O DOENTE

Minha homenagem à tribo de doentes mais saudáveis do planeta:

 

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– Doutor, o caso é grave?

 

– Não sei. O que aconteceu?

 

– Ele estava trabalhando e, de repente, surtou!

 

– Surtou?

 

– É, doutor. Ele estava atendendo um cliente e, do nada, gritou “UHUUUUUUUUUU!”, subiu em cima da mesa e ficou ali, os braços esticados, se balançando todo e gritando: “Eu sou o Carlos Leite! Eu sou o Carlos Leite!”. Que raio de doença é essa? E quem será esse tal de Carlos Leite, doutor?

 

O médico abanou a cabeça. Está acontecendo de novo, pensou.

 

– Kelly Slater.

 

– Perdão, doutor?

 

– Não é Carlos Leite, é Kelly Slater. Ele dizia que era o Kelly Slater.

 

– Kelly quem?

 

O doutor olhou espantado para o sujeito. Então existe alguém neste mundão de meu Deus, velho e sem porteira, que não sabe quem é KS? Preferiu não comentar. Examinou com atenção o estranho paciente. Olhos: vidrados, distantes; mãos: trêmulas, nervosas. De vez em quando, balbuciava palavras desconexas: Grajagan, Chicama, Trestles… O diagnóstico era claro, e o doutor acertou na bucha:

 

– Isso é Delirium Surfens.

 

– ??????

 

– Síndrome de abstinência.

 

– Síndrome de abstinência?

 

– É.

 

– Mas abstinência de quê, doutor?

 

– De onda.

 

– De onda?

 

– Isso.

 

– Como assim, doutor?

 

– Você nunca reparou?

 

– Reparou em quê, meu Deus?

 

– Nos ombros largos, no andar balançado, na pele sempre tostada de sol, no eterno bom humor, no sorriso permanente e na felicidade no olhar do rapaz?

 

– Hum, não, nunca reparei.

 

O médico deu um profundo suspiro. Esse sujeito deve ser realmente muito infeliz. O diagnóstico:

 

– Esse pobre coitado é viciado em surfe.

 

– Viciado em surfe?

 

– Exatamente.

 

– E isso é grave?

 

– Imagina. Esse cara é até bem saudável.

 

– Mas e essa negócio de subir nas mesas e achar que é o Carlos Leite?

 

– Kelly Slater.

 

– Isso, Quélislaiteir. Isso não é perigoso? Contagioso?

 

– Não se preocupe. O paciente é inofensivo. Essas crises são muito comuns nessa época do ano. É que no verão não tem onda…

 

– E qual é o remédio, doutor?

 

– Hoje à noite, um bom filme de surfe, para acalmá-lo um pouco. E amanhã…

 

– Amanhã…

 

– Amanhã você o despacha para uma semana em Itacaré, e ele voltará novinho em folha.

 

– Só isso?

 

– Só isso.

 

– Okêi, doutor. Muito obrigado pela ajuda.

 

– Às ordens.

 

O homem já ia saindo, aliviado. De repente, lembrou-se de um detalhe, virou-se para o médico e perguntou:

 

– Doutor, e esse negócio aí, de ser viciado em surfe, tem cura?

 

O médico abriu um largo sorriso e exclamou:

 

– Graças a Deus, não!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Eu acredito!”: Mineiro adota o mantra atleticano e se (con)sagra campeão mundial. Contra todas as probabilidades!

MINEIRO

O campeão improvável. Valeu, Mineiro!

 

Por Paulo Marreco:

 

Adriano de Souza, o Mineirinho, não é o melhor surfista do mundo. Existem alguns que estão em um patamar superior a ele: Slater, Fanning, Florence, Medina e Filipinho, só para ficar em alguns, são melhores.

Mineiro sabe disso.

Ele reconhece o maior talento de seus adversários, reconhece a pouca plasticidade do próprio estilo; sabe que outros realizam com menos esforço aquilo que ele penou para aprender, aprimorar, lapidar. Em suma, Adriano conhece as próprias fraquezas, limitações.

Na disputa pelo título mundial, poucos acreditavam no brasileiro. Até porque havia outros brasileiros mais cotados.

