LIVRO NOVO – PRÉ-LANÇAMENTO

Por Paulo Marreco:

PENA

Caríssimos,

Escrever -e, mais ainda, publicar!- um livro no Brasil é um desafio hercúleo. AS dificuldades são tantas que é preciso ser meio doido, meio Dom Quixote para encarar o desafio.

Mas estamos aí nessa luta, e eu adoro isso!

Acabo de finalizar meu novo livro, VIDA VIRADA DO AVESSO.

Trata-se das aventuras de Ana Beatriz e sua turma, a GALERA DO FAROL.

Ana Beatriz é uma adolescente de 15 anos.

Aninha, para os amigos.

Ninica, para a Tia Lelê.

Uma garota normal, como quase todas as garotas de sua idade: estuda, joga bola, sai com os amigos. E briga com a balança. E implica com Valentina, sua irmãzinha mais nova. Aninha vive de dieta.

Sim, uma garota absolutamente normal, até que um acontecimento fundamental transforma sua vida; a partir daí, surgem novos conflitos: familiares, com os amigos…

A partir daí, sua perspectiva de vida se transforma, e todos os temas da vida passam a ser vistos sob uma ótica totalmente diferente.

Para escrever este livro, me baseei na minha sobrinha e nas minhas próprias experiências e dilemas, vividos ao longo de mais de 30 anos dentro do ambiente evangélico

VIDA VIRADA DO AVESSO é um livro voltado para adolescentes e jovens cristãos e aborda com leveza e humor as questões fundamentais que afligem qualquer jovem em qualquer lugar: relacionamento familiar, amizade, namoro, gravidez precoce…

Um livro que nasceu de uma conversa com um pai de adolescentes que sente a necessidade de obras específicas para este público; provavelmente será a primeira obra deste estilo lançada no Brasil.

E, modéstia às favas, o livro ficou bem bacana.

Aninha já leu e adorou!

Estamos em fase de pré-vendas; para viabilizar a impressão, cada exemplar sairá ao preço de apenas R$ 30,00 (trinta reais).

Caso tenha interesse em adquirir o livro, por favor, mande um e-mail para mim (paulomarreco@gmail.com); só assim poderemos saber se será possível a impressão da obra.

Conto com você!

 

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Os livros preferidos das celebridades

O portal Bol publicou uma interessante lista revelando o livro preferido de algumas celebridades.

Dessa lista, tiro uma boa notícia, uma má notícia, uma conclusão e um fato:

A boa notícia:

Celebridades gostam de ler.

A má notícia:

O gosto de algumas delas é pra lá de duvidoso.

A conclusão:

Deixa estar.

É melhor ler um livro ruim do que não ler livro nenhum.

E o fato:

Desconheço totalmente algumas destas celebridades…

À lista!

 

1 – O Alquimista, de Paulo Coelho, é o livro preferido do ator Will Smith e da cantora Madonna. Gosto e nariz, cada um tem o seu…

ALQUIMISTA

2 – Memórias póstumas de Brás Cubas, do grande e brasileiríssimo Machado de Assis, quem diria, é um dos livros favoritos do cineasta Woody Allen: “Eu recebi pelos correios. Alguém que eu não conhecia me mandou e escreveu ‘Você vai gostar disso’. Eu li porque não é um livro grande. Se fosse maior, eu teria descartado. Mas fiquei chocado com como ele era charmoso e divertido. Não acreditava que ele tivesse vivido numa época tão distante. Você pensaria que foi escrito ontem. É tão moderno e prazeroso. É uma obra muito, muito original. O livro me despertou alguma coisa, da mesma forma que aconteceu com ‘O Apanhador no Campo de Centeio’ [de J. D. Salinger]. Era um assunto de que eu gostava e que foi tratado com muita inteligência, uma originalidade tremenda e nenhum sentimentalismo”, revelou Allen ao jornal “The Guardian”.

Aí, heim, Machadão! Está com tudo e não está prosa!

MACHADO

3 – Dom Casmurro, Machado de Assis. Como era de se esperar, o escritor brasileiro é referência para outras celebridades, como o músico e ator Marcelo Mello Jr. (Marcelo quem?!). Vá lá, eu não conheço o cara, mas só por gostar de Machado ele merece algum crédito…

DOM

4 – O Apanhador no Campo de Centeio, J.D. Salinger. E, por falar em Salinger, não poderia faltar uma celebridade fã do seu renomado livro. No caso, ninguém menos que Bill Gates: “Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever – inclusive a sua própria história”, disse Gates. O apanhador no campo de centeio é o seu livro favorito.

