”, Leopoldo II, rei da Bélgica, iniciou o processo de colonização daquele país africano. A prática viria demonstrar que na verdade o maganão queria mesmo era se locupletar, encher as burras com o vil metal, exaurindo literalmente até o tutano as riquezas da colônia através da extração de ouro, borracha, diamantes e marfim. A obra retrata as atrocidades cometidas contra os “bárbaros” locais pelos “civilizados” belgas, e foi adaptada para o cinema em 1979 no magistral Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola. No filme, a ação foi transportada para a guerra do Vietnã; o personagem central continua sendo Kurtz; porém, ao invés de funcionário da Companhia, coletor de marfim, foi alçado ao posto de coronel, desertor do exército americano, provavelmente enlouquecido. Enquanto comanda com mão de ferro uma milícia e trucida seus oponentes, espetando suas cabeças em estacas espalhadas pela mata, Kurtz recita delicados versos de Hollow Men, de T. S. Elliot. Provavelmente, Conrad pretendia denunciar a maldade que habita a alma humana, apenas contida mediante freios impostos pela civilização; distante dos olhares repressores, da lei e demais freios, “no coração das trevas”, o verniz de humanidade escorre e a besta emerge em toda a sua crueldade, assombrando, assolando e oprimindo tudo o que cruza seu caminho, restando apenas nas palavras do próprio Kurtz, “o horror…”

O horror…

Quarta-feira, dois de setembro.

O corpinho miúdo de Aylan Kurdin, 3 anos de idade, é lançado pela maré numa praia da Turquia. Ele, seu irmão, de cinco anos, e sua mãe morreram afogados, juntamente com outras nove pessoas, quando a embarcação em que tentavam chegar à Grécia naufragou. Eles fugiam da violenta guerra civil que explodiu na Síria em 2011, já matou mais de 215.000 pessoas e expulsou mais de dois milhões de sírios de seu país. No bojo do conflito pela tomada do poder, ainda nas mãos sujas de sangue do ditador Bashar al-Assad, emerge  o grupo jihadista Estado Islâmico, que pretende converter, não apenas a Síria, mas todo o mundo num imenso califado.

O horror…

Na obra de Conrad, o horror era representado pela escravização e suplício dos negros; hoje, os extremistas do EI e do Talibã explodem ruínas arqueológicas e impõem aos olhos atônitos do mundo um desfile macabro de fuzilamentos, decapitações, apedrejamentos, sepultamento de pessoas vivas, escravização sexual de mulheres e uma vasta gama de atrocidades impensáveis.

A violência da colonização europeia na África decorreu da ganância; a violência do Estado Islâmico e congêneres procede da fé. Estes fundamentalistas acreditam ser sua missão divina converter ou exterminar os infiéis.

O horror…

A Europa foi protagonista do abjeto processo de colonização da África; aqueles eram outros tempos, aquele era outro mundo. Agora, diante do massacre na Síria, a Velha Senhora fecha suas fronteiras aos refugiados e lhes nega a oportunidade de escapar aos seus algozes. O Ocidente, Europa em particular, testemunham o surgimento de uma nova onda colonizadora. Ainda mais brutal, grotesca e bárbara. Agora, os colonizados somos nós.

Aylan Kurdin, em sua inocência infantil, seguramente não compreendeu o processo de violência que tirou sua vida. Apenas testemunhou a impotência, o medo e o horror nos olhos de seus pais, trágicos instantes antes de submergir.

Aylan, ceifado em sua inocência, descansa em paz.

Mas que sua morte não tenha sido em vão. Que o sacrifício de Aylan sirva para despertar a Humanidade de seu torpor. Antes que seja tarde.

O horror… o horror…