FRAGMENTOS

LIVRO

MUDANÇAS IMUTÁVEIS (À MANEIRA DOS… CHINESES) – por Millôr Fernandes:

Se você não consegue fugir, você é muito corajoso

 

Olin-Pin, abastado negociante de óleos e arroz, vivia numa imponente mansão em Kin-Tipê. Sua posição social e sua mansão só não eram perfeitas porque, à direita e à esquerda da propriedade, havia dois ferreiros que ferravam ininterruptamente, tinindo e retinindo malhos, bigornas e ferraduras. Olin-Pin, muitas vezes sem dormir, dado o tim-pin-tin, pan-tan-pan a noite inteira, resolveu chamar os dois ferreiros e ofereceu a eles 1.000 ienes de compensação, para que ambos se mudassem com suas ferrarias. Os dois ferreiros acharam tentadora a proposta (um iene, na época, valia mil dólares) e prometeram pensar no assunto com todo empenho. E pensaram. E com tanto empenho que, apenas dois dias depois, prevenidamente acompanhados de advogado, compareceram juntos diate de Olin-Pin. E assinaram contrato, cada um prometendo se mudar para outro lugar dentro de 24 horas. Olin-Pin pagou imediatamente os 1.000 ienes prometidos a cada um e foi dormir feliz, envolvido em lençóis de seda e adorável silêncio. Mas no dia seguinte acordou sobressaltado, os ouvidos estourando com o mesmo barulho de sempre. E quando ia reclamar indignadamente pela quebra do contrato, verificou que não tinha o que reclamar. Os dois ferreiros tinham cumprido fielmente o que haviam prometido. Ambos tinham se mudado. O ferreiro da direita tinha se mudado pra esquerda, e o da esquerda tinha se mudado pra direita.

 

MORAL: Cuidado quando a esquerda e a direita estão de acordo.

Os números do nosso bloguinho em 2015!

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2015 do nosso esfuziante bloguinho. Eis aí: vocês foram demais!

Aqui está um resumo:

Um bonde de São Francisco leva 60 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 3.300 vezes em 2015. Se fosse um bonde, eram precisas 55 viagens para as transportar.

Clique aqui para ver o relatório completo

O ENCARGO DE APOLO – PARTE VII

o valente Apolo

o valente Apolo

Por Paulo Marreco:

Então olhei e finalmente compreendi.

Apolo.

Aquele era o seu destino, o seu encargo. Toda a sua existência se justificava unicamente por aquele dia, por aquele momento, por aquele embate.

De uma forma inexplicável –que minha alma imediatamente assimilou-, Apolo era o obstáculo intransponível, a última oposição, a última (a única?) barreira que impedia o cumprimento dos malévolos desígnios de quem quer que fosse: Shaitan, Satã, diabo…

Apolo continuava na mesma posição no alpendre; deitado, apenas a cabeça levantada. Olhava fixamente para o foco de luz; seus olhos não demonstravam nem espanto nem medo nem ódio. Apenas fitava a nebulosa, imperturbável, como um cão que, sem curiosidade, observa um acontecimento banal qualquer e espera sem interesse o próximo movimento. A luz hesitava na presença do cão; durante um tempo que parecia eterno e estático, não houve qualquer movimento ou manifestação; a impressão era de que estávamos diante de dois ferozes duelistas que se estudavam mutuamente antes de desferir seus ataques. O foco de luz realizou, então, um movimento para a frente. Tranquilamente, Apolo se soergueu em suas patas dianteiras; a nuvem recuou novamente, como se temesse a reação do portentoso animal. Os relâmpagos e trovões se intensificaram grandemente; todo o firmamento parecia prestes a explodir e ruir sobre nós. A nebulosa avançou; Apolo ficou de pé. A luz retrocedeu. Era possível sentir seu ódio na atmosfera, como descargas de pura energia maligna. Neste momento um raio despedaçou uma enorme árvore próxima à casa; imediatamente o fogo irrompeu na mata. A casa gemia e estalava sob a violência do ataque das forças das trevas; parecia prestes a ser destroçada. Apolo, contudo, demonstrava a impassibilidade, a calma, quase a complacência de uma divindade que se depara com uma potestade inferior; entretanto, não tirava os olhos do estranho redemoinho de luz e névoa à sua frente. O foco de luz, então pareceu intensificar-se grandemente e expandir-se; agora, os raios e trovões emanavam do seu terrível centro. Mais uma vez, Shaitan (só podia se tratar, efetivamente, do Mal personificado) avançou contra nós; agora, os pelos no dorso de Apolo se eriçaram, e ele, que já estava de pé, rosnou pela primeira vez, exibindo os poderosos caninos; novamente o recuo da massa de luz.

