ENQUANTO ESPERO

Por eu mesmo:

 

Chego do trabalho. Não encontro a chave no local combinado. Serei obrigado a esperar alguns minutos até que a esquecida Senhora Marreco volte da academia. Estoico, apenas estalo um muxoxo –na concepção angolana da palavra, bem entendido- e me preparo para a espera. Estou vestindo o uniforme de volta do trabalho, ou seja, bermuda “de surfista” e camiseta.

Enquanto espero, colo o corpo o máximo que consigo no vão da porta; venta um vento forte e frio para os elevados padrões capixabas de temperatura.

Enquanto espero observo as nuvens, procurando nas formas as naves espaciais que outros veem com tanta facilidade. Sou mais cego ou menos crédulo; no final dá tudo na mesma.

Observo os dois coqueiros sacudidos pela ventania que vem do Sul, esse sopro que prende as pessoas em casa e liberta as estátuas andantes nas madrugadas de inverno da Barra do Jucu. Os coqueiros parecem dois pássaros chacoalhando suas vinte asas desordenadamente, ou parecem dois pássaros chacoalhando suas vinte asas de acordo com a secreta ordem das intrincadas leis que regem o secreto Universo. Pelo visto e escrito a espera vai ser longa.

Enquanto espero, se aproximam um homem, magro, de bermuda de surfista, camisa de malha e chinelos de dedo, trazendo pela mão uma garotinha, magra, de bermuda, chinelos de dedo mas coberta por um casaquinho dotado de capuz. Fazendo uso de toda a minha capacidade de observação, descubro que são pai e filha e que chegam para esperar a esposa de um e mãe da outra sair do trabalho.

Minha rua é uma rua sem saída. Uma ladeira sem saída. No final –no fundo- da rua, uma clínica. Psiquiátrica. Recebe e trata pacientes dependentes químicos em estado grave. Já vimos e ouvimos cada uma que só vendo e ouvindo, meu chapa.

A rua ser ladeira e ser sem saída, o fim da rua dar na clínica, o fim da rua ser a clínica, deve ou pode ser uma metáfora para alguma coisa, mas eu prefiro deixar essa por sua conta. E risco.

Enquanto espero, entreouço trechos do diálogo. O pai lê o nome da clínica para a filha. Ela faz uma pergunta, ele tenta explicar o que acontece ali –isso vai ficar interessante, penso. É uma clínica para tratamento de viciados, ele explica. O que é isso, ela pergunta. Me distraio e perco a resposta. Ele prossegue: é um lugar onde as pessoas recebem tratamento psiquiátrico, ele diz. O que é isso, ela pergunta. É quando alguém está em surto, explica. Surdo?, ela pergunta. Sur-to, ele replica. Perco mais um pedaço da conversa; parece que o pai busca um assunto menos espinhoso. Subitamente, eles chegam à teoria da relatividade do tempo; ele explica que a melhor forma de fazer o tempo passar mais rápido é trabalhando. Provavelmente ele está certo.

A esposa chega. A filha corre e a abraça e conta alguma coisa sobre algum assunto lá deles. O homem passa o braço em redor do pescoço da mulher, que passa o braço em redor do pescoço da criança e lá se vão eles, vida afora, enlaçados, enlevados, conversando sobre as coisas lá deles.

E você aí, achando que não existe mais ternura nesse mundo.

Existe sim.

É só a gente observar enquanto espera.

 

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Crash Church: a igreja que passa a palavra de Deus ao som de Heavy Metal

Depois da Bola de Neve (igreja de surfistas) e do polêmico Machine Gun Preacher (Sam Childers, o Pastor Metralhadora), conheça a Crash Church, uma igreja de metaleiros. Achei no Bol:

 

É dentro de uma garagem de São Paulo que soam os primeiros acordes de Heavy Metal. A letra fala de Jesus Cristo e de salvação e seu palco é a Crash Church, uma igreja evangélica frequentada pelos fãs do rock que buscam a palavra de Deus através da música.

Como em um show de rock pesado, os fiéis usam roupas escuras e sacodem fortemente a cabeça quando o baixo e a bateria começam a soar em uma sala pintada de preto e decorada com tribais brancos.

Depois de várias canções, as pessoas, algumas com camisetas do Metallica e do Joy Division, se acalmam e o pastor Batista começa o culto. Ao contrário da maioria dos ministros evangélicos, ele não usa terno e gravata, mas calça jeans e um tênis branco e vermelho.

As tatuagens – todas com referências cristãs – cobrem seus braços, brincos adornam suas orelhas e na barba ele exibe uma trança acinzentada de 4 centímetros.

Além de pastor, Batista é vocalista da banda cristão de death metal Antidemon e um dos fundadores desta igreja “não convencional” criada em 1998 por “necessidade divina”.

