Fragmentos

O amor perdoa o imperdoável, senão deixa de ser virtude. A
esperança não desiste, mesmo em face do desespero, senão deixa de ser
virtude. E a fé acredita no inacreditável, senão deixa de ser virtude.

G. K. Chesterton, em Ortodoxia

G. K. CHESTERTON

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Fragmentos

— Acha que lhe é impossível ver o reino do bem e da verdade sobre a terra.
Também eu não acreditava em tal coisa e não é possível admiti-lo se se considerar
a nossa vida como o fim de tudo. Sobre a terra, principalmente sobre a terra —
dizia ele, apontando para os campos —, não há verdade: tudo é mentira e
maldade. Mas no universo, no conjunto do universo é a verdade que reina. Nós
somos por um momento filhos da terra, mas eternamente somos filhos do
universo. Não sentirei eu, no fundo da minha alma, que sou uma parte deste todo,
enorme e harmonioso? Não sentirei eu que nesta imensa e infinita quantidade de
seres, através da qual se manifesta a divindade ou a suprema força, o que vem a
dar no mesmo, eu sou um fuzil, um degrau da escada dos seres que vai do mais
ínfimo ao mais elevado? Se eu vejo, se vejo claramente esta escada que vai da
planta até ao homem, porque é que eu hei-de partir do princípio de que ela se
detém precisamente em mim em vez de alcançar sempre mais longe, cada vez
mais longe? Eu sinto em mim que, pela mesma razão de que nada se perde no
universo, também eu não posso desaparecer e que continuarei a ser para todo o
sempre como sempre tenho sido. Sinto que além de mim e para além de mim há
espíritos vivos e que é nesse universo que reside a verdade.
— Sim, é a doutrina de Herder — interveio André. — Mas, meu caro, não é
essa doutrina que me convence: a vida e a morte, sim. O que me convence é ver
urna criatura a quem queremos muito, a quem muito estamos presos, para com
quem nos sentimos culpados e de que esperamos remir o mal que lhe fizemos — e
ao dizer estas palavras a sua voz tremia e desviava a vista — e que de um
momento para o outro começa a sofrer, a padecer tremendas dores e deixa de
existir… Porquê? É impossível que não haja uma resposta para isto! E eu estou
convencido de que há… Eis o que me convence, eis o que me convenceu — concluiu
ele.
— Claro, claro — repetiu Pedro. — Mas não é isso precisamente que eu estive
a dizer?
— Não. O que eu quero dizer é que não são os raciocínios que me convencem
da necessidade duma vida futura, mas este fato apenas: o de irmos pela vida fora
de mão dada com um ser humano, e este ser, de repente, desaparecer além, no
nada, e então determo-nos diante desse abismo e ficarmos a olhar. E eu, eu olhei…
— E então? Sabe que há um além, que há alguém. Além é a vida futura. Esse
alguém é Deus.
O príncipe André permanecia calado. Havia muito já que a carruagem e os
respectivos cavalos tinham atingido a outra, margem, que estes já estavam de
novo atrelados, que o Sol já mal se via no horizonte e que a geada do crepúsculo
começava a cobrir de estrelas de gelo o lamaçal do atracadouro, e ainda Pedro e.
André, com grande espanto dos lacaios e dos barqueiros, continuavam no barco
entretidos a falar.
— Se Deus existe, se há uma vida futura, a verdade existe, existe a virtude, e
a suprema felicidade do homem consiste no esforço para as alcançar. É preciso
viver, é preciso amar, é preciso crer — dizia Pedro —, pois não vivemos apenas
nesta hora, sobre este pedaço de terra, mas sempre vivemos e eternamente
havemos de viver, além, no Todo.— E apontava para o céu.
André continuava apoiado à borda do barco e ouvia Pedro sem deixar de fitar
os reflexos vermelhos do sol poente nas águas cada vez mais azuis. Pedro calou-se.
A serenidade era completa. Há muito que o barco estava atracado e não se ouvia
senão o tênue ondular da superfície líquida batendo de encontro ao fundo da
embarcação. A André afigurou-se-lhe que aquele sussurro confirmava o que dizia
Pedro: «É a verdade, acredita.»
Soltou um suspiro e envolveu num olhar de criança, luminoso e terno, o rosto
de Pedro, muito corado e vitorioso, e como sempre intimidado diante da
superioridade do amigo.
— Sim, se ao menos assim fosse! — exclamou. — Vamos, o carro espera-nos. —
E, pondo os pés em terra, soergueu os olhos para o céu que Pedro lhe apontara e,
pela primeira vez depois de Austerlitz, tomou a ver aquele céu profundo e eterno,
o céu que havia contemplado estendido no campo de batalha, e sentimentos há
muito nele adormecidos, melhores sentimentos, despertaram subitamente na sua
alma, como numa ressurreição de alegria e juventude. Entregues aos hábitos
quotidianos da vida, todas as suas tendência íntimas se haviam desvanecido pouco
a pouco, mas, embora não tivesse sabido nutri-las, o certo é que continuava a
senti-las vivas dentro de si. Desta sua conversa com Pedro passou a datar uma
vida que, se exteriormente parecia a mesma, no seu foro íntimo passara a ser
completamente nova.