Este medonho e angustiante embate de forças, este avançar e recuar perdurou durante toda a madrugada; porém, assim que o primeiro raio de sol despontou no horizonte, todo o caos daquela noite começou a se desfazer; juntamente com a lenta alvorada, o vento impetuoso foi amainando, os raios, trovões e relâmpagos cessaram, parou a chuva e a massa de luz diabólica se dissipou numa terrível explosão. O mundo retornou à calma, quietude e normalidade de qualquer manhã; o único vestígio daquela noite colossal era o grosso tronco rebentado e carbonizado pelo raio; quem despertasse naquele exato momento jamais seria capaz de imaginar o pavoroso perigo que corremos; sim, era impossível imaginar que, enquanto os homens dormiam, desguarnecidos em suas camas, nosso pior inimigo havia requerido nossas almas naquela noite, e nosso defensor era um labrador chamado Apolo… 

Por toda a madrugada, o destino da humanidade esteve dependurado, à beira do abismo, à mercê da bravura e da resistência do valente Apolo; somente o enorme cão nos salvou da perdição que nos estava reservada naquela noite. Sim, eu não tenho qualquer sombra de dúvida; somente a presença poderosa de Apolo (quem o teria enviado? Quem o teria capacitado para exercer aquela tarefa crucial?) nos livrou das garras vorazes das potestades do abismo, dos principados e dominadores deste mundo tenebroso. Não fosse Apolo, estaríamos condenados; não fosse Apolo, o mundo teria sido definitivamente submetido ao domínio das trevas.

Eu estava completamente exausto e perplexo; como minha mente: humana, limitada, analítica e carnal, poderia compreender todas as implicações sobrenaturais daquela noite turbulenta? Como os meus olhos céticos aceitariam crer em todo aquele horror que eles presenciaram naquela noite? Era impossível a um homem do nosso tempo aceitar que todos aqueles eventos diabólicos tivessem ocorrido; e, contudo eles, de fato, ocorreram!   

Assim que toda aquela cruenta luta chegou ao fim, Apolo simplesmente se deitou novamente no alpendre, desfrutando os tépidos raios de sol que incidiam sobre o piso de madeira, como se nada tivesse acontecido; como se não tivesse acabado de salvar a raça humana da danação eterna. Sozinho. Entretanto, seus olhos demonstravam um cansaço antigo, uma estranha tristeza, como se lamentasse o que o futuro reservava para o mundo dos homens. Eu olhava fixamente pela janela, mesmerizado pelo tétrico espetáculo; a voz serena e acolhedora (sim; pela primeira vez, ele fora gentil) de meu anfitrião me chamou de volta à normalidade:

– E então, doutor, o que o senhor achou da atuação do nosso estimado Apolo? Nada mal para um velho cão gordo e sarnento; salvar o mundo assim, sozinho, mais uma vez? Hum?

Fiquei petrificado; como assim, mais uma vez, exclamei; esse medonho ataque já aconteceu antes?

– Certamente. Nos meus quatrocentos e vinte anos, essa foi a terceira investida que eu presenciei. Porém, além de ocorrerem em intervalos menores de tempo, os ataques estão se intensificando a cada vez. Esse foi o pior de todos que eu já vi.

A perplexidade me dominou por completo. Que espécie de loucura era aquela? Sem demonstrar qualquer emoção, Elijah (finalmente soube que este era o nome do meu anfitrião) explicou-me tudo: desde tempos imemoriais, o primeiro homem dos de sua estirpe recebeu a surpreendente visita de um Enviado, que lhe confiou o filhote de um Guardião, dando-lhe a incumbência de velar pelos nossos protetores, até mesmo ao custo de sua própria vida; desde então, cuidar para que sua linhagem se perpetuasse era o único propósito de suas existências. Durante séculos, eles foram bem sucedidos; os Guardiães se reproduziam, cresciam e cumpriam sua árdua missão. Porém, Apolo fora o único de sua ninhada que sobrevivera; era, portanto o último de sua raça imprescindível; e, aos cento e oitenta e três anos, a vida de Apolo não deveria durar muito mais; com a sua extinção, não haveria mais ninguém para rechaçar a próxima investida das hostes infernais.