CATCHER

5 – O Caçador de Pipas, Khaled Hosseini. A atriz Grazi Massafera é fã da “comovente história de dois amigos de infância vivendo no Afeganistão da década de 1970”. Pessoalmente, do autor, prefiro Cidade do Sol; mas Grazi parece ter bom gosto para livros…

CAÇADOR

6 – O livro preferido da cantora Lady Gaga é Cartas a um Jovem Poeta, escrito entre 1903 e 1908 por Rainer Maria Rilke respondendo ao jovem aprendiz Franz Kappus sobre questionamentos a respeito da escrita. Três anos após a morte de Rilke, Kappus publicou o livro, por considerar muito importantes as lições de vida que aprendeu com o mestre.

CARTAS

7 – Daniel Radcliffe, o Harry Potter do cinema, tem como livro de cabeceira o curioso O Mestre e Margarida, do russo Mikhail Bulgakov. A obra, considerada um dos cem melhores livros (assim como O apanhador…) já escritos, que conta a história da chegada do diabo e sua comitiva na Moscou comunista de 1930.

O MESTRE E MARGARIDA

8 – Já a autora de Harry Potter, J.K. Rowling, tem como livro favorito Emma, de Jane Austen.

EMMA

9 – E, já que estamos falando do simpático bruxinho Harry Potter, de J.K. Rowling, um dos muitos fãs da saga é o cantor brasileiro Luan Santana. Nem digo mais nada…

HARRY POT

10 – Voltando a Jane Austen, Orgulho e Preconceito, que também figura no rol dos cem melhores livros, é o favorito da bela Keira Knightley, que, inclusive, interpretou a protagonista do livro, Elizabeth Bennet, na ótima adaptação da obra para o cinema. A Letícia Marreco não se cansa de assistir!

ORGULHO E PRE

11 – Já outra atriz famosa (e vencedora do Oscar por sua atuação em Cisne Negro), Natalie Portman tem como livro favorito O Diário de Anne Frank.

DIÁRIO

12 – Outra atriz, outro Oscar, outro livro: Anne Hathaway é fã de O Jardim Secreto, da inglesa Frances Hodgson Burnett.

JARDIM

13 – Mais uma atriz, mais um Oscar (curiosamente, recebido por um filme em que interpreta a atormentada escritora Virginia Woolf), mais um livro: Nicole Kidman ama As Crônicas de Nárnia, escritas por C.S. Lewis.

NARNIA

 

14 – A obra favorita da apresentadora Oprah Winfrey é O Sol é Para Todos, de Harper Lee. O livro fala sobre tolerância, justiça e racismo, na década de 1930, nos EUA, do ponto de vista de uma criança. Pessoalmente, prefiro a abordagem de Faulkner sobre o tema. Mas também é uma boa pedida. Ah! O Sol é Para Todos também é o preferido do ator Alec Baldwin.

O SOL

15 – Já o Tom Hanks tem como livro preferido A Sangue Frio, de Truman Capote: o livro narra a investigação do autor sobre o assassinato da família Clutter em 1959 nos Estados Unidos. Capote foi um dos pioneiros no jornalismo literário e, após passar um ano na região, entrevistando pessoas a respeito do acontecido e averiguando as circunstâncias dos crimes, escreveu o perturbador “A Sangue Frio”.

A SANGUE FRIO

16 –  Esse vale pela curiosidade: O livro preferido da atriz Fiorella Mattheis é A Montanha e o Rio, escrito por Da Chen;  a obra conta a história de dois irmãos, inimigos tanto na vida pessoal, por terem se apaixonado pela mesma mulher, quanto na vida política, em uma China do final do século 20. De onde essa garota saiu com esse livro?

MONTANHA

 

17 – Este livro é um clássico”, falou a atriz Giovanna Antonelli ao se referir a seu livro favorito, Gaivota, do russo Anton Tchekhov. O livro é reconhecido como um dos pilares da dramaturgia moderna.

