Então é Natal

Por eu mesmo:

 

Um dia o Pai olhou

E viu do alto os seus;

Tristes, Perdidos e sós.

Então disse o Filho:

“Eu vou”;

E desceu e habitou entre nós.

Então um Menino nos nasceu

E Nele vimos a Graça de Deus.

O Eterno habitou o Tempo.

O Etéreo se fez matéria.

O Princípio desceu ao Fim

E de novo subiu aos céus

Para mostrar o caminho

Para mim.

Para nós.

O Filho nasceu entre os homens

Para fazer deles irmãos.

Então brilhou nas trevas

a Luz;

Então,

Celebremos

JESUS.

NATAL

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Lira dos (nossos) vinte anos

LINCOLN ZOO 08

Lá se vão vinte anos.

Eu (ainda) tinha (algum) cabelo. Preto.

Tinha um corpo seco de surfista, triatleta e lutador.

Tinha barriga tanquinho.

E dinheiro? Dinheiro, não. Dinheiro eu não tinha.

Mas tinha um vazio e um desejo e um sonho.

E então você veio.

Visão de quem sonha desperto,

Nuvem de chuva no deserto.

E choveu.

Então, adeus, vazio.

Permanecem o desejo e o sonho:

Pois agora não estou sozinho.

Lá se foram os cabelos,

Lá se vão vinte anos,

Lá vamos nós,

De novo,

Prontos para mais vinte,

Juntos como sempre.

Te amo, Letícia Marreco.

Quem escreve para as massas ou para a crítica arrisca-se a perder a eternidade

Por João Pereira Coutinho, na Folha:

 

Os meus escritores vivos preferidos? Cito três de memória: Peter Constable, María Ligia Perez e o brasileiro João Mario Aquino. O leitor nunca ouviu falar?

Curioso. Nem eu. Para dizer a verdade, inventei os nomes ao correr da pena só para ilustrar uma hipótese: e se os melhores escritores do nosso tempo não forem aqueles que o nosso tempo considera os melhores escritores?

Eis a tese que Chuck Klosterman defende no último livro (“But What If We’re Wrong?”, “e se estivermos errados?”). Duas coisas importantes: Chuck Klosterman existe mesmo e, infelizmente, não é lido com a atenção que merece.

O livro é uma permanente investigação às nossas noções de certeza. Sim, cientificamente falando, tudo é uma “busca sem fim”, como diria o filósofo. O mundo de Ptolomeu parece-nos tão risível como as nossas certezas científicas serão um dia.

Mas Klosterman aplica o raciocínio à “indústria cultural” (peço desculpa pela expressão brega) e, em particular, ao supremo mundo da vaidade literária.

Escrevem-se milhares, milhões de livros por ano. A crítica escolhe uns poucos -por razões justas ou injustas, tanto faz. De fora, fica uma legião de anônimos que publicam na sombra, vivem na sombra e morrem na sombra. Sem falar dos autores “populares”, consumidos pelas massas mas ignorados pelas “elites”.

Pois bem: esses poucos -os eleitos, digamos- acreditam que a consagração “oficial” será uma consagração eterna. Esse raciocínio ignora um pormenor fulcral: o que é importante aos olhos letrados do nosso tempo não será necessariamente importante em tempos posteriores.

Chuck Klosterman defende, e defende bem, que a leitura é também uma forma de criação. A relevância e até a imortalidade de um escritor depende sempre do mundo futuro: das suas referências ideológicas, estéticas ou morais.

O americano Herman Melville é um caso instrutivo: quando publicou “Moby Dick”, em 1851, a crítica afastou-se do autor com repugnância (e os leitores fizeram o mesmo). O “flop” acabaria por determinar a triste existência que Melville teve na fase final da vida.

Passaram décadas. E foi preciso a emergência de uma nova sensibilidade modernista, depois da Primeira Guerra Mundial, para que Melville fosse resgatado do silêncio -e o seu “Moby Dick” eleito como o romance americano por definição.

E que dizer de Franz Kafka? Verdade: o escritor era menos obscuro do que pensamos. Lido e até escutado pelos seus colegas literatos, as histórias de Kafka eram recebidas em lágrimas (de riso) pelo absurdo dos seus enredos.

