Lira dos (nossos) vinte anos

LINCOLN ZOO 08

Lá se vão vinte anos.

Eu (ainda) tinha (algum) cabelo. Preto.

Tinha um corpo seco de surfista, triatleta e lutador.

Tinha barriga tanquinho.

E dinheiro? Dinheiro, não. Dinheiro eu não tinha.

Mas tinha um vazio e um desejo e um sonho.

E então você veio.

Visão de quem sonha desperto,

Nuvem de chuva no deserto.

E choveu.

Então, adeus, vazio.

Permanecem o desejo e o sonho:

Pois agora não estou sozinho.

Lá se foram os cabelos,

Lá se vão vinte anos,

Lá vamos nós,

De novo,

Prontos para mais vinte,

Juntos como sempre.

Te amo, Letícia Marreco.

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SE AO MENOS ELA SOUBESSE…

BUS
Por eu mesmo:

Amava-o?
Sim. Em seu íntimo, sabia que o amava.
Sabia que o amava, mas havia obstáculos.
Primeiro obstáculo: aquele ridículo bigodinho a la cobrador de ônibus.
Segundo obstáculo: saber que, por trás daquele ridículo bigodinho a la cobrador de ônibus, havia, efetivamente, um… cobrador de ônibus.
Terceiro obstáculo: saber que, por trás daquele cobrador de ônibus, havia um passado de ignorância e pobreza –como o dela. E, o pior: diante dele, se descortinava um futuro medíocre.
Assim, por mais que o coração se aquecesse com os seus galanteios e um sorriso assomasse em seus lábios sempre que se lembrava das suas sinceras –sim, ela sabia; eram sinceras- juras de amor, de pronto a razão sufocava o sentimento. Ninguém vive só de amor, e ela merecia mais. Ela, a belezura do bairro. Seus pais esperavam mais. Ela esperava mais.
Se ao menos ela soubesse…
Mas ela não tinha como saber.
Ninguém tinha.
Como ela –como alguém- poderia saber que não haveria outro pretendente sério? Que ela seria apenas o divertimento passageiro de conquistadores baratos? Como ela poderia saber que o ridículo bigodinho de cobrador logo se tornaria um ridículo bigodinho de motorista, evoluindo rapidamente para um ridículo bigodinho de proprietário de um ônibus velho, galgando vertiginosamente todas as etapas até se tornar o ridículo bigodinho de um dos mais poderosos empresários do setor de transporte de passageiros, dono de concessionárias de automóveis e marido de uma grande dama da sociedade?
Sempre que contempla a ubíqua foto do feliz casal, sorrindo nas melhores festas e eventos, rodeados por incontáveis filhos e netos e pela nata da sociedade, a antiga beldade, decomposta, desgastada pelo tempo e pela necessidade até não restar nada além de uma solitária e triste matrona, deplora o próprio orgulho. Lamenta a própria sorte, protesta contra a crueldade do destino e se faz as mesmas perguntas que ecoarão sem resposta até o fim dos dias: a fortuna do seu antigo pretendente estava traçada desde sempre, ou foram a rejeição, o amor negado, o orgulho ferido que o impulsionaram através das dificuldades da vida até romper a barreira de um destino inescapável? Teria mantido o deplorável bigodinho apenas para jamais se esquecer de sua origem humilde? Lembraria dela?
Uma lágrima pela outra vida, a vida que poderia ter tido, infinitamente mais exuberante e farta e plena do que essa, inunda seus olhos, mas não pense que não lhe resta alguma soberba; ela jamais permitiria que a gota escorresse pelas gastas e corrugadas faces.
Ao invés, ela sorri com amargura, pensando em como um simples, ralo e ridículo bigode pode determinar todo o curso de uma existência.

ANDAR COM FÉ EU VOU

Nem eu tampouco te condeno, disse Aquele que poderia julgar, mas perdoou...

Nem eu tampouco te condeno, disse Aquele que poderia julgar, mas perdoou…

Por eu mesmo:

“Quando, porém, vier o Filho do homem, achará porventura fé na terra?”.

A pergunta do Mestre aos seus discípulos atravessa os séculos e chega até nós.

Quando vier o Filho, achará porventura fé na Terra?

Ou encontrará uma multidão de fariseus especialistas em descobrir mínimos ciscos nos olhos alheios, porém incapazes de perceber a trave que embota a própria vista? Irá o Cristo se deparar com uma igreja misericordiosa, capaz de acolher a adúltera, ou terá que se defrontar com terríveis juízes cheios de ansiosas pedras nas mãos? Aqueles juízes que estavam prontos a fazer justiça contra a mulher pecadora eram os mesmos que se esqueceram -que convenientemente se esqueceram- das próprias transgressões.

Vivemos tempos de templos repletos de inflexíveis inspetores Javert; de implacáveis doutores da Lei, incapazes de compreender, de aceitar a Graça. O personagem de Victor Hugo, contudo, era mais honesto: utilizava para consigo o mesmo rigor absoluto que infligia aos seus prisioneiros; Javert era um verdadeiro adorador da Lei; Javert, por não tolerar que a Lei deixasse de ser aplicada, mesmo que contra ele próprio, tirou a própria vida. Nós, por outro lado, costumamos exigir que os outros sejam tratados com o mais extremo rigor, sem nem ao menos perceber que podemos incorrer em erros tão, ou não raro mais, terríveis quanto aquele que condenamos em outrem; e, quando eventualmente percebemos nossas próprias faltas, corremos para a Cruz em busca de perdão. De Graça. Com uma frequência assombrosa nos esquecemos de que “com a mesma medida com que julgarmos, seremos julgados”.

“Ame ao próximo como a ti mesmo”, ordenou Jesus; o amor com que os cristãos se amassem uns aos outros seria a marca da presença do Filho de Deus entre eles. Ora, quem ama a si mesmo quer se ver perdoado; amar ao próximo como a si mesmo implica em desejar para ele o mesmo perdão que você um dia recebeu do Pai…

Não sabemos quando se dará o glorioso Advento; porém, enquanto aguardamos ansiosamente a volta Daquele que enxugará de nossos olhos toda lágrima, que nossa vida possa refletir o imensurável amor de Deus. O amor que perdoa.

E, sobretudo, lembremos sempre que não somos nada além de “velhos pecadores salvos pela Graça”.