GAIVOTA

18 – A Menina Sem Estrela, de Nelson Rodrigues, é o preferido da atriz Vanessa Garbelli: “Adoro este livro porque ele traz um Nelson Rodrigues diferente do que se percebe nas peças. Mostra uma fragilidade que é comovente” .

NELSON RO

19 – Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Marquez, é o livro de cabeceira do ator Leonardo Medeiros: “Esse romance me lançou a um mundo de fantasia sem limites até então desconhecido pra mim”. Finalmente alguém se lembrou do velho Gabo!

CEM ANOS

20 – O Lobo da Estepe, de Herman Hesse, mudou a vida do saudoso Cazuza…

LOBO

21 – 1984, de George Orwell, autor de “A Revolução dos Bichos” é o preferido do ator Mel Gibson. A distopia, publicada em 1949, narra a história de Winston, que vive em uma sociedade completamente dominada pelo Estado.

1984

E aí, o que achou da lista?

A DURA VIDA DE UM ESCRITOR ANÔNIMO

CARTA

 

Paulo Marreco

 

 

Escrever é um negócio muito agradável. Deve ser uma das melhores formas de se ganhar o pão de cada dia: escrevendo. Claro, considerando que poucas pessoas conseguem se tornar surfistas profissionais. E ainda menos pessoas conseguem ser o Brad Pitt. Depois destas duas profissões, escritor deve ser a melhor. Eu simplesmente adorei escrever meus dois primeiros livros, Vagas lembranças de um quase atleta e À noite na Barra, além de cada um dos inúmeros contos e crônicas que já tive a desfaçatez de cometer. Como meu próximo – se Deus quiser!- livro, Vida virada do avesso, as peripécias de uma adolescente de 15 anos e sua turma, a Galera do Farol.

Porém, ao contrário dos dois primeiros, lançados por minha própria grana, conta e risco, desta vez optei por tentar vender meu peixe (onde se lê “peixe” entenda-se “livro”) para uma editora; afinal, não dá para ficar sempre investindo seu suado décimo terceiro na publicação de seus livros. Mandei e-mail para algumas, com uma rápida apresentação do autor e da obra; duas delas se interessaram e pediram os originais para avaliação; outra exigia que fosse preenchido um formulário antes mesmo de cogitar analisar o livro. Preenchi o tal formulário e enviei. Sim, uma certa ansiedade tomou conta do pobre escritor esperançoso.

Alguns dias depois, recebo a auspiciosa notícia de que o formulário foi aprovado e a editora “gostaria de conhecer um pouco mais sobre a obra, favor enviá-la em arquivo Word”. A esperança aumenta junto com a confiança; algum mérito há de haver no livrinho, ou três editoras não se dariam a esse trabalho. Especialmente aquela, que exige o preenchimento de prévio formulário…

Arquivo em formato Word enviado, mais um pouco de ansiedade que ninguém é de ferro, mais uns dias e vem outro email: “A leitura analítica do seu livro ‘Vida virada do avesso’ foi concluída e aprovada para o selo (para evitar embaraços e possíveis e prováveis dissabores judiciais futuros, criemos um nome fictício para o tal selo. Digamos, Novos Talentos da Literatura Brasileira). Alvíssaras! Sou –ou serei –um Talento da Literatura Brasileira! Abra alas, Paulo Coelho! Dá licença, Augusto Cury! A essa altura, eu, no auge da vaidade, estava me sentindo o próprio Arturo Bandini de Pergunte ao pó (John Fante)…

Porém, como dizem, quando a esmola é muita o santo desconfia, e também dizem que alegria de pobre dura pouco, ainda mais se o pobre em questão for um pobre escritor; juntamente com essa inebriante notícia de que você está prestes a se tornar um Novo Talento, há uma solicitação curiosa: “por favor, analise a apresentação em anexo e diga se você está de acordo em adquirir 500 ou 1.000 exemplares da primeira tiragem, para encaminharmos o orçamento.”

Orçamento? Adquirir? Imediatamente após ler tais palavras, soou o alarme na minha cabeça; aí tem pegadinha do Malandro… já completamente descartada a tal editora, ainda assim concordei hipoteticamente em adquirir os 500 exemplares; eu queria ver até onde iria a brincadeira…

Aquisição concordada entre muitas aspas e com muitas felicitações por ter sido eleito entre ainda mais aspas, recebi o orçamento, para um original de 160 páginas: “Para viabilizar o projeto o autor deverá adquirir 500 exemplares da primeira tiragem no valor de R$ 14.500,00 ou 1.000 exemplares no valor de R$ 16.500,00 divididos em 7 parcelas através de cheques, nominal à Editora Fulana de Tal ou com 10% de desconto para pagamento a vista. Havendo necessidade de reimpressão do livro, a editora firmará com o autor um novo contrato de edição; todos os custos desta reimpressão ficarão por conta da editora, que ainda remunerará o autor com 10% sobre o valor das vendas.”