“Isto faz parte de um plano de Deus para superar barreiras de formatos mais fechados e que deixavam de alcançar muitas vertentes da sociedade”, disse Batista, em referência a outras correntes mais conservadoras, como a poderosa Igreja Universal do Reino de Deus e a Assembleia de Deus.

Maria Aparecida Castellini, de 54 anos, tem sete filhos e três são membros de igrejas evangélicas tradicionais que não “toleram” sua estética punk: cabelo verde, unhas pintadas, batom azul e roupas rasgadas que possibilitam ver algumas partes de sua pele.

Ela se declara “louca” por Jesus e pelo rock, mas não é por isso que vai “para um hospício”, como foi aconselhada na Renascer em Cristo, sua antiga igreja.

“Diziam que o rock era pecado, que era coisa do demônio. E eu perguntava: ‘Deus, será que estou no lugar certo?'”, lembrou ela, que diz andar até duas horas para assistir ao culto da Crash Church.

Atrás de um púlpito com ares medievais, o pastor Batista lê o evangelho, enquanto os fiéis o acompanham em seus telefones celulares, na bíblia de papel ou através de televisores onde as passagens são reproduzidas.

Batista usa jargões para explicar a palavra do Senhor e intercala as leituras com músicas de rock, que, apesar da intensidade, não acordam dois bebês de poucos meses que dormem nos braços das mães, nem abalam uma senhora de uns 80 anos que escuta impávida o som.

Em um de seus discursos, o pastor compara a história de Jesus com a da igreja e enfatiza que, apesar do preconceito, eles também são “de Deus”.

“As pessoas não esperam uma Igreja como nós. Não esperam que com esse estereótipo sejam pessoas de Deus. Jesus não parecia o Messias, assim como nós não parecemos evangélicos. Em várias partes do mundo estão nascendo movimentos como esses, igrejas e pessoas se abrindo para levar Jesus de todas as maneiras, uma maneira que se possa entender”, assegurou.

pastor-metal

Batista, o pastor metal

AHMAD, AS DROGAS E OS IMPOSTOS

Por eu mesmo:

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AHMAD é jordaniano e trabalha como motorista em Orlando. Ele já cruzou os cinquenta estados dos EUA dirigindo um ônibus da lendária Greyhound; agora, transporta os clientes de uma locadora de automóveis do aeroporto até o pátio onde ficam os carros, num percurso de cerca de vinte minutos. O melhor estado americano, para ele, é a Califórnia; porém o alto preço dos imóveis e o custo de vida em geral impedem que Ahmad se mude para lá.
Assim que entrei no seu ônibus, percebi que Ahmad ouvia música cristã. Elogiei a canção; ele imediatamente informou que o seu rádio ficava sempre sintonizado naquela estação, a sua favorita. Perguntei-lhe se ele era cristão; prontamente, respondeu: eu sou muçulmano. E logo emendou, sorrindo (Ahmad sorri com bastante facilidade): “eu sou muçulmano, minha esposa é judia e minha sogra é cristã.”
Diante da minha expressão de surpresa, Ahmad foi logo dizendo que frequenta uma mesquita, contudo também vai à sinagoga com sua esposa, e não dispensa visitas a igrejas evangélicas.
Ainda não consegui decidir se Ahmad é uma enorme contradição ambulante, apenas um sujeito cuca fresca que não leva a religião muito a sério ou se ele é, na verdade, um sábio.
Quando conversamos sobre a vida nos Estados Unidos, ele me disse que tudo é na verdade muito mais simples do que as pessoas pensam, e me deu dois conselhos: “Don’t do drugs and pay the taxes, and you’ll be fine”.
Estou tendendo a acreditar que Ahmad é um sábio.

QUEDA DE BRAÇO NA FAMÍLIA -1 SOGROS, SOGRAS, GENROS E NORAS.

Por Jeremias Pereira. No Facebook:

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Nenhum sogro ou sogra tem o direito de entrar na casa da nora ou do genro e dizer desaforos. Mesmo que more no mesmo prédio, no mesmo andar, e o apartamento tenha sido doado pelos sogros. O vice-versa também é verdadeiro. Também é verdadeiro para vizinhos do mesmo condomínio. Dentro da casa da pessoa, estamos debaixo da autoridade da mesma e devemos ter muito respeito com aquele lar. Isso vale também para amigos, primos, cunhados e os outros eteceteras. Acho que se vivermos assim, viveremos melhor e mais felizes em família. Evite os desabafos agressivos, as gritarias, os “sapateados”, e os barracos. Quando houver necessidade de ajustes -e sempre haverá-, descubram o melhor lugar e a maneira mais legal de falar com firmeza e ternura e encontrar soluções. Se já aconteceu coisa semelhante é preciso quebrantamento e buscar pontes de reconciliação. A família deve ser superior às nossas desavenças, “direitos” e razões.
Abraço.

 

Comento: falou e disse.