Fragmentos

A carta de Nikoluchka foi lida uma centena de vezes, e todos que eram
considerados dignos de a ouvir foram convocados perante a condessa, que a tinha
sempre consigo. Quando vieram os preceptores, a ama Mitenka e muitas outras
pessoas conhecidas a condessa leu-lhes a carta sempre com renovada satisfação e
de cada vez descobria novas qualidades no seu Nikoluchka. Era para ela qualquer
coisa de estranho e de extraordinário e ao mesmo tempo um motivo de alegria
que aquele filho, que ela sentira remexer nas suas entranhas vinte anos antes,
aquele filho, motivo de não poucas discussões com o conde, que o estragava com
mimos, aquele filho a quem ela ensinara a dizer «grucha» e «baba», aquele filho
estivesse agora lá longe, num país estrangeiro, no meio de estranhos, e que só,
sem ninguém que o ajudasse ou guiasse, se comportasse como um guerreiro
corajoso e ai desenvolvesse uma atividade de soldado destemido. Para ela, a
experiência dos séculos, que nos ensina que as crianças se fazem homens por um
insensível pendor, era coisa que não existia. A transformação operada no filho
afigurava-se-lhe tão extraordinária que era como se milhões e milhões de homens
não houvessem obedecido ao mesmo destino. Tal qual como vinte anos antes,
quando aquele pequeno ser andava, dentro dela, e ela pensava que nunca ele se
lhe dependuraria do seio ou que nunca seria capaz de vir a falar, também agora
lhe parecia impossível que esse mesmo pequenino ser fosse um homem vigoroso e
valente, modelo de filhos, soldado exemplar como se depreendia das palavras da
sua carta.

Guerra e Paz, Leon Tosltoi

tolstoi

Lira dos (nossos) vinte anos

LINCOLN ZOO 08

Lá se vão vinte anos.

Eu (ainda) tinha (algum) cabelo. Preto.

Tinha um corpo seco de surfista, triatleta e lutador.

Tinha barriga tanquinho.

E dinheiro? Dinheiro, não. Dinheiro eu não tinha.

Mas tinha um vazio e um desejo e um sonho.

E então você veio.

Visão de quem sonha desperto,

Nuvem de chuva no deserto.

E choveu.

Então, adeus, vazio.

Permanecem o desejo e o sonho:

Pois agora não estou sozinho.

Lá se foram os cabelos,

Lá se vão vinte anos,

Lá vamos nós,

De novo,

Prontos para mais vinte,

Juntos como sempre.

Te amo, Letícia Marreco.

Por que você escreve?

Por eu mesmo:

 

ESCREVER

Por que você escreve?, do alto da torre semeia aos quatro ventos cibernéticos o Poeta Silencioso.

Por que você escreve?, reverbera em meus ouvidos num sussurro o Acaso que também se chama Deus, o Absoluto Que Tem Muitos Nomes.

Vislumbro ao longe o Poeta Branco; sensato o bastante para me saber indigno da pergunta, ainda assim, soberbo, respondo:

Escrevo porque “toda vida merece um livro” (Mario Vargas Llosa).

Escrevo porque “Estarei em breve apesar de tudo completamente morto enfim” (Samuel Beckett).

Escrevo porque “breve saberei quem sou” (Borges!).

Escrevo porque “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus”(Evangelho segundo João).

Quatro singelos exemplos do inextricável, imensurável poder da Palavra.

Sim, escrevo porque há poder na Palavra. Porque a Literatura, que é Palavra, é assombro, é espanto, é maravilha.

Escrevo porque almejo assombrar, espantar, maravilhar.

Escrevo porque almejo a glória. Porque almejo a palma e a lágrima.

Ou seja, escrevo porque sou tolo.