 

Quase sem acreditar no que meus olhos liam, perguntei: “E qual seria a remuneração do autor sobre as vendas?” A resposta: “25% sobre as vendas de ebooks e 10% sobre livro impresso a partir da segunda edição…” Ainda descrente de que o negócio pudesse ser assim, insisti: “E sobre a primeira edição?” A resposta: “25% sobre ebook”.

Então, caro leitor solitário, solidário e amigo, ficamos no seguinte: para me tornar um Novo Talento da Literatura Brasileira, e ter à minha disposição quinhentas cópias do meu livro, bastaria desembolsar a módica (oi?) quantia de 14.500 dilmetas; apenas para recuperar o investimento, seria preciso simplesmente vender TODAS as quinhentas cópias por 29 reais (preço de venda, aliás, sugerido pela editora). É óbvio que este valor abrange a produção de muito mais do que as “minhas” quinhentas cópias; portanto, a editora teria a possibilidade de obter lucro vendendo os outros mil exemplares restantes do contrato, a um custo reduzido. Homem primata, capitalismo selvagem, ôô

Bem, no momento, meu bolso não está à altura de me tornar um Novo Talento da Literatura Brasileira; humilde, gentil e penhoradamente, declino. Prefiro aguardar a resposta das outras editoras.

Ou esperar sair o meu décimo terceiro.

 

FRAGMENTOS

MACHADO

“Unamos agora os pés e demos um salto por cima da escola, a enfadonha escola, onde aprendi a ler, escrever, contar, dar cacholetas, apanhá-las, e ir fazer diabruras, ora nos morros, ora nas praias, onde quer que fosse propício a ociosos.

Tinha amarguras esse tempo; tinha os ralhos, os castigos, as lições árduas e longas, e pouco mais, mui pouco e mui leve. Só era pesada a palmatória, e ainda assim… Ó palmatória, terror dos meus dias pueris, tu que foste o compelle intrare com que um velho mestre, ossudo e calvo, me incutiu no cérebro o alfabeto, a prosódia, a sintaxe, e o mais que ele sabia, benta palmatória, tão praguejada dos modernos, quem me dera ter ficado sob o teu jugo, com a minha alma imberbe, com as minhas ignorâncias, e o meu espadim, aquele espadim de 1814, tão superior à espada de Napoleão! Que querias tu, afinal, meu velho mestre de primeiras letras? Lição de cor e compostura na aula; nada mais, nada menos do que quer a vida, que é das últimas letras; com a diferença que tu, se me metias medo, nunca me meteste zanga. Vejo-te ainda agora entrar na sala, com as tuas chinelas de couro branco, capote, lenço na mão, calva à mostra, barba rapada; vejo-te sentar, bufar, grunhir, absorver uma pitada inicial, e chamar-nos depois à lição. E fizeste isto durante vinte e três anos, calado, obscuro, pontual, metido numa casinha da rua do Piolho, sem enfadar o mundo com a tua mediocridade, até que um dia deste o grande mergulho nas trevas, e ninguém te chorou, salvo um preto velho -ninguém, nem eu, que te devo os rudimentos da escrita.”

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

O ENCARGO DE APOLO – FINAL

estrada

Por Paulo Marreco (moi):

Anos se passaram até Edmond ser finalmente levado para o temível Hospital Heisenheimer e ali ser abandonado pelo único amigo que lhe restara; depois do desaparecimento de sua esposa, a polícia cumpriu o papel que lhe cabe em casos tais e, durante meses a fio, importunou o pobre Edmond, principal e previsível suspeito, com visitas, intimações e as mesmas aborrecidas, incríveis e ofensivas perguntas, repetidas até à exasperação. Enquanto isso, Edmond se entregara a uma vida de completa dissolução, entremeada por períodos de intenso fervor religioso, nos quais ele buscava, mais do que refrigério ou perdão para sua alma atormentada, sinais da existência de alguém, de algum poder maior que pudesse nos proteger no terrível dia em que Apolo não tiver mais forças para se levantar e arrostar sozinho as forças das trevas por nós. Não sei se ele encontrou tais sinais; gostaria que tivesse; mas, a julgar pelo brutal desfecho de sua vida, creio que sua busca tenha sido em vão.

