Lira dos (nossos) vinte anos

LINCOLN ZOO 08

Lá se vão vinte anos.

Eu (ainda) tinha (algum) cabelo. Preto.

Tinha um corpo seco de surfista, triatleta e lutador.

Tinha barriga tanquinho.

E dinheiro? Dinheiro, não. Dinheiro eu não tinha.

Mas tinha um vazio e um desejo e um sonho.

E então você veio.

Visão de quem sonha desperto,

Nuvem de chuva no deserto.

E choveu.

Então, adeus, vazio.

Permanecem o desejo e o sonho:

Pois agora não estou sozinho.

Lá se foram os cabelos,

Lá se vão vinte anos,

Lá vamos nós,

De novo,

Prontos para mais vinte,

Juntos como sempre.

Te amo, Letícia Marreco.

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Zé do Caixão sai da tumba

Achei no Bol:

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O Zé antes: um morto-vivo…

Nesta segunda-feira (30), o pastor Erzon Aduviri, da Igreja Adventista, compartilhou fotos nas quais José Mojica, conhecido como Zé do Caixão, passa por uma conversão evangélica.

“Neste domingo, o Zé do Caixão, juntamente com a esposa, tomou a decisão pelo batismo na IASD Central Paulistana, no apelo do Pr. Luís Gonçalves. Louvado seja Deus!”, escreveu Erzon na postagem.
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… e o Zé depois: das trevas para a Luz. “se alguém está em Cristo, é nova criatura; todas as coisas já passaram; eis que tudo se fez novo”

(Obs.: pela entrevista a seguir, parece que a filha do Zé não está gostando muito da história. mas isso nunca foi novidade: muitas vezes a própria família não compreende a opção de uma pessoa por se entregar a Cristo)

Em entrevista ao site Ego, Liz Vamp, filha do famoso, contou que o pai vai ao local acompanhado da esposa, que é evangélica. “Eles eram casados, ficaram separados por 20 anos e voltaram quando ele estava doente. Meu pai vai com ela porque aquilo é importante para ela. Eu não gosto de igreja que se aproveita das pessoas, fico com o pé atrás, mas, enfim, ele está indo sim, está achando as pessoas legais e as pessoas estão tratando ele bem, é o que importa. Espero que eles sejam boas pessoas, acho legal ele acompanhar a esposa, mas queria deixar claro para os fãs que isso não vai afetar o trabalho dele”, esclareceu Vamp.

Pátria amada, Brazil!

brazil

Por Paulo Marreco:

 

Caríssimos,

 

Tenho andando remoendo uma ideia. de tanto remoer, saiu isso aí embaixo: o prólogo do (assim espero) meu próximo livro.

Se puderem me dar a honra de lerem, opinarem e divulgarem, compartilhando em suas redes sociais se gostarem, será um êxtase.

SINOPSE:

Um brilhante professor e filósofo, socialista ferrenho. Um jornalista em crise. Dois grandes amigos em lados opostos de um conflito de ideias transposto para as ruas de um país em transe.

Um misterioso argentino.

Quem sabe onde isso vai parar?

 

 

 

PRÓLOGO

 

AO ACORDAR NAQUELA MANHÃ, já tinha alguma noção do péssimo dia que teria pela frente. Suspirou profundamente como quem busca forças para lutar ou, que remédio, resiliência para suportar o que viesse. Antes de abrir os olhos já sabia: o infalível cachorro estava ao seu lado, sobre a cama, ganindo baixinho, timidamente, recatado, respeitoso, solene, suplicante. A despeito da sua origem e postura humilde, o cão, um vira-latas preto de orelhas grandes e caídas resgatado das ruas, a única herança deixada pela sua ex-mulher –se bem que não era bem uma herança mas uma troca; o animal ficara –sejamos justos; ficaram o animal e os livros- e em seu lugar a mulher levara o carro, metade do valor do apartamento que estava à venda e uma parcela mensal considerável do seu nem tão considerável salário; a despeito de sua origem e da postura humilhada subserviente diante do seu amo e senhor, o cão gania e estendia a pata sobre o seu peito, arranhando, suplicante, mas ele poderia tanto estar implorando um favor como –o que não era nada inverossímil- demandando um privilégio um direito adquirido inalienável inadiável. Quem poderia saber? Cães são animais misteriosos.

Levantou-se, despejou a devida porção de ração no devido pote, deixou o Negão pois o cachorro não poderia ter outro nome que não fosse Negão se refestelando naquele intragável monótono banquete de tripas e penas e bicos e ossos e arroz triturados cozidos moídos prensados hidrolisados e foi para o banheiro despejar no devido lugar o devido resultado dos seus noturnos processos interiores. A primeira coisa que faço todos os dias quando acordo é dar comida e levar esse cachorro a passear. A última coisa que faço todos os dias antes de dormir: dar comida e levar esse bicho a passear. Todo santo dia, de segunda a segunda. Chova ou faça sol: de manhã: acordar, dar comida, levar para passear; à noite: dar comida, levar para passear, dormir. Vossa Excelsa e Fuleira Majestade Vira-Lata, Dom Negão Primeiro.