 

Fragmentos

Pequena alma, alma terna e inconstante, companheira do meu corpo, de que foste hóspede, vais descer àqueles lugares pálidos, duros e nus, onde deverás renunciar aos jogos de outrora. Por um momento, contemplemos juntos ainda os lugares familiares, os objetos que certamente nunca mais veremos… Esforcemo-nos por entrar na morte com os olhos abertos…

Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar

MARGUERITE YOURCENAR

LIBRAS

Por eu mesmo:
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ERA UMA VEZ UM FILHOTE CHAMADO LIBRAS.
Libras era bonitinho. Um filhote fofo.
Nasceu em meio a outros filhotes.
Havia chihuahuas, pinchers, dobermanns, hotweillers, pastores alemães e belgas. E havia Libras.
Desde pequeno, Libras adquiriu dois estranhos hábitos:
Apesar de ser um filhote grande, preferia a companhia –e os hábitos- dos cachorros pequenos. Vivia entre os chihuahuas e pinschers, sempre latindo para os outros filhotes grandes.
E, o mais curioso: vivia correndo em círculos, tentando morder o próprio rabo.
No início, todos achavam aquilo engraçado; quando Libras começava suas peripécias, todos riam muito e aplaudiam à moda dos cães, seja lá como os cães aplaudem.
Com o passar do tempo, os cães grandes foram se cansando; tanto dos recorrentes latidos quanto das corridas alucinadas e inúteis de Libras. Perspicazes, eles ainda o aconselharam:
– Libras, deixe de ser pateta. Se você continuar a se comportar como um chihuahua, vai acabar virando um.
E:
– Libras, deixe de ser pateta e pare de correr atrás do próprio rabo. Assim você se cansa e não chega a lugar algum.
Mas Libras era pouco permeável à sabedoria. Continuou andando com pinschers e chihuahuas, continuou latindo para os grandes e continuou perseguindo em vão o próprio rabo.
Alguns pinchers ouviram o conselho dado a Libras, e passaram a se comportar como os grandes; por incrível que pareça –se bem que isso é uma fábula e, nas fábulas, nada parece incrível-, acabaram se tornando dobermanns e pastores alemães.
Enquanto isso, Libras continuava latindo e correndo atrás do próprio rabo.
Obviamente, ele não chegou a lugar algum; os outros, por sua vez, cresceram, seguiram em frente, prosperaram -à moda dos cães- e foram cuidar da vida.
Libras continua o mesmo até hoje: cheio de manias de grandeza, latindo para cães muito maiores do que ele. Cães que não lhe dão a menor bola.
Pode ser que, um dia, Libras se canse, caia em si, perceba a insensatez do seu comportamento, pare de correr em círculos tentando morder o próprio rabo e comece a seguir em frente.
Pode ser que isso aconteça.
Sim, é possível.
Mas é muito pouco provável.

FRAGMENTOS

Devo confessar que acredito pouco nas leis. Quando demasiado duras, são transgredidas com razão. Quando muito complicadas, o engenho humano encontra facilmente o meio de escapar por entre as malhas dessa rede frágil e escorregadia. O respeito pelas leis antigas corresponde ao que a piedade humana tem de mais profundo; serve também de travesseiro à inércia dos juízes. As leis mais antigas participam da selvageria que elas mesmas pretendem corrigir; as mais veneráveis são ainda um produto da força. A maioria das nossas leis penais só atingem, talvez felizmente, uma pequena parte dos culpados; nossas leis civis jamais serão bastante flexíveis para se adaptar à fluida variedade dos fatos. Mudam menos rapidamente do que os costumes; perigosas quando estes as ultrapassam, o são ainda mais quando pretendem precedê-los. Contudo, desse amontoado de inovações perigosas que oferecem tantos riscos, ou de rotinas obsoletas, surgem aqui e ali, como na medicina, algumas fórmulas aproveitáveis. Os filósofos gregos ensinaram-nos a conhecer um pouco melhor a natureza humana: nossos melhores juristas vem trabalhando há algumas gerações visando ao bom senso. Eu mesmo efetuei algumas dessas reformas parciais, que são as únicas duradouras. Toda lei muitas vezes transgredida é má: cabe ao legislador revogá-la ou substituí-la antes que o desprezo por uma disposição insensata se estenda a outras leis mais justas.

Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar

MARGUERITE YOURCENAR