– Mas, e vocês, não podem fazer nada, indaguei, desesperado com a hipóteses de que não houvesse ninguém mais para resistir ao Mal quando ele nos atacasse novamente; essa espingarda aí não tem poderes especiais? Ele sorriu de minha ingenuidade:

– Infelizmente, doutor, a velha Betsy aqui não passa de uma espingarda comum; ela serve apenas para matar uns coelhos de vez em quando. E olhe lá…

– Mas porque você a carregava enquanto tudo aquilo estava acontecendo?

– Bem, sempre pode acontecer que o nosso Apolo ali falhe na sua tarefa. E, nesse caso, é melhor estar preparado.

– Preparado…?

Seu olhar foi bastante significativo:

– Acho que, depois dessa noite, o senhor já acredita em alguma coisa. Pois bem: o senhor não ia querer acabar nas garras do diabo em pessoa, não é mesmo, doutor?

Anuí meneando a cabeça. Não, certamente, eu não iria querer acabar nas mãos do diabo, nem iria querer viver em um mundo onde ele desse todas as cartas; qualquer coisa seria melhor do que isso; até mesmo levar uma bala na cabeça. Olhei para o sol que já despontava alto no horizonte; seus raios generosos aqueciam minha face; depois de todo o horror daquela noite, aquela sensação de frescor, de normalidade; a sensação de que tudo continuava em ordem no nosso velho mundo, era magnífica; contudo, ela durou apenas um instante; a consciência de que estávamos sob a ameaça perpétua de uma iminente invasão diabólica me dominava; eu sabia que minha vida jamais voltaria a ser a mesma. Como poderia? Para onde alguém poderia fugir? Onde poderia o pobre e arrogante e patético e autossuficiente e fraco ser humano se esconder da presença e da atuação do Mal, depois que este tiver finalmente dominado nosso mundo; depois que Apolo não mais estiver entre nós para nos defender? Aflito, perguntei a Elijah:

– O que será de nós, então, quando Apolo faltar?

Ele olhou com carinho para o velho cão.

– Quando ele faltar, eu e Betsy ainda estaremos aqui.

– E isso será… suficiente? Conseguirá vencer?

Ele retirou do bolso um toco de charuto e o acendeu. Depois de uma longa baforada, respondeu com um sorriso indiferente, mastigando o charuto e as palavras:

– Não; mas isso não importa.

Durante um prolongado momento, permanecemos ambos em silêncio; então ele prosseguiu:

– O fim de toda carne é a extinção, o retorno ao pó; o que conta é a forma como vivemos e morremos. E tudo que eu vou querer naquele dia é uma chance de acertar aquela fuça fedorenta. Será uma boa morte, o doutor não acha?

– Mas, e quanto a nós? A raça humana? Quem nos defenderá?

– Bem, doutor, me parece que agora o senhor já não é mais tão incrédulo; o senhor já acredita –acho que o senhor já sabe– que o diabo existe, não é mesmo? Pois então, torça para Deus também existir…

– A propósito, não adianta o senhor procurar a sua esposa. A humanidade nunca sai impune destas batalhas contra o Mal; alguém precisa pagar o preço e aplacar o ódio milenar do nosso adversário.

De fato, por mais que eu tenha procurado –e eu realmente a procurei; e eu realmente ainda a procuro!-, jamais voltei a encontrar a minha adorada Sue.”

CONTINUA…

O ENCARGO DE APOLO – PARTE VI

A Tempestade

– Afaste-se já daí, doutor. Ninguém sai desta casa enquanto tudo isso não acabar. E, no que depender de Apolo e de mim, ninguém entra. Nada entra.

Transtornado, gritei:

– Pelo amor de Deus, que diabos está acontecendo aqui?! Que tipo de insanidade é essa?!