Apanhou a coleira, o que sempre deixava Negão num estado de extrema excitação e nunca deixava de deixar o jornalista impressionado com aquela imutável saltitante singela simplória alegria. Como é fácil deixar um cachorro feliz e lá iam eles em direção à banca de jornais e revistas onde finalmente chegavam após incontáveis paradas para cheirar e mijar e duas paradas para cagar.

Bom dia patrão; o Diário? Bom dia, Alemão. O Alemão não está com a cara muito boa hoje está aí todo macambúzio. O que é que te dói? Seu Botafogo perdeu de novo? Até perdeu, mas nem é esse o problema, doutor. Qual é problema, então?

O Alemão hesitou olhando para todos os lados desconfiado ressabiado como alguém com medo de estar sendo vigiado e finalmente falou baixinho. São aqueles putos da Guarda, doutor. Que eles são uns putos eu sempre te avisei; mas o que é que tem os putos a Guarda? Aqueles vagabundos estão cobrando taxa de proteção do pessoal aqui do comércio do bairro, doutor. Eu já tinha ouvido dizer que andavam fazendo isso em outros lugares; mas nunca pensei que pudesse chegar até aqui, onde só tem gente grã-fina.

O doutor que só era doutor por conta de um hábito nacional herdado do tempo do Brazil Império na verdade apenas graduado em Jornalismo pensou em tirar um sarro do Alemão parece que agora que está sentindo na própria pele você está finalmente começando a enxergar a verdade não é mesmo seu pateta mas isso não era nada engraçado muito pelo contrário as coisas iam de mal a pior numa escalada preocupante é sério isso Alemão? Pior que é, doutor; o senhor é que estava certo. Vamos denunciar, Alemão. Faço uma matéria, cobramos providências das autoridades, não vamos deixar barato essa safadeza. Mexe com isso não, doutor; é capaz desses escrotos fazerem alguma maldade com a gente. O governo deu muita autoridade para esses safados, agora esse pessoal está pior do que a polícia.

O doutor pagou pelo Diário de Notícias e pela revista Visão com uma nota de cinquenta e deixou o troco para o Alemão, apesar de não estar exatamente em condições de se dar ao luxo de ser generoso.

Voltaram para casa, o Preto insistindo em parar em cada poste e em cada árvore e tentando se aproximar de todos os outros cães que, como ele, levavam quase à força seus donos ou as empregadas domésticas mas não se diz mais empregadas domésticas e sim secretárias do lar de seus donos na outra ponta da coleira; o doutor jornalista sem doutorado quase resignado exercia a mesma negociação de todos os dias permitindo que o cachorro parasse na maioria as vezes puxando em algumas evitando o contato com os demais cachorros; não confiava muito na índole pacífica do seu animal. Vinha pensando no que o Alemão lhe dissera; em como a situação do país se deteriorara e a sua própria não andava lá em condições muito melhores há apenas um ano atrás eu tinha uma vida. Tinha esposa, casa, carro, carreira e cachorro. Hoje eu só tenho a carreira e o cachorro. E a carreira anda bem a perigo...

Ao chegar em casa e abrir o jornal, descobriu que o dia seria ainda pior do que ele havia imaginado.

Muito pior.

 

Mais Fragmentos

Admira-se o senhor ao ver que o abstrato conduz, por caminhos mais diretos e mais inelutáveis do que esta, à situação em que se trata de “um de nós dois, tu ou eu”, a situação propriamente radical, a do duelo, da luta corporal? O duelo, meu amigo, não é uma “instituição” como qualquer outra. É um último recurso, é a volta ao estado primevo da natureza, apenas levemente suavizada por certo código cavalheiresco que não deixa de ser superficial. O característico dessa situação é o seu cunho totalmente primitivo, a luta corporal, e cabe a todo homem, por mais que se distancie da natureza, manter-se preparado para essa emergência. Ela pode ocorrer a qualquer instante. Quem não é capaz de arriscar a vida, o braço, o sangue na defesa de um ideal não é digno dele. Em que pese a nossa espiritualização, cumpre sermos homens.

Thomas Mann, a Montanha mágica

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Artista alemão cria site para criticar selfies no Memorial do Holocausto

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Que nós vivemos a geração do selfie, todo mundo já está careca (eu, pelo menos, já estou beeem careca) de saber.