O fato inescapável é que Edmond não esteve internado durante boa parte da sua vida por conta de um colapso causado pelo desaparecimento não explicado de sua esposa, nem foi sua personalidade arredia que o levou a se afastar e fugir do mundo dos homens, nem foi a melancolia de um artista deprimido e sensível que o fez procurar o próprio fim. O que acabou com a alma de Edmond foi o mais primitivo e absoluto medo. Eu sei disso; eu conheço a verdade.

Eu conheci pessoalmente Edmond; hoje, o compreendo. Sei o que o destruiu. Hoje, sabendo o que eu sei, não ouso reler O encargo de Apolo.

Vendi a editora por um bom preço. Depois de tudo, o mundo como o conhecemos deixou de fazer sentido para mim. Compreendo Edmond plenamente; mas não tenho coragem (não tenho… coragem?) para tomar a mesma decisão terminal.

Sigo vivendo, temendo, esperando o fim. O meu próprio, ou da humanidade; já não tenho certeza de qual virá primeiro.

Sei que, em algum lugar deste estranho mundo, Apolo está cansado. Sei que ele não estará entre nós por muito mais tempo.

Vila Velha, 17 de abril de 2014.

O ENCARGO DE APOLO – PARTE VII

o valente Apolo

o valente Apolo

Por Paulo Marreco:

Então olhei e finalmente compreendi.

Apolo.

Aquele era o seu destino, o seu encargo. Toda a sua existência se justificava unicamente por aquele dia, por aquele momento, por aquele embate.

De uma forma inexplicável –que minha alma imediatamente assimilou-, Apolo era o obstáculo intransponível, a última oposição, a última (a única?) barreira que impedia o cumprimento dos malévolos desígnios de quem quer que fosse: Shaitan, Satã, diabo…

Apolo continuava na mesma posição no alpendre; deitado, apenas a cabeça levantada. Olhava fixamente para o foco de luz; seus olhos não demonstravam nem espanto nem medo nem ódio. Apenas fitava a nebulosa, imperturbável, como um cão que, sem curiosidade, observa um acontecimento banal qualquer e espera sem interesse o próximo movimento. A luz hesitava na presença do cão; durante um tempo que parecia eterno e estático, não houve qualquer movimento ou manifestação; a impressão era de que estávamos diante de dois ferozes duelistas que se estudavam mutuamente antes de desferir seus ataques. O foco de luz realizou, então, um movimento para a frente. Tranquilamente, Apolo se soergueu em suas patas dianteiras; a nuvem recuou novamente, como se temesse a reação do portentoso animal. Os relâmpagos e trovões se intensificaram grandemente; todo o firmamento parecia prestes a explodir e ruir sobre nós. A nebulosa avançou; Apolo ficou de pé. A luz retrocedeu. Era possível sentir seu ódio na atmosfera, como descargas de pura energia maligna. Neste momento um raio despedaçou uma enorme árvore próxima à casa; imediatamente o fogo irrompeu na mata. A casa gemia e estalava sob a violência do ataque das forças das trevas; parecia prestes a ser destroçada. Apolo, contudo, demonstrava a impassibilidade, a calma, quase a complacência de uma divindade que se depara com uma potestade inferior; entretanto, não tirava os olhos do estranho redemoinho de luz e névoa à sua frente. O foco de luz, então pareceu intensificar-se grandemente e expandir-se; agora, os raios e trovões emanavam do seu terrível centro. Mais uma vez, Shaitan (só podia se tratar, efetivamente, do Mal personificado) avançou contra nós; agora, os pelos no dorso de Apolo se eriçaram, e ele, que já estava de pé, rosnou pela primeira vez, exibindo os poderosos caninos; novamente o recuo da massa de luz.