Ele deu uma forte risada, tranquilo em meio ao caos:

– Isso, doutor? Isso não é nada; isso é apenas o glorioso, o admirável fim do mundo se aproximando, tentando entrar! Pois que venha! Nós outros aqui estamos prontos! Eia! Mostre a ele, Apolo!

Achei que o homem estava louco; mas ele não estava surpreso, e realmente não se assombrava com todo aquele alucinado turbilhão; de fato, parecia estar, de algum modo, esperando; parecia estar preparado para enfrentar aquele inferno caótico.

– Onde está minha esposa, perguntei, desesperado.

– Preocupe-se consigo mesmo por enquanto, doutor; se sobrevivermos a esta noite, depois veremos o resto.

Exasperado, corri até ele, segurei-o pela gola e gritei:

– Mas é a minha esposa que está lá fora, imbecil! Eu preciso fazer alguma coisa; eu preciso salvá-la; não compreende?!

Ele me encarou com um sorriso sarcástico; em seguida, empurrou-me com violência:

– O doutor realmente acha que teria como salvar a sua mulher? Acha que poderia salvar quem quer que fosse? Acha que alguém poderia salvá-la? Que alguém poderia nos salvar? Pois pense bem, meu caro doutor; olhe ao seu redor e pense muito bem: qual tipo de poder o senhor acha que está se manifestando aqui, heim? Contra quem acha que vamos lutar? Quem poderia resistir a tudo isso? Quem poderia se levantar contra o próprio Mal e prevalecer?

– Do que você está falando, homem? Que loucura é essa?!

– É isso mesmo, doutor. Não vê este hediondo espetáculo se desenrolando bem diante dos seus olhos? Não percebe que o senhor é uma das poucas testemunhas do evento mais terrível da história humana? Sim, doutor; o senhor está presenciando o Juízo Final; sim; abra bem os olhos e contemple o Armagedom em toda a sua profana glória!

O homem agora parecia ter entrado numa espécie de transe; balbuciava palavras numa antiga e esquecida e corrompida língua; em seguida, iniciou um horrendo canto agônico. Cada vez mais aterrado, olhei para a janela; a despeito do terror que me dominava, eu precisava ver; apesar do terror, eu precisava saber! Lentamente, fui me aproximando do quadrado de vidro que me permitiria(?) desvendar aquele horror…

Não creio ser possível descrever em linguagem de homens o que vi e senti naquela noite maldita; entretanto, cumpre tentar, de todo modo. O mundo precisa saber; precisa entender; precisa se preparar!

O que meus olhos contemplaram a partir da janela do hotel foi algo terrível e inaudito e incompreensível; toda a vegetação ao redor do hotel vergava sob a força avassaladora do vento; galhos e pequenos objetos voavam em círculos frenéticos. A intensa bruma vinda do oceano envolvia a tudo e deixava a atmosfera opaca, turva, indefinida, confusa. O trovoar incessante estremecia o solo; incessantes relâmpagos rabiscavam o negro céu; e eu logo percebi que aquele era apenas o início…

A luz macabra que havia inundado o hotel provinha de algo semelhante a uma diminuta estrela vermelha, flutuando a uns cinco metros acima do solo, diante da entrada do hotel, movimentando-se um pouco, lentamente, para frente e para trás. Enquanto eu a observava, notei que seu foco de luz começou a se expandir; ao mesmo tempo, como se ela atraísse a matéria ao seu redor, uma espécie de massa foi se acumulando sobre ela, indefinida, volátil, cambiante; expansiva; a luz foi assumindo a aparência de uma pequena nebulosa, de cujo centro emanavam violentas explosões que expandiam e retraíam seu núcleo; tentáculos de fumaça bruxuleavam para todos os lados. A sinistra forma me pareceu um tumor; sim, um tumor maligno que almejava se espalhar por todo o universo para contaminar, arruinar, devorar, destruir toda forma de vida! 

Eu jamais vira nada minimamente parecido com aquela nebulosa pestilenta; não era possível discernir a origem desta estranha emanação; mas eu era capaz de compreender, pela sua posição e movimentos, que não se tratava de nada produzido por mãos humanas. Imediatamente, instintivamente, soube –algo dentro de mim soube; meu coração desfalecido soube, meu espírito imortal soube- que a nuvem era… o Mal!