GUERRA E PAZ

Lev Tólstoi, Guerra e Paz

Fragmentos

A vida atual está contaminada até as raízes. O homem usurpou o lugar das
árvores e dos animais, contaminou o ar, limitou o espaço livre. Mas o pior está
por vir. O triste e ativo animal pode descobrir e pôr a seu serviço outras forças da
natureza. Paira no ar uma ameaça deste gênero. Prevê-se uma grande riqueza…
no número de homens. Cada metro quadrado será ocupado por ele. Quem se
livrará da falta de ar e de espaço? Sufoco só de pensar nisto!
E infelizmente não é tudo.
Qualquer esforço de restabelecer a saúde será vão. Esta só poderá pertencer
ao animal que conhece apenas o progresso de seu próprio organismo. Desde o
momento em que a andorinha compreendeu que para ela não havia outra vida
possível senão emigrando, o músculo que move as suas asas engrossou-se,
tornando-se a parte mais considerável de seu corpo. A toupeira enterrou-se e todo
o seu organismo se conformou a essa necessidade. O cavalo avolumou-se e seus
pés se transformaram em cascos. Desconhecemos as transformações por que
passaram alguns outros animais, mas elas certamente existiram e nunca lhes
puseram em risco a saúde.
O homem, porém, este animal de óculos, ao contrário, inventa artefatos
alheios ao seu corpo, e se há nobreza e valor em quem os inventa, quase sempre
faltam a quem os usa. Os artefatos se compram, se vendem, se roubam e o
homem se torna cada vez mais astuto e fraco. Compreende-se mesmo que sua
astúcia cresça na proporção de sua fraqueza. Suas primeiras máquinas pareciam
prolongamentos de seu braço e só podiam ser eficazes em função de sua própria
força, mas, hoje, o artefato já não guarda nenhuma relação com os membros. E
é o artefato que cria a moléstia por abandonar a lei que foi a criadora de tudo o
que há na Terra. A lei do mais forte desapareceu e perdemos a seleção salutar.
Precisávamos de algo melhor do que a psicanálise: sob a lei do possuidor do
maior número de artefatos é que prosperam as doenças e os enfermos.
Talvez por meio de uma catástrofe inaudita, provocada pelos artefatos,
havemos de retornar à saúde. Quando os gases venenosos já não bastarem, um
homem feito como todos os outros, no segredo de uma câmara qualquer neste
mundo, inventará um explosivo incomparável, diante do qual os explosivos de
hoje serão considerados brincadeiras inócuas. E um outro homem, também feito
da mesma forma que os outros, mas um pouco mais insano que os demais,
roubará esse explosivo e penetrará até o centro da Terra para pô-lo no ponto em
que seu efeito possa ser o máximo. Haverá uma explosão enorme que ninguém
ouvirá, e a Terra, retornando à sua forma original de nebulosa, errará pelos céus,
livre dos parasitas e das enfermidades.

Ítalo Svevo, A Consciência de Zeno

svevo

Fragmentos

A carta de Nikoluchka foi lida uma centena de vezes, e todos que eram
considerados dignos de a ouvir foram convocados perante a condessa, que a tinha
sempre consigo. Quando vieram os preceptores, a ama Mitenka e muitas outras
pessoas conhecidas a condessa leu-lhes a carta sempre com renovada satisfação e
de cada vez descobria novas qualidades no seu Nikoluchka. Era para ela qualquer
coisa de estranho e de extraordinário e ao mesmo tempo um motivo de alegria
que aquele filho, que ela sentira remexer nas suas entranhas vinte anos antes,
aquele filho, motivo de não poucas discussões com o conde, que o estragava com
mimos, aquele filho a quem ela ensinara a dizer «grucha» e «baba», aquele filho
estivesse agora lá longe, num país estrangeiro, no meio de estranhos, e que só,
sem ninguém que o ajudasse ou guiasse, se comportasse como um guerreiro
corajoso e ai desenvolvesse uma atividade de soldado destemido. Para ela, a
experiência dos séculos, que nos ensina que as crianças se fazem homens por um
insensível pendor, era coisa que não existia. A transformação operada no filho
afigurava-se-lhe tão extraordinária que era como se milhões e milhões de homens
não houvessem obedecido ao mesmo destino. Tal qual como vinte anos antes,
quando aquele pequeno ser andava, dentro dela, e ela pensava que nunca ele se
lhe dependuraria do seio ou que nunca seria capaz de vir a falar, também agora
lhe parecia impossível que esse mesmo pequenino ser fosse um homem vigoroso e
valente, modelo de filhos, soldado exemplar como se depreendia das palavras da
sua carta.

Guerra e Paz, Leon Tosltoi

tolstoi

FRAGMENTOS

Devo confessar que acredito pouco nas leis. Quando demasiado duras, são transgredidas com razão. Quando muito complicadas, o engenho humano encontra facilmente o meio de escapar por entre as malhas dessa rede frágil e escorregadia. O respeito pelas leis antigas corresponde ao que a piedade humana tem de mais profundo; serve também de travesseiro à inércia dos juízes. As leis mais antigas participam da selvageria que elas mesmas pretendem corrigir; as mais veneráveis são ainda um produto da força. A maioria das nossas leis penais só atingem, talvez felizmente, uma pequena parte dos culpados; nossas leis civis jamais serão bastante flexíveis para se adaptar à fluida variedade dos fatos. Mudam menos rapidamente do que os costumes; perigosas quando estes as ultrapassam, o são ainda mais quando pretendem precedê-los. Contudo, desse amontoado de inovações perigosas que oferecem tantos riscos, ou de rotinas obsoletas, surgem aqui e ali, como na medicina, algumas fórmulas aproveitáveis. Os filósofos gregos ensinaram-nos a conhecer um pouco melhor a natureza humana: nossos melhores juristas vem trabalhando há algumas gerações visando ao bom senso. Eu mesmo efetuei algumas dessas reformas parciais, que são as únicas duradouras. Toda lei muitas vezes transgredida é má: cabe ao legislador revogá-la ou substituí-la antes que o desprezo por uma disposição insensata se estenda a outras leis mais justas.

Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar

MARGUERITE YOURCENAR