Foi preciso a destruição material e moral da Europa para que as histórias de Kafka passassem a ser prenúncios de um mundo sombrio, burocrático, totalitário, onde a liberdade individual é esmagada.

Para Chuck Klosterman, é possível conjecturar que o grande escritor do nosso tempo é ainda um nome desconhecido, ou então (mal) conhecido e (mal) apreciado.

Concordo -até certo ponto. Porque é importante lembrar que casos como os de Melville ou Kafka podem ser derrotados por outros nomes consagrados na sua época -e na nossa. Tolstói ou Dickens são candidatos óbvios.

Existe um ponto, porém, em que concordo com ele sem reservas: se o passado ensina alguma coisa é que a universalidade de um escritor depende do equilíbrio sutil entre uma visão talentosa do seu tempo e a relevância dessa visão para tempos posteriores.

Ou, inversamente, um escritor que ignora a realidade circundante, preferindo uma prosa artificialmente “intemporal”, dificilmente será intemporal. Lemos Tolstói ou Dickens para conhecermos mundos distintos -a Rússia e a Inglaterra do século 19-, mas também porque Pierre Bezukhov ou Mr. Scrooge continuam a representar a nossa busca de sentido para a vida e o papel da consciência na nossa conduta.

Klosterman arrisca mesmo uma lista de temas incontornáveis para um escritor atual -a nossa definição, ou indefinição, de privacidade; a relutância em abandonar a adolescência para evitar a vida adulta; o impacto da tecnologia nas relações sociais; etc. -desde que nada disso seja trabalhado de forma óbvia.

Não vou tão longe e dispenso essas listas. Prefiro concluir que os aplausos da crítica ou das massas podem fazer bem ao ego -ou à bolsa. Mas quem escreve para as massas ou para a crítica arrisca-se a perder a eternidade.

FRAGMENTOS

MALONE MORRE

Em Malone Morre, de Samuel Beckett:

E se algum dia me calar é que não haverá mais nada a dizer, mesmo que tudo não tenha sido dito, mesmo que nada tenha sido dito. Mas deixemos aí essas questões mórbidas e retornemos à do meu falecimento, daqui a dois ou três dias se não me falha a memória. Então estará acabado com Murphys, Merciers, Molloys, Morans e outros Malones, a menos que isso continue no além-túmulo. Mas nada de complicar as coisas, defuntemos primeiro, depois descobriremos.

FRAGMENTOS

LIVRO

MUDANÇAS IMUTÁVEIS (À MANEIRA DOS… CHINESES) – por Millôr Fernandes:

Se você não consegue fugir, você é muito corajoso

 

Olin-Pin, abastado negociante de óleos e arroz, vivia numa imponente mansão em Kin-Tipê. Sua posição social e sua mansão só não eram perfeitas porque, à direita e à esquerda da propriedade, havia dois ferreiros que ferravam ininterruptamente, tinindo e retinindo malhos, bigornas e ferraduras. Olin-Pin, muitas vezes sem dormir, dado o tim-pin-tin, pan-tan-pan a noite inteira, resolveu chamar os dois ferreiros e ofereceu a eles 1.000 ienes de compensação, para que ambos se mudassem com suas ferrarias. Os dois ferreiros acharam tentadora a proposta (um iene, na época, valia mil dólares) e prometeram pensar no assunto com todo empenho. E pensaram. E com tanto empenho que, apenas dois dias depois, prevenidamente acompanhados de advogado, compareceram juntos diate de Olin-Pin. E assinaram contrato, cada um prometendo se mudar para outro lugar dentro de 24 horas. Olin-Pin pagou imediatamente os 1.000 ienes prometidos a cada um e foi dormir feliz, envolvido em lençóis de seda e adorável silêncio. Mas no dia seguinte acordou sobressaltado, os ouvidos estourando com o mesmo barulho de sempre. E quando ia reclamar indignadamente pela quebra do contrato, verificou que não tinha o que reclamar. Os dois ferreiros tinham cumprido fielmente o que haviam prometido. Ambos tinham se mudado. O ferreiro da direita tinha se mudado pra esquerda, e o da esquerda tinha se mudado pra direita.

 

MORAL: Cuidado quando a esquerda e a direita estão de acordo.