Havia Fanning, tricampeão mundial, surfista excelente, atleta formidável, competidor feroz, faminto por mais uma conquista.

Havia Felipe Toledo, jovem fenômeno, talento puro e nato, surfista voador, provável futuro campeão.

Havia Medina, primeiro campeão mundial brasileiro, outra força da natureza.

Sim, poucos apostariam suas fichas em Mineiro.

Mas isso não importava.

Porque ele acreditava.

Muitos surfistas sonham em ser campeão mundial; mas, para o veterano Mineiro, o título era mais que um sonho: era uma obsessão.

Suas armas para conquistá-lo, contra todas as possibilidades, foram uma determinação extraordinária, uma obstinada busca pela excelência, uma preparação física e mental completa, além de um conhecimento pleno das regras do jogo.

Muitos almejam o título mundial; poucos o merecem tanto quanto Mineiro.

Adriano de Souza é a cara do Brasil que pode dar certo: profissional ao extremo, batalhador incansável, atleta dedicado, determinado, ético. Nestes tempos de corrupção desenfreada, Mineiro é um sopro de esperança que renova a nossa fé de que, sim, é possível.

Hoje, Adriano de Souza pode contemplar aquele reluzente troféu em sua estante e sorrir, aliviado, satisfeito com o fruto do seu glorioso trabalho.

Existem muitos excelentes surfistas no mundo; alguns são melhores do que o nosso Mineirinho.

Porém, campeão mundial só existe um.

E ele é Adriano de Souza.

Herança cinematográfica

Matéria bacana, sobre um baita filme, que mudou a vida de muita gente. Sem saber. Na Fluir:

Cena antológica do filme “Apocalypse Now” mostra soldados com suas pranchas de surf em plena zona de combate. Foto: Reprodução.

Herança cinematográfica

Em março de 1976, quando o cineasta americano Francis Ford Coppola pisou nas Filipinas pela primeira vez para as gravações de “Apocalypse Now”, ninguém imaginava que a vida de muitos filipinos iria mudar para sempre. Graças a uma cena do filme, alguns deles tiveram seu primeiro contato com o surf e vivem do esporte até hoje.

Por Bruno Abbud.

Lançada três anos depois, a trama ilustra os horrores da Guerra do Vietnã, mas o diretor resolveu gravar as batalhas num vilarejo pesqueiro chamado Baler, no norte do país vizinho, no sudeste asiático. Uma das cenas mais memoráveis mostra o coronel Kilgore, interpretado por Robert Duvall, cercado por sua tropa durante a noite, quando um dos soldados comenta que há ondas em território inimigo. Kilgore planeja surfar pela manhã num pico dominado por “charlies”, como os americanos chamavam os vietcongues no filme, e pede a outro subordinado que prepare sua 8’6” para a queda em “Charlie’s point”. O soldado avisa que pegar ondas por lá pode ser perigoso. Num literal grito de guerra, o coronel retruca: “Charlie don’t surf”. A sequência revela soldados dropando valas de meio metro sob fogo vietcongue, com direito a uma chuva de explosões no line-up.

Grandes astros como Marlon Brando, o próprio Robert Duvall e Martin Sheen costumavam perambular pelo vilarejo de Baler. Helicópteros contratados por Hollywood desfilavam rasantes entre nuvens de efeitos especiais no local transformado em cenário de guerra. Mas foram as cenas de surf que chamaram a atenção de Edwin Nomoro, um dos locais de Baler, à época com 10 anos. “Nós nunca tínhamos visto alguém surfando antes”, conta Nomoro. “Quando as filmagens acabaram, a equipe de produção deixou as pranchas, então eu e um amigo começamos a surfar. E nunca mais paramos”. Nomoro conta que nenhum morador do vilarejo sabia sequer o que era uma prancha. “Nós estudamos aquilo, e aprendemos.”

A praia de Baler hoje está repleta de hotéis e recebe turistas do mundo inteiro interessados em surfar em Charlie’s Point, como o pico ficou conhecido. Só em 2012 apareceram 50 mil turistas por lá. Nomoro aproveitou a fama trazida pelo filme e, hoje, aluga quartos e pranchas para visitantes de todos os continentes. Donny Cope, um gringo que montou sua pousada em 1997 e vive em Baler até hoje, resume o sucesso do pico. “Recebemos surfistas da República Tcheca, da Suíça e da França no ano passado”. O glamour de Baler refletiu em outras praias das Filipinas, como Surigao, La Union e Pagudpud, que pegaram carona no rastro célebre deixado por Hollywood. “Mas Baler ainda é o berço do surf nas Filipinas”, garante o guia turístico Mac Ritual.