A falta de noção e de limite na busca pela selfie perfeita já levou idio… quer dizer, incautos a despencarem de precipícios e a serem destroçados por animais selvagens. A selfie é, atualmente, o esporte mais letal do planeta.

Mas o pessoal está perdendo também qualquer senso de decoro. De respeito.

Uma situação em particular estava incomodando o artista plástico israelense Shahak Shapira, radicado na Alemanha; a quantidade de babac… quer dizer, de pessoas desavisadas que tiravam selfies engraçadinhos e fofinhos no Memorial do Holocausto em Berlim destinados à nada saudosa e em tudo deplorável memória do Holocausto. Como alguém pode sorrir, em meio ao testemunho do Mal Absoluto?

Shapira, então, criou um site, o Yolocaust, no qual selecionou algumas fotos tiradas no local e publicadas em redes sociais como Facebook, Instagram, Tinder and Grindr; quando o usuário passa o mouse sobre a foto, ela passa a mostrar a pessoa retratada com um fundo de uma imagem dos tempos dos campos de concentração nazistas. Assim, uma garota pode surgir fazendo uma pose sorridente sobre uma pilha de cadáveres de judeus massacrados por Hitler. Sinistro.

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O nome do projeto, “Yolocaust”, é um jogo de palavras com “Holocausto” e “YOLO” acrônimo da expressão em língua inglesa “You Only Live Once” (“Você Só Vive Uma Vez”, em tradução livre).
Shapira deseja explorar “a nossa cultura de comemoração ao combinar selfies do Memorial do Holocausto em Berlim com imagens dos campos de extermínio nazi”. Ele lembra que aproximadamente dez mil pessoas visitam o Memorial aos Judeus Mortos da Europa todos os dias. “Muitas delas tiram fotos idiotas, pulam, andam de skate ou de bicicleta nos 2711 blocos de cimento” do local.
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Se um dos pate… quer dizer, se uma das pessoas retratadas entrar no site e se sentir incomodada, pode solicitar a retirada de sua foto através do email undouche.me@yolocaust.de (“Douche” significa “idiota”;”Undoucheme” é um neologismo que pode se traduzido como “desidiotize-me”).
Se você está entre elas, corre lá.
Ainda dá tempo de apagar essa vergonha da sua vida.

 

FRAGMENTOS

PIN UP

‘O americano não ama realmente nada a não ser seu automóvel: nem a mulher e o filho nem seu país nem mesmo sua conta no banco tanto (na realidade ele não ama sua conta bancária tanto quanto costumam os estrangeiros pensar porque é capaz de gastar quase tudo ou tudo para comprar qualquer coisa desde que ela seja suficientemente fútil) quanto seu automóvel. Porque o automóvel se tornou nosso símbolo sexual nacional. Não sabemos realmente curtir coisa nenhuma a não ser que por um desvio se possa ir até lá. Entretanto toda a nossa origem e criação e educação proíbem o escuso e o clandestino. Assim temos de nos divorciar de nossa esposa hoje a fim de remover de nossa amante essa pecha de amante a fim de nos divorciarmos da esposa amanhã a fim de remover de nossa amante e assim por diante. Em decorrência disso a mulher americana se tornou fria e subsexuada; ela projetou sua libido no automóvel não só porque os brilhos e penduricalhos e mobilidade dela são cúmplices da sua vaidade e incapacidade (por causa das roupas que lhe são impostas pela associação nacional dos varejistas) de andar mas também porque ele não vai querer apertá-la, estragar seu cabelo, deixá-la toda suada e descomposta. Assim a fim de capturar e dominar ainda um mínimo qualquer que seja dela o homem americano tem de fazer com que esse carro seja seu. Que ele viva por isso num buraco infecto alugado desde contudo que não só tenha o seu mas o troque todo ano por um novo em prístina virgindade, não o emprestando a ninguém, não deixando que nenhuma outra mão jamais conheça a intimidade última secreta para sempre casta para sempre lasciva de seus pedais e alavancas, não tendo é bem verdade aonde ir com ele e se o tivesse não iria onde arranhões ou manchas pudessem desfigurá-lo, dedicando todas as manhãs de domingo a lavar e encerar e polir o carro porque ele está acariciando ao fazê-lo o corpo da mulher que há muito lhe negou sua cama.’

‘Isso não é verdade’, ele disse.

‘Eu já passo dos cinquenta anos’, seu tio disse. ‘E foi embaixo de saias que passei os quinze do meio. Minha experiência é que poucas delas estavam interessadas no amor ou mesmo em sexo. Só queriam casar.’

‘Continuo não acreditando’, ele disse.

‘Está certo’, seu tio disse. ‘Pois continue. E mesmo quando você passar dos cinquenta recuse-se ainda a acreditar.’

William Faulkner, O Intruso