Este medonho e angustiante embate de forças, este avançar e recuar perdurou durante toda a madrugada; porém, assim que o primeiro raio de sol despontou no horizonte, todo o caos daquela noite começou a se desfazer; juntamente com a lenta alvorada, o vento impetuoso foi amainando, os raios, trovões e relâmpagos cessaram, parou a chuva e a massa de luz diabólica se dissipou numa terrível explosão. O mundo retornou à calma, quietude e normalidade de qualquer manhã; o único vestígio daquela noite colossal era o grosso tronco rebentado e carbonizado pelo raio; quem despertasse naquele exato momento jamais seria capaz de imaginar o pavoroso perigo que corremos; sim, era impossível imaginar que, enquanto os homens dormiam, desguarnecidos em suas camas, nosso pior inimigo havia requerido nossas almas naquela noite, e nosso defensor era um labrador chamado Apolo… 

Por toda a madrugada, o destino da humanidade esteve dependurado, à beira do abismo, à mercê da bravura e da resistência do valente Apolo; somente o enorme cão nos salvou da perdição que nos estava reservada naquela noite. Sim, eu não tenho qualquer sombra de dúvida; somente a presença poderosa de Apolo (quem o teria enviado? Quem o teria capacitado para exercer aquela tarefa crucial?) nos livrou das garras vorazes das potestades do abismo, dos principados e dominadores deste mundo tenebroso. Não fosse Apolo, estaríamos condenados; não fosse Apolo, o mundo teria sido definitivamente submetido ao domínio das trevas.

Eu estava completamente exausto e perplexo; como minha mente: humana, limitada, analítica e carnal, poderia compreender todas as implicações sobrenaturais daquela noite turbulenta? Como os meus olhos céticos aceitariam crer em todo aquele horror que eles presenciaram naquela noite? Era impossível a um homem do nosso tempo aceitar que todos aqueles eventos diabólicos tivessem ocorrido; e, contudo eles, de fato, ocorreram!   

Assim que toda aquela cruenta luta chegou ao fim, Apolo simplesmente se deitou novamente no alpendre, desfrutando os tépidos raios de sol que incidiam sobre o piso de madeira, como se nada tivesse acontecido; como se não tivesse acabado de salvar a raça humana da danação eterna. Sozinho. Entretanto, seus olhos demonstravam um cansaço antigo, uma estranha tristeza, como se lamentasse o que o futuro reservava para o mundo dos homens. Eu olhava fixamente pela janela, mesmerizado pelo tétrico espetáculo; a voz serena e acolhedora (sim; pela primeira vez, ele fora gentil) de meu anfitrião me chamou de volta à normalidade:

– E então, doutor, o que o senhor achou da atuação do nosso estimado Apolo? Nada mal para um velho cão gordo e sarnento; salvar o mundo assim, sozinho, mais uma vez? Hum?

Fiquei petrificado; como assim, mais uma vez, exclamei; esse medonho ataque já aconteceu antes?

– Certamente. Nos meus quatrocentos e vinte anos, essa foi a terceira investida que eu presenciei. Porém, além de ocorrerem em intervalos menores de tempo, os ataques estão se intensificando a cada vez. Esse foi o pior de todos que eu já vi.

A perplexidade me dominou por completo. Que espécie de loucura era aquela? Sem demonstrar qualquer emoção, Elijah (finalmente soube que este era o nome do meu anfitrião) explicou-me tudo: desde tempos imemoriais, o primeiro homem dos de sua estirpe recebeu a surpreendente visita de um Enviado, que lhe confiou o filhote de um Guardião, dando-lhe a incumbência de velar pelos nossos protetores, até mesmo ao custo de sua própria vida; desde então, cuidar para que sua linhagem se perpetuasse era o único propósito de suas existências. Durante séculos, eles foram bem sucedidos; os Guardiães se reproduziam, cresciam e cumpriam sua árdua missão. Porém, Apolo fora o único de sua ninhada que sobrevivera; era, portanto o último de sua raça imprescindível; e, aos cento e oitenta e três anos, a vida de Apolo não deveria durar muito mais; com a sua extinção, não haveria mais ninguém para rechaçar a próxima investida das hostes infernais.

– Mas, e vocês, não podem fazer nada, indaguei, desesperado com a hipóteses de que não houvesse ninguém mais para resistir ao Mal quando ele nos atacasse novamente; essa espingarda aí não tem poderes especiais? Ele sorriu de minha ingenuidade:

– Infelizmente, doutor, a velha Betsy aqui não passa de uma espingarda comum; ela serve apenas para matar uns coelhos de vez em quando. E olhe lá…

– Mas porque você a carregava enquanto tudo aquilo estava acontecendo?