Ficha Técnica:

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Apocalypse Now
Ano:
1979
Diretor: Francis Ford Coppola
Elenco: Martin Sheen, Robert Duvall, Marlon Brando, Dennis Hopper, Laurence Fishburne, Harrison Ford
Sinopse: O capitão Willard, interpretado por Martin Sheen (pai do ator americano Charlie Sheen), viaja ao Vietnã com a missão de matar o coronel Kurtz (Marlon Brando), que enlouqueceu e começou a montar um exército próprio para lutar contra os Estados Unidos nas selvas do Camboja. Em meio à guerra, Willard depara-se com situações inacreditáveis. Uma delas: soldados pegando ondas de longboard sob uma chuva de bombas vietcongues. A versão original foi remasterizada e o filme ganhou outro lançamento em 2001, com quase uma hora a mais de cenas inéditas.

Mineirinho quebra tudo em Bell’s. Até o sino.

Mineirinho quebrando em Bell's

Mineirinho quebrando em Bell’s

 

O surfista guarujaense Adriano “Mineirinho” de Souza venceu um dos eventos mais tradicionais do surfe mundial, o famoso Rip Curl Pro, a segunda etapa do World Tour, disputado nas lendárias direitas de Bell’s Beach, Austrália.

Em sua trajetória até o topo do pódio, Adriano de Souza mostrou versatilidade ao derrotar competidores ferozes e variados, passando pelo australiano bicampeão mundial Mick Fanning (também conhecido como Rato Branco) nas quartas de final; pelo sul-africano voador Jordy Smith na semi; e derrotando o (sinto muito, mas este é um daqueles trocadilhos irresistíveis) jovem Nat Young, a promessa americana, na grande final.

A vitória rendeu ao Mineirinho 75 mil doletas a mais na conta bancária e colocou o atleta em quarto lugar no ranking da ASP, atrás apenas de Kelly Slater (esse menino tem futuro), Mick Fanning e Taj Burrow. Além disso, Mr. De Souza escreveu seu nome na História do surfe brasileiro e mundial, ao se tornar o primeiro brasileiro a vencer o (lá vem mais trocadilho) badalado evento em Bell’s.

Mineiro ficou tão feliz com a vitória que, ao badalar o troféu em forma de sino, acabou desmontando a peça.

É isso aí, Mineiro. Quebra tudo!

A VELHA SENHORA

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Por Paulo Marreco (o título é emprestado de um conto de Borges):

 A verdade era que ela sempre detestara o surfe. Achava o fim da picada que um homem feito pudesse se dedicar a uma coisa tão irrelevante, uma brincadeira de adolescentes desocupados e irresponsáveis. Coisa de vagabundo, pensava; esses rapazes não querem saber de nada, só querem ficar por aí, na praia, com suas pranchas, atrás das menininhas, cheirando droga. Apenas tolerava a paixão dele pelo esporte porque o amava como nada neste mundo; mas nunca aceitou que ele dedicasse tanto tempo à sua paixão pelo mar.

Mas, no fundo, sabia, o que a incomodava realmente era ficar longe dele. Quando ele saía para surfar, seu coração apertava de saudade. Contava cada minuto esperando sua volta; morria de preocupação em saber que seu homem estava em algum lugar lá fora, desafiando o poder do oceano em cima de um mero pedaço de pau (ria por dentro, lembrando quantas vezes ele explicou que a prancha era feita de poli-não-sei-o-quê e fibra de vidro); morria de ciúmes por saber que na praia havia um monte daquelas jovens sereias douradas de sol, desfilando seus corpos perfeitos esculpidos pelo surfe e bodyboard diante do seu amado. Não conseguia acreditar, por mais que ele declarasse, por mais que ele demonstrasse só ter olhos, ouvidos, coração e pensamentos para ela; não conseguia acreditar que aquela ânsia por estar na praia o maior tempo possível era simplesmente a manifestação visível de um sentimento profundo, de um amor enorme e irresistível pelo surfe e pelo mar.