Sim, aquela nebulosa que irradiava a luz maldita era a essência do Mal; era sua forma primitiva e violenta e pura.

Aquela nuvem, aquela luz era… Shaitan!

Compreendi que a nuvem tentava invadir o hotel; compreendi que, conquistado o hotel, e a partir dali, o Mal se espalharia por todo o mundo dos homens; compreendi que, se conseguisse invadir o hotel, o Mal triunfaria definitivamente sobre a humanidade. Percebi que o Mal, contudo, hesitava. Alguma força irresistível o impedia de irromper porta adentro e cumprir seus desígnios infernais. Mas o que seria tão poderoso a ponto de barrar os terríveis poderes do abismo? O que, ou quem, seria capaz de se postar diante de Shaitan e suas hostes demoníacas e dizer: não passarão? Quem, a não ser um anjo ou um deus, poderia prevalecer diante do Mal Absoluto?

Então olhei e finalmente compreendi.

Apolo.”

CONTINUA…

O ENCARGO DE APOLO – PARTE V

"- Nem pense em abrir esta porta, doutor. "

“- Nem pense em abrir esta porta, doutor. “

By myself:

Sim, nós, obviamente, trancamos a porta do quarto naquela noite; e, sim, nós fizemos amor naquela noite, naquele deplorável quarto daquele deplorável hotel, naquele pedaço do mundo esquecido por Deus e -segundo nosso anfitrião- cobiçado pelo diabo em pessoa. Fizemos amor intensamente, como há tempos não fazíamos; os velhos ressentimentos e as culpas renitentes decidiram ficar de fora da cama naquela noite memorável; tive a impressão –tive a esperança– de que havia conserto, havia futuro para o nosso casamento, afinal. Quando terminamos, Sue adormeceu profundamente, enquanto eu permaneci acordado; sempre tive dificuldade em cair no sono; não seria justamente naquele pardieiro que eles chamavam de hotel que isso mudaria…

Acendi um cigarro distraído e fiquei um tempo fumando na cama, os olhos gradativamente se acostumando à escuridão reinante no aposento. Lá fora o vento fustigava o prédio, furiosamente e sem trégua. Era realmente impressionante que aquela velha edificação tivesse resistido ao assédio intermitente do vento durante todos aqueles anos. Até que, a despeito de todo aquele barulho incessante, eu também caí no sono.

 

***

 

Chego agora ao centro deste meu relato; aqui começa o meu terror.

Acordei no meio da noite, um tanto atordoado, confuso e com um medo indefinido, como quem acorda de um convincente pesadelo; demorei a discernir onde eu estava. Quando enfim voltei à consciência, olhei para o lado: ali, o vazio; Sue havia se levantado. Chamei por ela; não obtive resposta. Levantei-me e fui até o banheiro; ela não estava lá. Abri a porta, vasculhei o corredor; nada. Foi então que percebi: o vento –isso era realmente possível?- estava ainda mais forte; toda a casa parecia ranger, estalar e sacudir; temendo pela segurança de minha esposa, saí à sua procura. Assim que botei o pé fora do quarto, todos os pelos do meu corpo se eriçaram imediatamente, sem qualquer explicação ou motivo visível; eu não sabia efetivamente o porquê; meus olhos não divisavam qualquer perigo; entretanto, eu sentia que meu espírito estava sendo invadido pelo pânico em seu estado mais puro, intenso e atávico. Todo o meu corpo começou a tremer; mesmo assim, comecei a descer as escadas para tentar encontrar Sue. À medida em que descia, meu coração acelerava violentamente; temi sofrer um infarto a qualquer momento. O suor frio brotou de minha fronte e de minhas mãos trêmulas; minhas pernas fraquejavam, recusando-se a continuar em frente. Meus instintos me mandavam correr, fugir, me esconder; mas, fugir para onde?! Fugir por quê?! Fugir de quê?! Cada fibra de meu corpo parecia ansiar por escapar do perigo iminente; era como se eu estivesse prestes a ser atacado pelo animal mais feroz e mortal. Mas, qual era esse perigo? De onde viria essa terrível ameaça que meu coração pressentia? Do meio da escada, olhei para a sala; Sue não estava lá. Agora já completamente dominado pelo mais insensato terror, desci até o térreo; o saguão estava mergulhado na escuridão da noite. Então, lentamente, uma estranha, fantasmagórica luminosidade começou a se infiltrar pelas janelas; essa luminosidade foi se intensificando até bruxulear por todo o recinto, distorcendo as formas, produzindo sombras e reflexos macabros; ao mesmo tempo, o vento aumentou ainda mais; violentos trovões começaram a reverberar pelos céus. Tive a impressão de que, sob o poder do vento, as paredes estavam prestes a dobrar-se sobre si mesmas; o barulho era enlouquecedor; talvez estivéssemos sendo atingidos por algum furioso tornado. Pelos céus, onde estaria minha pobre esposa?! Meu instinto ordenava imperiosamente que eu fugisse dali, que encontrasse Sue, pegasse meu carro e desse o fora; a despeito do pavor que me dominava por completo, dirigi-me à porta a fim de tentar ganhar a escuridão. Neste momento, uma voz cheia de autoridade trovejou firme em meio às sombras e ao turbilhão cacofônico de sons:

– Nem pense em abrir esta porta, doutor.

CONTINUA…

O ENCARGO DE APOLO – PARTE IV

Meta de cem leituras batida; parabéns aos envolvidos!

Como vocês devem se lembrar, nossos personagens foram para em um velho hotel decrépito à beira mar, depois de vagarem por horas perdidos. Agora… bem, agora, leia a sequência.

Ah, sim; depois de mais 200 leituras (sim, 200!), postarei a parte V.

Portanto, você já sabe: se quiser ler logo a continuação, divulgue!

O ENCARGO DE APOLO – PARTE IV

“Escurecia rapidamente, e o vento incessante nos deixou com frio. Voltamos para o “hotel” (tenho imensa dificuldade em dar esta definição ao prédio que nos hospedava) abraçados. Apolo permanecia imóvel, na mesma posição; se os seus olhos não se movessem acompanhando nossos movimentos, seria possível confundi-lo com um enorme boneco de pelúcia. Subimos para o quarto, tomamos um longo banho e descemos em busca de algo para comer. O refeitório era condizente com o resto do edifício: acanhado, mal arrumado, mal cuidado. O, por assim dizer, maitre nos informou quais eram as parcas opções; receosos, escolhemos o prato mais simples; hambúrgueres com batatas fritas. Seria difícil errar um prato como este. Assim que escolhemos, o próprio maitre se dirigiu à cozinha para preparar o pedido. Apesar das probabilidades em contrário, a comida estava ótima. É claro que a fome atroz que ambos sentíamos contribuiu para embotar nossos paladares e nos deixar menos exigentes.

Após o jantar, Sue quis descansar um pouco na – por assim dizer- sala de estar, em cuja parede central despontava uma lareira de pedras desgastadas; logo acima dela, uma daquelas horrendas cabeças de alce empalhadas. Eu teria preferido subir logo para o quarto, mas achei melhor fazer-lhe a vontade; afinal, meu reconhecido egoísmo e aquela velha intransigência –mesmo nos menores detalhes- eram as grandes fontes de conflito entre nós.  

Apesar de não estar muito frio, Sue sentou-se junto à lareira, enquanto eu iniciei uma pequena volta exploratória ao redor do acanhado aposento. A foto velha e apagada de um filhote de labrador decorava a lareira; a indefinível expressão no olhar do animal causou-me desconforto; jamais imaginei que uma fotografia de um simples filhote pudesse transmitir tamanha ferocidade. Na falta de mais outra coisa para explorar, olhei distraído pela janela; o vento rugia forte, cercando todo o edifício, balançando todas as janelas, telhas e árvores ao redor do prédio. Lá fora, o velho Apolo, qual uma esfinge canina, encarava o vento de frente; suas orelhas e bochechas tremulavam, frenéticas. Achei a cena engraçada. Então, nosso anfitrião entrou, trazendo com ele uma lufada vento frio; carregava de maneira displicente uma velha espingarda debaixo do braço. Ele mascava algo que imaginei ser tabaco. Tentando ser gentil, Sue perguntou se o homem pretendia caçar com aquele tempo. Ele sorriu.