– Bem, sempre pode acontecer que o nosso Apolo ali falhe na sua tarefa. E, nesse caso, é melhor estar preparado.

– Preparado…?

Seu olhar foi bastante significativo:

– Acho que, depois dessa noite, o senhor já acredita em alguma coisa. Pois bem: o senhor não ia querer acabar nas garras do diabo em pessoa, não é mesmo, doutor?

Anuí meneando a cabeça. Não, certamente, eu não iria querer acabar nas mãos do diabo, nem iria querer viver em um mundo onde ele desse todas as cartas; qualquer coisa seria melhor do que isso; até mesmo levar uma bala na cabeça. Olhei para o sol que já despontava alto no horizonte; seus raios generosos aqueciam minha face; depois de todo o horror daquela noite, aquela sensação de frescor, de normalidade; a sensação de que tudo continuava em ordem no nosso velho mundo, era magnífica; contudo, ela durou apenas um instante; a consciência de que estávamos sob a ameaça perpétua de uma iminente invasão diabólica me dominava; eu sabia que minha vida jamais voltaria a ser a mesma. Como poderia? Para onde alguém poderia fugir? Onde poderia o pobre e arrogante e patético e autossuficiente e fraco ser humano se esconder da presença e da atuação do Mal, depois que este tiver finalmente dominado nosso mundo; depois que Apolo não mais estiver entre nós para nos defender? Aflito, perguntei a Elijah:

– O que será de nós, então, quando Apolo faltar?

Ele olhou com carinho para o velho cão.

– Quando ele faltar, eu e Betsy ainda estaremos aqui.

– E isso será… suficiente? Conseguirá vencer?

Ele retirou do bolso um toco de charuto e o acendeu. Depois de uma longa baforada, respondeu com um sorriso indiferente, mastigando o charuto e as palavras:

– Não; mas isso não importa.

Durante um prolongado momento, permanecemos ambos em silêncio; então ele prosseguiu:

– O fim de toda carne é a extinção, o retorno ao pó; o que conta é a forma como vivemos e morremos. E tudo que eu vou querer naquele dia é uma chance de acertar aquela fuça fedorenta. Será uma boa morte, o doutor não acha?

– Mas, e quanto a nós? A raça humana? Quem nos defenderá?

– Bem, doutor, me parece que agora o senhor já não é mais tão incrédulo; o senhor já acredita –acho que o senhor já sabe– que o diabo existe, não é mesmo? Pois então, torça para Deus também existir…

– A propósito, não adianta o senhor procurar a sua esposa. A humanidade nunca sai impune destas batalhas contra o Mal; alguém precisa pagar o preço e aplacar o ódio milenar do nosso adversário.

De fato, por mais que eu tenha procurado –e eu realmente a procurei; e eu realmente ainda a procuro!-, jamais voltei a encontrar a minha adorada Sue.”

CONTINUA…

O ENCARGO DE APOLO – PARTE VI

A Tempestade

– Afaste-se já daí, doutor. Ninguém sai desta casa enquanto tudo isso não acabar. E, no que depender de Apolo e de mim, ninguém entra. Nada entra.

Transtornado, gritei:

– Pelo amor de Deus, que diabos está acontecendo aqui?! Que tipo de insanidade é essa?!

Ele deu uma forte risada, tranquilo em meio ao caos:

– Isso, doutor? Isso não é nada; isso é apenas o glorioso, o admirável fim do mundo se aproximando, tentando entrar! Pois que venha! Nós outros aqui estamos prontos! Eia! Mostre a ele, Apolo!

Achei que o homem estava louco; mas ele não estava surpreso, e realmente não se assombrava com todo aquele alucinado turbilhão; de fato, parecia estar, de algum modo, esperando; parecia estar preparado para enfrentar aquele inferno caótico.

– Onde está minha esposa, perguntei, desesperado.

– Preocupe-se consigo mesmo por enquanto, doutor; se sobrevivermos a esta noite, depois veremos o resto.

Exasperado, corri até ele, segurei-o pela gola e gritei:

– Mas é a minha esposa que está lá fora, imbecil! Eu preciso fazer alguma coisa; eu preciso salvá-la; não compreende?!