No início, acompanhava-o contrariada quando ele ia surfar. Começou a dizer que precisava estudar, que precisava fazer isso ou aquilo, que ele fosse sozinho mas que não demorasse. Depois de algum tempo, dizia sentir as dores mais variadas para ficar em casa e mantê-lo ao seu lado. Com o nascimento do primeiro filho, ficou mais fácil prendê-lo em casa. Com o segundo, afastou-o praticamente de vez do seu esporte adorado. Ora era o mais novo que estava com uma febrezinha, ora o mais velho precisava ir ao médico, e assim foi conseguindo mantê-lo longe do surfe; o golpe de misericórdia foi quando o pequeno Davi caiu da prancha e cortou o rosto. Desde então, ela teve um belo pretexto para não deixar que ele levasse as crianças com ele; e, para não perder momentos preciosos na companhia dos filhos e da mulher, o homem foi se afastando aos poucos do esporte que para ele era quase uma religião…

Ficava tão satisfeita de ter vencido a cruenta batalha que imaginava travar com o surfe pela atenção dele que nem reparou que o brilho, aquele brilho nos olhos que a tinha cativado quando o conhecera, ia pouco a pouco se desvanecendo, juntamente com aquele sorriso até então perene. Aquele brilho nos olhos e aquele sorriso que o mantinham jovem apesar dos sulcos que iam surgindo em seu rosto e dos cabelos que iam encanecendo e do tempo e das batalhas da vida, aquele brilho e aquele sorriso que tinham resistido mesmo diante das maiores dificuldades e das grandes tempestades e crises que enfrentaram juntos. Aquele brilho começava a se apagar, substituído por uma profunda e sombria melancolia…

Não percebeu que, aos poucos, a disposição, a força e o vigor que nele pareciam inesgotáveis foram se esvaindo, como se as juntas daquele corpo necessitassem de água salgada para serem lubrificadas, como se a luz solar fosse a energia que recarregava aquele coração tão cheio de vida, mas que ia cansando; não percebeu que, longe do mar, seu corpo, seu coração e sua alma ressecavam, que sua espinha pouco a pouco se curvava ante o peso, não do tempo ou da idade, mas da saudade do seu elemento. Não percebeu que ele passou a acordar tarde e a ficar muito tempo, tempo demais, diante da TV, olhos vazios perdidos diante de uma tela estéril… Não percebeu que, enfim e de repente, envelheceu todos os anos que se recusara a envelhecer quando ainda podia através do surfe combater o avançar do tempo sobre sua carne.

Até que ele se foi. Inesperadamente, sem aviso, deixando-a só, perdida, sem chão. O amor da sua vida partiu, deixando em seu lugar um grande vazio. Passou a viver para as crianças, mas a saudade a consumia a cada dia.

Os meninos cresceram. Tornaram-se homens responsáveis e respeitáveis como o pai. Tiveram filhos. Um dos netos descobriu a velha prancha jogada no fundo da garagem. Começou a surfar, em homenagem ao avô que não conheceu. A avó, que sempre torcera o nariz para o esporte das ondas, passou a acompanhar o garoto. Sentava-se na areia e ficava horas contemplando aqueles jovens deslizando sobre as ondas. Em cada um deles via o seu homem; cada sorriso jovial estampado naqueles rostos era o sorriso do seu amado; cada olhar repleto de satisfação relembrava a felicidade que ele demonstrava quando estava ali vivendo aquela experiência única.

Envelheceu, como era natural. Ainda costumava ir à praia assistir a dança dos surfistas sobre as ondas. Os cabelos brancos esvoaçavam, o rosto sulcado de rugas sentia o afago do vento, o corpo enfraquecido agradecia o calor do sol, a visão do oceano azul era um alento para os olhos cansados; hoje, agradecia aos céus a dádiva de vivenciar aquela exuberância, aquele espetáculo da vida que era uma sessão de surfe.

A velha senhora tinha saudades do amado da sua alma. Não desejava a morte, mas sabia que seu dia se aproximava. Vivia da melhor forma possível. Esperava com certa ansiedade e alguma desconfiança o momento derradeiro. Desejava que esse dia fosse também um reencontro. Se tivesse essa chance, gostaria de dizer a ele que sentia muito.

