Fragmentos

— Acha que lhe é impossível ver o reino do bem e da verdade sobre a terra.
Também eu não acreditava em tal coisa e não é possível admiti-lo se se considerar
a nossa vida como o fim de tudo. Sobre a terra, principalmente sobre a terra —
dizia ele, apontando para os campos —, não há verdade: tudo é mentira e
maldade. Mas no universo, no conjunto do universo é a verdade que reina. Nós
somos por um momento filhos da terra, mas eternamente somos filhos do
universo. Não sentirei eu, no fundo da minha alma, que sou uma parte deste todo,
enorme e harmonioso? Não sentirei eu que nesta imensa e infinita quantidade de
seres, através da qual se manifesta a divindade ou a suprema força, o que vem a
dar no mesmo, eu sou um fuzil, um degrau da escada dos seres que vai do mais
ínfimo ao mais elevado? Se eu vejo, se vejo claramente esta escada que vai da
planta até ao homem, porque é que eu hei-de partir do princípio de que ela se
detém precisamente em mim em vez de alcançar sempre mais longe, cada vez
mais longe? Eu sinto em mim que, pela mesma razão de que nada se perde no
universo, também eu não posso desaparecer e que continuarei a ser para todo o
sempre como sempre tenho sido. Sinto que além de mim e para além de mim há
espíritos vivos e que é nesse universo que reside a verdade.
— Sim, é a doutrina de Herder — interveio André. — Mas, meu caro, não é
essa doutrina que me convence: a vida e a morte, sim. O que me convence é ver
urna criatura a quem queremos muito, a quem muito estamos presos, para com
quem nos sentimos culpados e de que esperamos remir o mal que lhe fizemos — e
ao dizer estas palavras a sua voz tremia e desviava a vista — e que de um
momento para o outro começa a sofrer, a padecer tremendas dores e deixa de
existir… Porquê? É impossível que não haja uma resposta para isto! E eu estou
convencido de que há… Eis o que me convence, eis o que me convenceu — concluiu
ele.
— Claro, claro — repetiu Pedro. — Mas não é isso precisamente que eu estive
a dizer?
— Não. O que eu quero dizer é que não são os raciocínios que me convencem
da necessidade duma vida futura, mas este fato apenas: o de irmos pela vida fora
de mão dada com um ser humano, e este ser, de repente, desaparecer além, no
nada, e então determo-nos diante desse abismo e ficarmos a olhar. E eu, eu olhei…
— E então? Sabe que há um além, que há alguém. Além é a vida futura. Esse
alguém é Deus.
O príncipe André permanecia calado. Havia muito já que a carruagem e os
respectivos cavalos tinham atingido a outra, margem, que estes já estavam de
novo atrelados, que o Sol já mal se via no horizonte e que a geada do crepúsculo
começava a cobrir de estrelas de gelo o lamaçal do atracadouro, e ainda Pedro e.
André, com grande espanto dos lacaios e dos barqueiros, continuavam no barco
entretidos a falar.
— Se Deus existe, se há uma vida futura, a verdade existe, existe a virtude, e
a suprema felicidade do homem consiste no esforço para as alcançar. É preciso
viver, é preciso amar, é preciso crer — dizia Pedro —, pois não vivemos apenas
nesta hora, sobre este pedaço de terra, mas sempre vivemos e eternamente
havemos de viver, além, no Todo.— E apontava para o céu.
André continuava apoiado à borda do barco e ouvia Pedro sem deixar de fitar
os reflexos vermelhos do sol poente nas águas cada vez mais azuis. Pedro calou-se.
A serenidade era completa. Há muito que o barco estava atracado e não se ouvia
senão o tênue ondular da superfície líquida batendo de encontro ao fundo da
embarcação. A André afigurou-se-lhe que aquele sussurro confirmava o que dizia
Pedro: «É a verdade, acredita.»
Soltou um suspiro e envolveu num olhar de criança, luminoso e terno, o rosto
de Pedro, muito corado e vitorioso, e como sempre intimidado diante da
superioridade do amigo.
— Sim, se ao menos assim fosse! — exclamou. — Vamos, o carro espera-nos. —
E, pondo os pés em terra, soergueu os olhos para o céu que Pedro lhe apontara e,
pela primeira vez depois de Austerlitz, tomou a ver aquele céu profundo e eterno,
o céu que havia contemplado estendido no campo de batalha, e sentimentos há
muito nele adormecidos, melhores sentimentos, despertaram subitamente na sua
alma, como numa ressurreição de alegria e juventude. Entregues aos hábitos
quotidianos da vida, todas as suas tendência íntimas se haviam desvanecido pouco
a pouco, mas, embora não tivesse sabido nutri-las, o certo é que continuava a
senti-las vivas dentro de si. Desta sua conversa com Pedro passou a datar uma
vida que, se exteriormente parecia a mesma, no seu foro íntimo passara a ser
completamente nova.

GUERRA E PAZ

Lev Tólstoi, Guerra e Paz