Ele me encarou com um sorriso sarcástico; em seguida, empurrou-me com violência:

– O doutor realmente acha que teria como salvar a sua mulher? Acha que poderia salvar quem quer que fosse? Acha que alguém poderia salvá-la? Que alguém poderia nos salvar? Pois pense bem, meu caro doutor; olhe ao seu redor e pense muito bem: qual tipo de poder o senhor acha que está se manifestando aqui, heim? Contra quem acha que vamos lutar? Quem poderia resistir a tudo isso? Quem poderia se levantar contra o próprio Mal e prevalecer?

– Do que você está falando, homem? Que loucura é essa?!

– É isso mesmo, doutor. Não vê este hediondo espetáculo se desenrolando bem diante dos seus olhos? Não percebe que o senhor é uma das poucas testemunhas do evento mais terrível da história humana? Sim, doutor; o senhor está presenciando o Juízo Final; sim; abra bem os olhos e contemple o Armagedom em toda a sua profana glória!

O homem agora parecia ter entrado numa espécie de transe; balbuciava palavras numa antiga e esquecida e corrompida língua; em seguida, iniciou um horrendo canto agônico. Cada vez mais aterrado, olhei para a janela; a despeito do terror que me dominava, eu precisava ver; apesar do terror, eu precisava saber! Lentamente, fui me aproximando do quadrado de vidro que me permitiria(?) desvendar aquele horror…

Não creio ser possível descrever em linguagem de homens o que vi e senti naquela noite maldita; entretanto, cumpre tentar, de todo modo. O mundo precisa saber; precisa entender; precisa se preparar!

O que meus olhos contemplaram a partir da janela do hotel foi algo terrível e inaudito e incompreensível; toda a vegetação ao redor do hotel vergava sob a força avassaladora do vento; galhos e pequenos objetos voavam em círculos frenéticos. A intensa bruma vinda do oceano envolvia a tudo e deixava a atmosfera opaca, turva, indefinida, confusa. O trovoar incessante estremecia o solo; incessantes relâmpagos rabiscavam o negro céu; e eu logo percebi que aquele era apenas o início…

A luz macabra que havia inundado o hotel provinha de algo semelhante a uma diminuta estrela vermelha, flutuando a uns cinco metros acima do solo, diante da entrada do hotel, movimentando-se um pouco, lentamente, para frente e para trás. Enquanto eu a observava, notei que seu foco de luz começou a se expandir; ao mesmo tempo, como se ela atraísse a matéria ao seu redor, uma espécie de massa foi se acumulando sobre ela, indefinida, volátil, cambiante; expansiva; a luz foi assumindo a aparência de uma pequena nebulosa, de cujo centro emanavam violentas explosões que expandiam e retraíam seu núcleo; tentáculos de fumaça bruxuleavam para todos os lados. A sinistra forma me pareceu um tumor; sim, um tumor maligno que almejava se espalhar por todo o universo para contaminar, arruinar, devorar, destruir toda forma de vida! 

Eu jamais vira nada minimamente parecido com aquela nebulosa pestilenta; não era possível discernir a origem desta estranha emanação; mas eu era capaz de compreender, pela sua posição e movimentos, que não se tratava de nada produzido por mãos humanas. Imediatamente, instintivamente, soube –algo dentro de mim soube; meu coração desfalecido soube, meu espírito imortal soube- que a nuvem era… o Mal!

Sim, aquela nebulosa que irradiava a luz maldita era a essência do Mal; era sua forma primitiva e violenta e pura.

Aquela nuvem, aquela luz era… Shaitan!

Compreendi que a nuvem tentava invadir o hotel; compreendi que, conquistado o hotel, e a partir dali, o Mal se espalharia por todo o mundo dos homens; compreendi que, se conseguisse invadir o hotel, o Mal triunfaria definitivamente sobre a humanidade. Percebi que o Mal, contudo, hesitava. Alguma força irresistível o impedia de irromper porta adentro e cumprir seus desígnios infernais. Mas o que seria tão poderoso a ponto de barrar os terríveis poderes do abismo? O que, ou quem, seria capaz de se postar diante de Shaitan e suas hostes demoníacas e dizer: não passarão? Quem, a não ser um anjo ou um deus, poderia prevalecer diante do Mal Absoluto?

Então olhei e finalmente compreendi.

Apolo.”

CONTINUA…