Sentia muito e, agora, finalmente compreendia…

O Surfista Solitário

por Paulo Marreco. No Ondaon.

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Expresso balinês: não; aqui é Regência. Flávio Ferreira colocando no trilho. Foto: Celso Júnior.

 

NA COMUNIDADE DO SURFE, todos o conheciam. Ou melhor, ninguém o conhecia realmente; mas todos os surfistas, longboarders e bodyboarders da região já o tinham visto, ou já tinham ouvido falar dele. Sim, porque, vê-lo, era relativamente fácil; bastava ser o primeiro a chegar à praia onde quebrassem as melhores séries do dia, e olhar para o line-up; ele certamente já estaria no outside, surfando as primeiras ondas. Depois, quando a maré enchia ou vazava demais, ou o vento apertava, bagunçando as valas, ele desaparecia completamente, até que as condições voltassem a ser as melhores. Aí, era olhar para o lado, e lá estava ele, descendo a rainha da série. Por mais que a praia estivesse repleta de surfistas, e por mais que os maiores profissionais do esporte estivessem disputando braçada a braçada as ondas, a melhor do dia, a maior do dia, todos sabiam, seria invariavelmente surfada por ele. Pelo Surfista Solitário.

E como ele surfava! O estilo era clássico, de linhas harmônicas, limpas, arredondadas; o repertório de manobras incluía uma apurada colocação para os tubos, e os mais variados e inovadores aéreos. Deslizando sobre sua prancha, totalmente à vontade em seu elemento, o Surfista Solitário não surfava: tirava o Oceano para uma dança.

Sua prancha era branca como a neve, sem longarina, sem logotipos, sem assinatura de nenhum shaper famoso.

Não falava com ninguém; apenas sorria para todo mundo. O pessoal achava mesmo que o estranho surfista fosse surdo-mudo.

Nunca disputava campeonatos, apesar de ser considerado por todos um potencial campeão.

Jamais foi visto comendo ou bebendo nada. Ninguém sabia nada sobre ele; seu nome, de onde era, onde morava, o que fazia da vida, há quanto tempo surfava. Não aparentava ter mais do que trinta, trinta e poucos anos, porém todos os garotos cresceram assistindo suas performances inspiradoras. Muitos tentavam imitar seu estilo, porém ele era inimitável. O Surfista Solitário era um mistério completo, uma verdadeira lenda urbana da tribo do surfe.

Pancho acampou sozinho em Regência. Não acreditava em lendas. Estava determinado, não somente a ser o primeiro a cair no mar, como a desmistificar o tal Surfista Solitário. Quando este chegasse à praia, veria as pegadas de Pancho na areia, e olharia para o mar e o veria surfando na primeira onda, pegando um belo tubo em sua homenagem. Aí, teria comprovado que o tal Surfista era um cara normal, com disposição além do comum para acordar cedo, nada mais que isso.

Não conseguiu dormir direito; o forte rugido que vinha do mar prenunciava um dia de ótimas ondas. Muito antes do nascer do Sol, já estava de pé, aguardando que os primeiros raios iluminassem a vastidão da praia. Olhava impaciente para o oceano, que se escondia atrás de uma espessa neblina. Assim que o primeiro brilho iluminou o horizonte, começando a dissipar a negrura de uma noite sem lua, e sem ainda conseguir divisar as ondas no outside, Pancho lançou-se ao mar. O estrondoso bramido das ondas vibrava cada fibra de seu corpo; ele devia se preparar para encarar ondas pesadas.

Seu coração batia forte de expectativa, pelas ondas e pelo encontro que, estava certo, teria em breve com o misterioso Surfista.