– Esta noite ninguém caça nada, madame; muito pelo contrário…

O homem sentou-se numa poltrona puída e desbotada, que parecia fazer parte da mobília desde a aurora do mundo, cruzou relaxadamente as pernas magras e acendeu um cachimbo. O cheiro acre do fumo preencheu o ambiente da sala. Acompanhei-o com um cigarro. Estava claro que um não fora com a cara do outro; mas uma dúvida me acompanhava desde o encontro com o velho na estrada. Não resisti e perguntei:

– Qual é o problema com as Dunas?

Ele sorriu.

– Vejo que vocês encontraram o bom Barnabas pelo caminho…

O homem fez uma pausa.

– Depende, respondeu, enfim. Ele chupou uma longa e demorada baforada no cachimbo; depois, soltou lentamente a fumaça, acompanhando com desinteresse as circunvoluções do fumo no ar. Por fim, acrescentou:

– O siôr é um homem crédulo?

– Acredito que não.

– Então, para o senhor, não há problema algum com as Dunas. Ou, melhor colocando: não há problema algum que venha das Dunas.

– E se eu fosse um homem crédulo?

Ele sorriu e repetiu a cena da fumaça com a mesma lentidão calculada –definitivamente, era um mestre na arte da irritação. Por fim, narrou a história mais estranha que eu jamais ouvira:

– Se o siôr fosse um homem crédulo, eu lhe diria que, por estas bandas, o povo conta a história de alguma coisa terrível que viveria nas Dunas –ou que viria ao mundo através das Dunas- e que, de tempos em tempos, investiria contra os homens, na tentativa de subverter a ordem das coisas, estabelecida desde os primórdios pelo Universo.

– Uma coisa… terrível? -perguntou Sue-; e o que seria essa coisa terrível?

Outra baforada misteriosa.

– Vocês sabem como são esses caipiras; sempre falam demais e acreditam em qualquer bobagem. Alguns dizem que é um tipo de assombração, de alma do outro mundo. Já outros…

– Já… outros…?

Mais uma interminável baforada.

– Já outros falam em… Shaitan.

– Shaitan?

– Sim, madame; Shaitan. Ou Satã. O diabo.

Sue riu. O diabo em pessoa, perguntou ela.

– O diabo, o chifrudo, o coisa-ruim, o fedorento. Em suma: o próprio.

– Mas, com todo o respeito, ela disse, o que é que o diabo viria fazer nesse fim de mundo?

– Exatamente aí é que está o ponto, madame; o fim do mundo tem que começar por algum lugar, não é mesmo? Pois nada melhor do que escolher um buraco como este, esquecido por Deus e pelos homens, habitado apenas por uns pobres coitados praticamente abandonados por todos e sem possibilidade de se defender…

Praticamente abandonados?

– Sim, praticamente. Nós ainda temos o bom e velho Apolo.

Agora foi a minha vez de rir.

– Pois o senhor acredita que este cão –tudo bem; admito que ele, apesar de tudo, ainda pode ser bastante ameaçador contra um ladrão ou coisa parecida; mas o senhor acredita mesmo que o nosso bom Apolo aí pode salvar o mundo das garras do diabo em pessoa?

– Em primeiro lugar, é preciso lembrar que não se sabe ao certo se se trata efetivamente do dito cujo. Mas, sim, é isso que muitos dizem por aí.

– E o senhor, acredita nisso, perguntou Sue novamente.

– Madame, eu sou como aquele apóstolo; só acredito no que os meus olhos podem ver. Ou no que o chumbo da minha espingarda pode acertar.

Ele caminhou lentamente até a janela, soltando sua densa fumaça, e olhou longamente para o cão, estendido no alpendre, cabeça elevada, orelhas ao vento, olhar fixo na escuridão profunda. Então acrescentou, quase num sussurro:

– O diabo é que estes meus olhos já viram tanta coisa…

Estávamos cansados (eu estava cansado) da viagem, daquele dia, daquele homem. Despedimo-nos dele e subimos. Quando estávamos na escada, ele recomendou que nos certificássemos de termos trancado a porta:

– Nunca se sabe quem pode querer entrar no nosso quarto durante a noite, não é mesmo?

Depois (mal pude ouvi-lo), mais uma vez olhando pela janela, mais uma vez soprando a grossa fumaça do velho cachimbo e mais uma vez sussurrando:

– Se bem que, para certos invasores, uma porta trancada não significa nada…”

shaitan