As primeiras espumas o atingiram, dando-lhe uma noção da potência do oceano naquela manhã; foi arrastado alguns metros para trás, e precisou remar com bastante força para vencer a arrebentação. Depois de vários minutos e incontáveis ondas vencidas com a técnica do joelhinho, Pancho chegou ao ponto que julgou ser o line-up, o local onde estariam quebrando as ondas. Ainda não enxergava muito bem, pois a névoa matinal embaçava sua visão e ocultava o tesouro que ele buscava naquela praia até então deserta; mas, assim que a primeira onda levantou-se diante dele, percebeu que o mar estava maior e mais tubular do que havia imaginado. Deixou que a onda passasse, pois notou que ela se fecharia completamente. Posicionou-se mais à frente, porque as vagas estavam quebrando vários metros ao fundo. Esperou alguns minutos. Nem sinal do Surfista Solitário. O sol começava a vencer a eterna batalha, expulsando momentaneamente a escuridão, pelo menos até o fim do dia. Haverá um dia em que as trevas prevalecerão, pensou; mas não será hoje. Sentiu um arrepio, ao se dar conta de que estava sozinho, no meio do mar, em uma praia distante. O denso nevoeiro conferia ao lugar um aspecto bastante sinistro. Uma tartaruga ergueu a enorme e antiga cabeça para respirar, e Pancho imaginou quantos anos de vida o quelônio teria vivido a mais do que ele, e imaginou os lugares profundos e misteriosos que a tartaruga teria conhecido percorrendo os mares da vida.

Subitamente, todas essas reflexões desapareceram, sacudidas por uma grande massa d’água que se ergueu ainda mais ao fundo. Pancho só conseguiu distinguir a extensa parede quando ela já estava bem perto dele. Remou furiosamente em sua direção, certo de que aquela seria uma ótima onda para começar o dia e acabar com a lenda do Surfista Solitário. Remou forte, decidido, para a esquerda, visando posicionar-se mais na rabeira da onda; virou a prancha, quando a portentosa vaga, maior do que ele imaginava, dobrou-se sobre si mesma formando um imenso tubo. Agarrou as bordas da prancha e posicionou os pés sobre ela; entretanto, a onda era muito rápida, de maneira que a prancha descolou-se da face e o surfista dropou no vazio, sendo arremessado na base; em seguida, rodou junto com o lip, sendo lançado ao fundo. Ficou vários segundos ali, esmagado pela força descomunal. A cordinha enrolou-se em suas pernas, tolhendo seus movimentos; então, o que seria a onda perfeita transformou-se em um pesadelo debaixo da superfície. Em lugar de preocupar-se em surfar, Pancho agora lutava para sobreviver. Foi virado e revirado no turbilhão de espuma, enquanto seu fôlego ia se esvaindo. Perdeu a noção de onde era o fundo, e onde era a superfície; abriu os olhos para guiar-se pela claridade. A prancha esticava a cordinha mantendo suas pernas imóveis, inúteis.

O surfista tentou manter a calma; entretanto, o ar em seus pulmões ia acabando rapidamente. Pancho se debatia, tentando livrar-se, tentando atingir a superfície, mas o esforço era em vão. Por mais que tentasse, nem saía do lugar.

Seu peito começou a arder. Era questão de segundos até que, mesmo contra o comando de sua mente, abrisse a boca e sorvesse por reflexo uma grande quantidade de água ao invés de ar, e então seria o fim. Olhou mais uma vez na direção da claridade, como quem se despede.

Foi quando a mão salvadora agarrou-lhe os cabelos e puxou-o para cima, para a luz, para a superfície, para a vida. Pancho agarrou-se àquela mão como um náufrago; agarrou-se como se fosse a própria mão de Deus. Assim que chegou à tona, escancarou a boca, sugando com força e ruidosamente uma enorme quantidade de ar, até que seus pulmões estivessem completamente cheios. Não podia acreditar que estivesse salvo! Quem poderia ter chegado até ele assim, do nada, tão subitamente, no último instante?

Virou-se para trás, olhos esbugalhados pelo terror passado, mas já imaginava quem seria o seu salvador.

Estava certo. Não poderia ser outro, afinal. Ali estava ele, o lendário, o misterioso Surfista Solitário. O providencial Surfista Solitário. Pancho não disse nada; palavras não eram necessárias nem apropriadas para um momento como aquele. O Surfista compreendia; afastou-se com aquele sorriso de sempre, que agora Pablo sabia identificar. Era o sorriso da bondade e da pureza. Adiante, pegou uma onda perfeita e desapareceu.

De volta à praia, Pancho chegou ao fim de sua jornada desmistificadora. Estava assustado, mas feliz. Feliz por estar vivo, e feliz por compreender.

Sua jornada para descobrir quem era o Surfista Solitário terminou. Ele tinha uma resposta, diferente, melhor do que aquela que imaginara obter.

Ele sabia, agora, que o Surfista Solitário era, na verdade, um anjo. Um emissário dos Céus para a proteção da tribo das ondas. O anjo da guarda dos surfistas, a quem Deus quer bem.

Um anjo que sabia aproveitar bem as horas de folga!

P.S.: Este foi o primeiro conto de surfe que escrevi, há trocentos (uns três ou quatro, sei lá) anos atrás…

A metamorfose da metamorfose

Por Paulo Marreco. No Waves:

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Uma manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si  na cama transformado num gigantesco inseto. E se Gregor Samsa, personagem central do livro A Metamorfose, de Franz Kafka, fosse surfista? Imaginemos:

 

Gregor Samsa acordou sobressaltado. Tivera um sonho pavoroso: sonhara que havia se transformado numa barata gigante e asquerosa, e que agora era rejeitado por todos. Suspirou aliviado assim que acordou e percebeu que tudo aquilo fora apenas um sonho disparatado. Acho que exagerei no caldo de mocotó ontem à noite, pensou. Enquanto sacudia as estranhas sensações produzidas pelo amontoado de imagens, pelo enredo sem lógica, mas extremamente convincente (afinal, por mais que o sonho seja uma história sem pé nem cabeça, enquanto estamos dormindo, ele sempre nos parece coerente), do insólito sonho, percebeu que tinha sede; ah, mocotó arretado! Além de sede, sentia calor, muito calor.

 

Entreabriu os olhos, mas não enxergou nada; o quarto estava como ele gostava; completamente escuro. Deve estar quase na hora de ir para a faculdade. Ai, que preguiça; que vontade de matar aula e pegar onda! Mas, nem pensar; as provas finais estão chegando, e eu preciso tirar nove, senão levo bomba em Processo Civil! E aquele professor miserável implica comigo só porque eu sou surfista e, ao invés de prestar atenção na aula, fico só azarando as gatinhas da sala…

 

Êita sonho esquisito… Virei barata! Vê se pode! Tava eu lá, um baratão gigante, mamãe chorando, papai todo estressado, até o professor Flávio entrou na dança… Acho até que tem um livro assim, como é mesmo o nome? A Metamorfose, se não me engano, só que o cara virava uma cobra, ou um sapo, ou um monstro verde, tipo o Hulk, sei lá… Acho que eu preciso ler mais… Bom, vamos nessa, que a hora é essa!

 

Quando foi se espreguiçar, levou um susto: não sentiu os membros; nenhuma sensação nas mãos, nos pés, nas pernas, nos braços, nada! Aliás, sentia um estranho formigamento que percorria seu corpo. E a sede que apertava sua garganta.

 

Tentou olhar para baixo e examinar os membros, mas não conseguiu; sentiu o pescoço duro, sem mobilidade; tentou se apalpar, mas os braços realmente não respondiam aos comandos do cérebro. Começou a ficar preocupado; será que eu estou ficando paralítico? Deus me livre!

 

A estas alturas, a luz do sol principiava a se infiltrar pelas frestas da persiana e expulsava lentamente as trevas noturnas. Ouviu um murmúrio vindo de trás da porta, mas o som era muito baixo; seria sua mãe, chamando-o para a aula? Achou que sim, e foi responder: já vou, mãe.

 

Ficou apavorado com o som que saiu de sua boca: uma série de guinchos agudos, ininteligíveis; nenhuma palavra articulada, mas um som que ele já ouvira antes, porém não conseguia identificar; só sabia que aquela, decididamente, não era sua voz. O que está acontecendo comigo? Porque eu não consigo mexer os braços? Porque eu não consigo falar? E esse calor, e essa sede?! Que doença será essa?

 

Resolveu que tinha que levantar-se. O cérebro ordenou novamente aos braços e pernas que se movessem; novamente, a desobediência dos membros. Mas agora ele estava decidido a sair daquela cama. Talvez estivesse sonhando ainda, aquele tipo angustiante de sonho, em que tentamos correr, mas não saímos do lugar, ou tentamos falar e não conseguimos abrir a boca. Esse tipo de sonho deve ter algum significado. Quando eu acordar, vou fazer uma pesquisa, só para saber… Percebendo que seus membros amotinados não se moveriam, começou a sacudir o corpo, balançando-se freneticamente, convulsivamente, até que caísse no chão, até que acordasse do desvario.

 

Caiu, mas não acordou. Sentiu dores por todo o corpo, já que não conseguiu mover os braços para amortecer a queda. Sentiu-se impotente, inválido. Indefeso. Começou a se debater numa tentativa desesperada e vã de levantar-se; foi quando olhou para a porta aberta do armário. O que viu fez seu coração gelar: ali, refletido no espelho, no lugar onde deveria estar um surfista, um universitário de dezenove anos, o filho querido de Dona Nair, havia…    

 

Um golfinho!

 

Isso mesmo: Gregor Samsa estava transformado em um golfinho! Mas, como era possível? Ninguém saberia; como é possível alguém ser transformado em barata? Como é possível ninguém morrer numa certa nação? Ou uma cegueira branca assolar a população de outro país? Como é possível padres levitarem movidos por chocolate? E, o mais intrigante, que sede ardente é essa, que calor é esse?

 

Gregor Samsa, o surfista, nada sabia destas coisas; não sabia se isso era possível, nem se esta era a primeira vez que tal fato acontecia, nem se seria a última; a única coisa que sabia no momento era que ele foi dormir gente, e acordou golfinho.

 

Contemplou o seu novo e estranho eu no espelho, ao mesmo tempo estarrecido e admirado de suas novas formas.

 

Foi quando percebeu que aquela transformação bizarra poderia ser a realização de seus mais delirantes sonhos.

 

Sim! Como golfinho, poderia desfrutar, com total liberdade, de quantas ondas desejasse! Com aquele corpo delgado, com aquelas poderosas nadadeiras, dominaria completamente qualquer pico da região. Da região, nada: do planeta! Agora, ele é que seria o verdadeiro local, em qualquer praia. Nunca mais teria que se submeter à vontade daqueles trogloditas bombados otários, que se achavam os donos do pedaço. Expulsaria a focinhadas, mordidas e rabeadas, qualquer um que se aventurasse em seus domínios. Surfaria as melhores ondas na Joaca, em Saquá, Itacaré…

 

Quanto será que um golfinho consegue nadar? Surfaria Jeffrey´s, G’Land, Chicama, Pipe… Nada, para que ir até o crowd? Desbravaria ondas perfeitas e desertas, nunca dantes navegadas nem surfadas, nos cantos mais inóspitos do globo…

 

Subitamente, se deu conta de que havia um problema em realizar seu novo projeto de surfe: da mesma maneira que um corpo humano não é feito para habitar os mares, corpos de golfinhos não são exatamente os mais apropriados para a vida em terra firme: se Gregor não conseguia nem mesmo ficar de pé, como seria capaz de pegar um carro e dirigir até a praia? Não conteve um sorriso ao imaginar o espanto do guarda de trânsito ao multar um golfinho por dirigir em velocidade acima do permitido…

 

Mas o sorriso durou pouco. Foi substituído por uma angustiosa sensação de falta de ar. Quanto tempo um golfinho suporta viver fora d’água? Gregor estava prestes a descobrir. Seus pulmões ardiam, sentia o mundo girar; diante de seus olhos, pontinhos brilhantes borboleteavam, anunciando que sua mente estava prestes a mergulhar na inconsciência. Para sempre. Adeus, mãe, pai, perdoem qualquer coisa; adeus Letícia, meu amor; eu azarava todas, mas eu gostava mesmo era de você… será que no céu tem onda? Será que eu vou para lá? Será que… será… se…

 

O surfista metamorfoseado em golfinho expirou, sozinho no seu quarto semi-iluminado pelos raios de sol que anunciavam, após tanto tempo, um belo dia.        

 

Foi assim que, numa insólita manhã de inverno, Gregor Samsa, o surfista, deixou este mundo. Até hoje, seus pais buscam pistas do psicopata que teria seqüestrado seu amado filho, deixando em seu lugar o cadáver ressecado de um golfinho.